terça-feira, 29 de março de 2016

trama e não o desenlace

Desde os 12 que desejo outra coisa. Nem sabia o quê, só sabia que queria outra coisa diferente, romper com a narrativa linear traçada à minha frente geração por geração.
Só não fazia ideia de que romper com a narrativa linear não significava necessariamente CRIAR outra.

Contabilizando quedas, tropeços, pensando os 50 passos à frente e os 150 para trás como manobra de dança podemos dizer que em termos de desconstrução ao menos evoluí bastante.

Nem eu mesma consigo acreditar na quantidade de pessoas que já fui. E no entanto o que há de essencial e único é sempre o mesmo e isso é quase invisível e poucos têm acesso, quase ninguém consegue reter. Nem eu

sábado, 30 de janeiro de 2016

Taking residence in homelessness

Only when does  the person analysing himself recognize the degrede to which this mysterious rootedness in heimat clouded his ability to see reality clearly. He then realizes not only that each heimat blinds in its own particular way those who are enmeshed in it, and that all heimats are equal in this sense, but also that clear judgment, decision Making, and action become possíble only  after one sees oneself clear of this enmeshment. 

A liberdade do migrante - Vilém Flusser

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

as conchas do mediterrâneo


são pequenas – quase todas as que colhi naquela tarde têm um ar alaranjado como se ao serem lixadas pelas águas + areia ganhassem ferrugem. Redondas, algumas do tamanho exato de uma unha do polegar – do meu polegar, pequeno, mais precisamente do tamanho de uma pétala de flor de coentro ou alfazema, se é que as dimensões de uma espécie de flor possam alguma vez serem precisas. Em quase todas o furo, cicatriz minimal deixada pelas correntes como, trinta anos depois, a marca de vacina no braço.
Penso em brincos e colares. Penso na água deslizando perfeita naquele furo cilíndrico, a água gelada do mediterrâneo no inverno, a sopa quente em que vira o mar quando é verão. Estamos em janeiro; o ar da maresia nos faz bem, entra gelado nas narinas enchendo o pulmão de azul. Ele observa o mar do areal, me afasto; não resisto e sigo sozinha pela areia, sapatos, gorro, luvas e sobretudo em direção ao azul – quero a espuma branca, o momento exato em que as ondas quebram e se derramam na costa, ser com o mar no momento e movimento. Já sem luvas vou e venho sorrindo com a correnteza, ondas pequenas e rasteiras como as de um rio, apanhando meus pés em botas geladas
quando menos espero
Um cachorro surgindo do nada atira as patas sobre o meus joelhos, quase me derruba e some num segundo seguindo na obsessão de cavar buracos na areia. Rio confusa com o embate do encontro, a dona se desculpa, à toa, eu respondo: "quando está na praia ele passo o tempo todo nisso" - explica, extraordinariamente ao meu lado e de repente já não
Cachorros também catam conchas,
                                                       procuram memórias no fundo da areia?

Do outro lado, no pier, ele,
                                     alheio
                                               algures no seu mar.

E eu lembro.

Era noite. Eu com medo e com frio, ele sem paciência para tanta imobilidade.  Nós sozinhos na cidade escura de metropolitanos vazios. Cada um de nós a cada minuto mais cada um, trancados no próprio silêncio.
E, de repente, o impasse. E de repente as águas que não paravam de nascer nos olhos. Gota salgada pesando na face.

Vamos para a praia, vamos ver o seu mar, insisto.
Ele me segue, a contragosto.
Caminho para a praia, inteira na tarefa de salvar-nos da noite, reunir sombra e silhueta, mãos e olhos novamente; respiro fundo, chamo pelos deuses de outrora e traço com a varinha mágica dos dedos nossos nomes na areia, e me certifico de que estamos muito longe das ondas e de que a inscrição será eterna ao menos até virarmos de costas e nos afastarmos
                                         [como em qualquer feitiço:]
em troca ofereço palavras até então minhas ao fundo do mar e sei que as perco; águas vivam dançam num raio de luz no azul negro colhendo a oferta; só quero vê-lo sorrir, só quero acalmar seu peito. E disso elas entendem como ninguém.
Ele cede um meio riso – eu sigo no escuro para terminar o serviço nas águas noturnas, murmurando a prece protegida pelo breu da noite, onde só uma leve crosta branca distingue de vez em quando o céu do mar.
"Só queria sumir"– a voz dele ecoa no búzio do meu peito que se apequena. Faço o que sei fazer: mergulho pés, mãos e rosto na água escura e espero a pérola surgir. São meus olhos que a fabricam?

"Toma, olha aqui o teu amuleto"– digo brincando enquanto coloco a pedra nas suas mãos quentes, que me retêm. Como a dos nossos pais, tios, avós. Pedras, ondas, adeus. E magia. E o nosso encontro.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

2015

Uma grande montanha russa

Um ano de obstáculos inimaginavelmente dolorosos  – um ano de benções inesperadas.

Ano de muita luta contra a própria insegurança, de colher assustada os frutos de um trabalho de anos – desde daqueles anos pré-alfabetização em que contava histórias para o gravador, ao fascínio de conseguir entender o que aqueles símbolos do alfabeto diziam, à mágica de conseguir dizer o que queria com eles – até que eles se tornaram o primeiro e único porto seguro real. A única âncora nesse mundo de tsunamis. A terra firme, em qualquer areia movediça.

Ano de assumir o casamento com a escrita. De deixar para trás velhos conceitos, ideias que não cabem mais. Roupas também. 
E de conseguir navegar, apesar de tudo. Com um sorriso. 
Sem nunca perder a doçura,

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

o beijo que não se esquece


Algumas pessoas magoam a gente só para se tornarem inesquecíveis.
Algumas pessoas sacaneiam a gente só para que não esqueçamos que elas estão ali.
Algumas pessoas se apropriam do que é nosso não porque aquilo lhes interesse, mas só para chamar atenção. O mais divertido é quando elas se convencem que realmente desejam o objeto de desejo roubado.
Enfim. Algumas pessoas só fazem merda por aí e elas podem, porque são desequilibradas, doentes, ou amoralmente superiores, livres e se orgulham disso (moral e ética é para os fracos).







terça-feira, 10 de novembro de 2015

lilás


Na primavera, os campos estavam sempre cobertos de girassóis, enormes e assustadores - suas pétalas douradas como olhos abertos para o céu azul. Caminhávamos em meio às flores, eu insistia, afinal, durava pouco - no verão o amarelo ouro enegrecia em cadáveres ressequidos, enevoados de abelhas, mariposas adormecidas espreitando nosso passo por baixo da terra. O que também durava pouco. Em poucos meses vinha o outono e as pequenas flores lilazes despontavam à nossa volta, em todos os canteiros, jardins, parques -  até, no inverno, colorirem de roxo a montanha inteira, encobrindo a vista do mar, estonteando quem ousasse com o seu cheiro. Quem ousaria? No início eu colhia algumas, espalhando o cheiro pela casa, em chás, perfumando banhos longos e intermináveis em que a flor se fundia em água, vapor e óleo, se colando à pele. Mais tarde, só o roçar dos dedos nas pétalas pequenas já bastava - e só aproximar os lábios das flores já era  mergulhar na substância de matizes lilazes, sentindo o gosto do gozo, retendo-o em mim - expansão e continência. Quem ousaria ? E quem ousaria dizer não? 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

toska

Nabokov, sobre a intraduzível toska.
Dar nome aos bois sempre ajuda - ainda que seja em russo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Say you'll see me again even if it's just in your wildest dreams

  

Standing in a nice dress, staring at the sunset, babe
Red lips and rosy cheeks
Say you'll see me again even if it's just pretend

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Sinking in the past| The things that shouldn't last | Just put to bed and | stand beside me

Come pick me up
Take me out
Fuck me up
Steal my records
Screw all my friends
They're all full of shit
With a smile on your face
And then do it again

I wish you would