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domingo, 21 de junho de 2015

I rest my case

– O que houve, Cristina? Você parecia tão alegre na festa de ontem, que cara é essa?
– Uma amiga mãe, com quem eu não tinha contato há uns dois anos. Matou-se. Não tinha nem trinta anos...
– Mas você só arruma amiga doida, heim...
–....

quarta-feira, 3 de junho de 2015

falling from grace

você não precisa dizer sim, responder likes, fazer nada se você já sabe o que eles querem e não, não é o mesmo que você.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Como lidar com um coração partido (sim, o seu)

minha parede: a cada heartbreak um novo poema

Ao longo dos anos, desenvolvi vários métodos para cicatrizar meu coração, que virou quase uma colcha de retalhos – ou melhor, um mosaico de vitrais, o que soa mais frágil, bonito e in. Desde o meu primeiro break-up aos 18 anos, sozinha em Portugal, até o último, com 32, aprendi várias técnicas para amenizar a dor – a maior parte delas não inclui analgésicos nem calmantes, nada que precise de receita médica. São coisas simples – o que traduzi há poucos dias para uma amiga  como "kit de primeiros socorros". E a primeira lição a aprender é: o que não colocar dentro dele – ou melhor, o que não fazer:

1- Olhar fotos, reler e-mails antigos. (Não precisa apagar também. Faz uma pasta no computador com a tag "passado"e joga tudo ali. Se você não tiver forças nem para rever as fotos na hora de guardar nas pastas, peça ajuda a um(a) amigo(a) – eu pedi e peço sempre que não aguento.)
Ps1: Se você ainda estiver na fase da raiva e precisar do ato catártico de apagar tudo, vai lá e faça. Você pode se arrepender depois, mas tem muito tempo até lá.
Ps2: No caso de relacionamentos muito autodestrutivos, pode apagar, rasgar e usar qualquer outra técnica catártica, como tacar as fotos na fogueira. Been there, done that.

2- Mantê-lo(a) no feed de notícias, no instagram e outras redes sociais que te dão update sobre a vida do(a) ex. Sério. Não precisa tirar da lista de amigos do facebook se o rompimento foi tranquilo, mas você realmente quer ver fotos dele(a) com uma amiga (e convenhamos, você nunca vai pensar que é só amiga)? Tira do feed de notícias – tanto ele(a) como os amigos dele(a), pelo menos por um tempo. Ninguém fica sabendo, ninguém se se sente rejeitado e você pode abrir seu computador sem sentir o coração acelerar à procura de pegadas que denunciem o que ele(a) fez a noite passada.

3- Stalkear. Não. Não. Isso é humano, faz parte dos nossos impulsos, mas somos seres racionais – se tem gente que larga cigarro e heroína, você é capaz de resisitir ao impulso de passar madrugadas "pesquisando" perfis alheios e traçando todas as teorias conspiratórias possíveis sobre com quem ele(a) esteve, está, ou está quase pegando. Quando der vontade, saia com seu cachorro; faça as unhas; coma meio quilo de sorvete; suba na esteira; tome um banho longo e demorado que incluia massagem com óleos, hidratação no cabelo, pele, esfoliação no calcanhar. Arrume seu armário.

Se nada disso parecer viável, ligue para um(a) amigo(a). Ligue para sua mãe. Ou chore em posição fetal na cama, até passar. PASSA.

4- Ligar para ele/ela e não falar nada. Nem com 15 anos. Isso é mais do patético: vai do espectro do infantil ao doentio, e ainda te faz gastar dinheiro à toa. Óbvio que ele(a)a sabe que é você. Da última vez que fizeram isso a um amigo meu gay, um amigo hetero atendeu, deu um chega-pra-lá no coitado do ex dizendo que eles agora estavam juntos e que ai dele se voltasse a ligar. Imagina se fazem o mesmo com você – uma menina atende e diz que já o território está ocupado, –já era, baby? Vai doer... e, se já está doendo, para quê mais humilhação e dor?

5- Ligar para ele/ela bêbada e pedir pra voltar/conversar. Deu vontade? Volte para o item 3 e ponha em prática as estratégias listadas. Já fez tudo e a vonade não passou? Invente outras e me ensine.

6- Ligar para mãe/irmão/ amigos dele. Lembre-se: já está doendo. O que você quer, respostas? É duro, mas vezes não há. E cada um que conta uma história aumenta um ponto; sinceramente, você quer chorar no ouvido de pessoas que vão responder tudo ahãms ou ouvir quietas enquanto rezam em silêncio para você se afastar e deixar o outro seguir seu caminho? (Em silêncio aqui foi na melhor das hipóteses, ok? Porque você levar uma bela descascada que só vai te jogar ainda mais no chão, se é que é possível). Deu vontade? Volte para o item 3.

7- Ficar com alguém para não "sair perdendo". Você nasceu e morreu sozinha, portanto, deveria cuidar melhor de si mesmo/a – e isso inclui respeitar seu tempo de luto. Forçar a barra e ficar com outra pessoa ainda pensando no(a) ex é um desrespeito aos próprios sentimentos – sem falar nos do(a) novo(a) parceiro(a). Fica fria; quando a dor passar, ainda vai ter gente solteira no mundo.  Tem sempre uma "leva de divorciados" chegando. Para quê a pressa?

8- Se anestesiar com álcool/drogas/remédios/trabalho. Repetindo: você nasceu sozinha, vai passar a maior parte dos seus segundos de vida sozinha, então deveria cuidar melhor de si mesma – porque depois, baby, vai sobrar pra você. Se a dor estiver insuportável, procure um psiquiatra, um terapeuta de uma linha com a qual você se identifique, faça aulas de yoga, meditação, massagem ayurveda. Procure terapias alternativas. Mergulhe em si mesma – mas não se afogue.

9- Passar "por acaso" pelos lugares que vocês frequentavam ou que ele(a) frequenta. Você é ingênua o suficiente para pensar que se vocês se esbarrarem por ali vai parecer mero "acaso"? Please. Autopreservação em primeiro lugar. Deu vontade, volte ao item 3.

10 - Se achar gorda(o)/feia(o)/com pouco estudo/loser no trabalho, e que esse foi o motivo do rompimento. Ok. A sua autoestima baixa pode ter sido um dos motivos do rompimento. E essa é uma boa oportunidade para trabalhar isso! Com mais tempo só para você, invista no que pode te fazer sentir melhor na própria pele. Se há algo que não te agrade e que você queira mudar, como o trabalho, cabelo, mude. Mas muitas vezes é a nossa atitude perante as coisas que tem que mudar – e não as coisas.
No caso do cabelo pode cortar e pintar que cresce :)


Ok. Se você chegou até aqui, merece um prêmio.
O que se deve colocar no kit de primeiros-socorros? – ou, o que você pode fazer:

1- Levantar de manhã. Tomar café. Tomar banho e se vestir. Almoçar. Ocupar o dia. Jantar. Deitar de noite e dormir. 
(Mother i can feel the soil falling over my head)
Quando algo que julgávamos estável se quebra, o sábio profeta Morrissey estava certo – parece que  o mundo desaba na nossa cabeça e fica muito difícil, para algumas pessoas, manter uma rotina saudável, funcional, produtiva. Se não estiver conseguindo sozinho, passe umas semanas na casa dos seus amigos ou pais. PEÇA AJUDA. Manter a rotina parece bobo, mas baby steps, pessoal. Cada um dessas pequenas coisas que você vai desistindo de fazer porque acha que não consegue, te retira forças para fazer a próxima. O contrário também é válido. Um dia de cada vez – cada dia que conseguir preencher todos os itens desta rotina já é uma grande vitória.

(No meu último heartbreak minha mãe batia na minha casa todos os dias com um prato de comida e só saía quando eu comesse. Minha prima me ligava todas as noites só pra checar se estava tudo bem. Mês passado tive um heartbreak profissional, uma mega mudança de rotina - de trabalhador de 8 horas a estudante de mestrado – e me vi perdida sem a segurança da rotina. Fui deixando aos poucos de fazer as coisas...até pedir ajuda e montar, com minha nutricionista e psicóloga, um plano de emergência para voltar a "funcionar" – estou indo super bem).

2- Juntar fotos, roupas, objetos, tudo o que te faça lembrar do(a) ex. Novamente, se não conseguir sozinha, peça ajuda dos seus amigos. Jogue fora florzinhas secas e outras bobagens, guarde numa caixa cartas trocadas (bonitas) e doe roupas ou o que for útil ou fizer alguém feliz. Se você não for capaz de fazer essa seleção, apenas embrulhe tudo numa caixa e coloque num lugar a que você não tenha acesso, como no alto do armário da casa dos seus pais ou de um amigo íntimo. O importante é tirar tudo da sua vista. Fiz isso em 2012 e só me lembrei  quando a faxineira me perguntou o que era aquela caixa, se podia jogar fora. Fiquei com preguiça de abrir e selecionar e rever aquilo tudo, mas jogar fora me parecia sacrilégio; então pedi para ela deixar ali e esqueci novamente (lembrei agora, mas a preguiça é muito grande para subir, abrir e bisbilhotar o passado).

2.1 - Fazer o mesmo nas redes sociais. Achei essa parte ainda mais dolorosa e não fui capaz de executar sozinha. Uma amiga foi lá em casa, entrou no meu facebook e, ao meu lado, ia apagando da timeline as fotos de casal, removendo meu nome e o dele nas em que aparecíamos juntos. pronto, ela disse quando acabou – foi ais rápido do que eu pensava. Óbvio, ela me ajudou a guardar as fotos na pasta PASSADO do computador enquanto excluía do facebook  – eu não queria apagar o passado, mas também não queria que meu perfil fosse um mausoléu para um amor perdido, No caso do instagram, tive que deixar de seguir. A conta dele era privada, o que dificultou a escolha – não tinha volta. Ainda bem que eu fiz isso o mais rápido que pude.

3- Chorar
It's not going to stop – till you wise up
Não tem como fugir da dor. Por mais que se tente ignorá-la, ela nos pega de surpresa ali no virar da esquina. Seu coração vai saltar quando ouvir alguém gritar por um homônimo no ônibus, você vai acabar com a caixinha de kleenex vendo Bambi na sessão da tarde, você vai achar injusto o garçom colocar na sua mesa a lata de coca-cola com aquele nome. Ou pior, vai achar que é um sinal de que vocês têm chance. Se você for do tipo psíquica e isso acontecer, jogue na loteria no mesmo dia e comparemos os resultados.
Agora sério, chore, só isso. No ombro de um amigo, num bar, na sa cama até adormecer. Chore, mergulhe e viva esse luto com coragem, respire fundo e, quando estiver mais calma, passe para o item 4.

4- Fazer da dor e do amor a sua motivação
I can't grow a new heart
Uma hora as lágrimas secam, e você percebe que a dor continua – mais leve, mas ali – e que o amor também. O que fazer? Horas assistindo netflix ou partying hard com amigos são legais, mas não levam muito longe. Não dá para matar esse amor, se for verdadeiro. Nem essa dor. Mas você pode fazer tanta coisa com ela! Criar. Pense em qualquer hobby, ou talento; ou se seu hobby virou profissão pense naquilo que você mais gostava de fazer quando criança – pintar, desenhar, escrever, dançar pela casa, arrumar flores, decorar a casa, brincar com crianças, gatos, cachorros. Se puder, se inscreva num curso livre de qualquer uma dessas coisas – de preferência em grupo. Ou procure por aquilo que você sempre quis fazer mas não tinha tempo – aulas de canto, piano, tarô, astrologia, cerâmica, costura, o que você quiser. Mas faça alguma coisa criativa (e que te dê orgulho) com essa dor.

5- Jogar seu amor no trabalho voluntário
Que causa te toca mais o coração? Animais abandonados? Adote, ou visite abrigos. Tire um sábado ou domingo para ir lá visitar os bichinhos. Crianças? Há vários hospitais que aceitam voluntários para ler ou entreter crianças doentes. Direitos Humanos? Feminismo? Desigualdade social?Lares de idosos? Procure na internet como se fazer voluntária em alguma ONG que lute pela causa com a qual você se identifica. Atenção: isso não é só para passar o tempo. É para fazer escoar esse amor, aí dentro de você, para quem realmente precisa. Assim ele não fica preso no seu peito – e você se sente mais leve e aberta para receber o amor que surge de fontes inesperadas – uma flor, o contato com o mar, a meditação, o abraço de um amigo, a alegria do seu bichinho quando você chega em casa.

6- Tirar férias e viajar
Oh life is bigger
Se você tem meios para isso, aproveite. Nada melhor do que se obrigar a andar por caminhos diferentes quando se está imerso na dor. Você pode continuar sofrendo, lógico, mas novas paisagens, línguas, lojas e pessoas dão um empurrãozinho despertando a curiosidade – e ela pode ser a mola mestra para você sair um pouquinho de dentro de si mesma, sim, desse lugar que virou um caos de dor. Viajar também te ajuda a sentir que o mundo é muito maior que uma relação, que você, no mundo, pode ser muito maior do que você era fechada numa relação. E há o bonus: você vai ficar mais preocupada em curtir a viagem ou fazer upload das suas fotos do que pensar no que seu/sua ex está fazendo. Além do que é sempre melhor chorar em Paris, né? Ou na praia. Ou na serra.
(se for serra ou praia, escolha um lugar sem sinal 3G por preocaução.)
Leve um amigo com você. Se não tiver, leve seu cachorro. Se não tiver, vá com seus pais (ótima oportunidade de focar em relações de acolhimento). Se nada disso for viável, vá sozinha – e descubra que você é uma ótima companhia para si mesma.

7- Mudar um pouco (por fora)
Corte ou pinte o cabelo. Doe suas roupas velhas, troque por outras que te façam sentir mais bonita. Descubra como você se sente mais bonita – esqueça os parâmetros do ex ou da ex para as suas roupas, maquiagens, sapatos, tudo. Quem manda agora é você (Aliás, sempre deveria ter sido, né? Mas ok, baby steps again).

7- Mudar um pouco (por dentro)
Faça uma lista do que te impede de crescer, de ser quem você quer ser  – só não vale querer ser a esposa de fulano(a), ok? O que você pode fazer para chegar cada vez mais perto disso? Vale qualquer desejo: profissional, criativo, monetário, ser mais feliz com o próprio corpo, ser menos ansiosa, ter uma relação mais harmônica com sua família, investir numa alimentação e estilo de vida mais saudável. No meu caso, por exemplo, fiz essa lista no final de 2013: meus dois objetivos a longo eram profissionais e criativos, e eu nunca poderia imaginar que chegaria tão longe. O outro, a longo prazo, envolve fazer mais amigos – o que é um pouco mais demorado, mas poso dizer que aos poucos estou conseguindo.
Pode ser também que você esteja tão abalada ainda que não tenha mais sonhos, desejos – que você tenha projetado tudo no outro e, com ele, ache todo gosto ou vontade tenha ido embora. Nesse caso, você vai ter que redescobrir ou encontrar ou inventar sonhos e sentidos novos. Volte para o item 3 – o que você adorava fazer quando criança? Se estiver muito duro, procure ajuda profissional – uma psicóloga ou terapeuta podem te ajudar e muito a criar um horizonte quando não se vê nada à frente.

7- Conte com sua rede de apoios. 
Peça toda a ajuda que precisar dos amigos e da família. Se possível, se force a fazer coisas com eles, e não apenas conversar – porque o assunto sempre recai naquilo que a sua mente não consegue esquecer, não é mesmo? Passeiem de bicicleta, façam um trilha, tomem sol na praia/piscina – ou, se preferirem – vejam séries juntos, comam brigadeiro, façam uma festa do pijama na casa de alguém. Já que somos adultos, pode ser queijos, vinhos, filmes e brigadeiro também – mas não exagere na bebida. O álcool traz euforia rápida mas também deprime.

9- Leia um tijolão
Quando estava bem próxima de terminar com S. (4 anos), li os 7 volumes de Em busca do tempo perdido, do Proust. Quando finalmente terminamos eu não tinha concentração mental para ler nada que não fosse o obrigatório do trabalho. Minha lentidão para ler e pensar não me deixava acompanhar ficção. E aí, descobri que finalmente conseguia ler e sentir poemas – o que me acompanha até hoje, a ponto de ter trabalhado 6 anos numa editora especializada em poesia.
Quando terminei com P. (2 intensos anos), li tudo do Sebald publicado aqui no Brasil; um livro de cartas entre a Virginia Woolf e a Vita Sackville-West e a biografia da Anne Sexton. Com o I (4-5 meses), li os diários da Sylvia Plath e uma coletânea de cartas da Katherine Mansfield; com o G. (6 meses) li Freedom, do Franzen, Anna Karenina, do Tolstoi, NW, da Zadie Smith até ser atropelada pelos textos da pós-graduaçao. Recentemente (há uns 7 meses?) briguei com uma BFF com mais de 10 anos de amizade e acho que foi para sempre – comecei o Graça infinita no dia, aos prantos na livraria, comprei no kindle e já terminei as mais de 1.000 páginas. Também assisti muito Gossip girl, confesso – se você não é muito de ler, (re)veja temporadas das suas sériespreferidas quando der vontade de chorar de madrugada. Ajuda.

10 - Escolha um poema 
Essa é a minha última técnica, a única que já ponho em prática naturalmente, não me exige esforço e me dá um sentimento de completude imediata após. Não tem a ver com remédios ou simpatias.
É simples: para cada queda, colo um novo poema na parede do quarto. A cabeceira da minha cama parece um matelassê de papéis amarelados, que desbotam a cada dia, como os versos, em português ou línguas distantes – como os amores – se apagando e se inscrevendo na memória eternamente. Se minha parede virou esse scrapbook, o meu coração é um mosaico, que desiste de bater inteiro. Que insiste em bater, a despeito. E confesso. Se a princípio eram band-aids, hoje os poemas são adornos. Coloco molduras, escolho o papel, a cor da tinta, coloco luzes em volta. E olho com orgulho essas cicatrizes-poemas, que fazem de mim quem eu sou hoje, como tatuagem.

Se tiver uma técnica para compartilhar, seja bem-vinda(o).

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------

----------------------------- até que a dor alegre recomece.


 Llansol, O começo de um livro é precioso

sexta-feira, 6 de março de 2015

head vs heart


Acordava e a cabeça dizia pelo menos

À noite, deitava e o coração suspirava tanto faz

Vê onde pisas




Vê onde pisas
Ao caminhar, sentiu pisar
algo que lhe amorteceu
o passo, e lhe transmitiu



aos músculos uma sensação
quase agradável, não fosse
aquele arrepiante,


súbito ruído cartilagíneo. Vê.
Um pequeno pássaro
esmagara-se-lhe sob o pé.


Verso Antigo, Luís Quintais

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Você percebe que seus pais nada efusivos te amam de verdade quando, no hospital, seu pai fica tonto e quase cai ao pedir o raio-x, ele e sua mãe trocam olhares de alívio quando a médica dispara: não fiquem tensos, não é linfoma.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Minha babel

Eu tento estudar francês, mas só penso a estrutura e as palavras em alemão. Tento estudar/falar alemão, mas só me sai inglês. Tento falar inglês, mas penso antes em português ou alemão. Tento falar/escrever em português lusitano mas escapam expressões e a estrutura do português do Brasil, num mix de sotaques frustrante. Falo português do Brasil e todos riem quando desliza uma expressão, uma frase, um termo que ficou na minha pele, em Lisboa.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Complexo de Frances Ha



Discutindo sobre Frances Ha uma vez com amigos próximos, descobri surpresa que todos achavam a personagem extremamente infantil – na verdade, o retrato de uma geração (a nossa) infantilizada, que prefere dançar nas ruas e treinar passinhos de coreografia a tomar um rumo certo e finalmente se declarar adulta. Adulto(a) meaning: independente financeira e emocionalmente, com objetivos claros e ambições materiais traçadas; amizades consolidadas em jantares e brunchs mensais; em happy hours semanais em que se fala das próprias conquistas e se posta fotos no facebook e no instagram, modelando a própria imagem como a de alguém bem-sucedido. É, ser adulto também é ser bem-sucedido – ou pelo menos fingir bem e sorrir na foto. Ou tentar very hard, assim ao menos você pode contar com a piedade dos mais bem-afortunados.

Eu era a única do grupo a não concordar que o principal traço da Frances era ser infantil. Não no âmago. Sua estética, seu gestual e sua curiosidade certamente são – o que lhe dá ainda mais encanto num mundo de pessoas cinzentas dominadas pelo mantra "I've seen at all" – ou "isso foi hype em 2004" ( aliás, que termo se usa pra hype/hipster agora? estes certamente já estão datados).

Eu era a única – e agora entendo minha surpresa – por estar vivendo um enredo semelhante: trabalho muito, continuo pedindo ajuda a meus pais todo mês; não acho que arrumar um namorado/marido vá magicamente preencher minha vida e meus ambições criativas e emocionais (minha definição de amor e de realização interna são mais vastas e interdependentes);

E, o principal: sim, também "perdi" minha amiga-irmã – desde que, como Sophie, ela arranjou um namorado e um novo grupo de amigos e novos projetos e planos onde eu não consegui me encaixar.

Veja bem, a culpa não é dela : eu é que não consegui me encaixar, repito. Acontece com todo mundo pelo menos uma vez na vida, já me disseram, e eu acredito.

Gradually and suddenly: de repente passaram meses e anos que não varamos mais madrugadas ouvindo música, vendo séries e inventando histórias; de repente não reconheço mais o cheiro da casa dela, nem ela da minha; fazemos visitas pontuais: ou quando uma está muito mal, ou em reuniões com mais gente regadas a cerveja onde ninguém fala de verdade com ninguém. De dia eu trabalho, de noite ela tem a vida adulta conjugal, que está em primeiro lugar – e ela está certíssima.

Eu certamente faria o mesmo se fosse adulta. E sim, por mais que sinta a falta, fico feliz por ela.

O que mais sinto saudade é de quando nos divertíamos juntas. Triste só poder contar com a companhia dela quando estou mal – e parece que estou sempre mal, mas não, acordo muitos dias alegre e feliz, e queria partilhar isso – mas ela está tão longe.

A infantilidade da Frances (e a minha, talvez por isso a identificação) é só superfície. Semblante. Porque ser adulto também é deixar ir e saber que a a vida muda, e aceitar; ter coragem para não embrutecer o coração perante as perdas. É das lascas e rachas no coração que vem o que nos faz humanos singulares e não robôs ou personagens de novela. Saber, como a Frances (que apesar da saudade, continua amando profundamente Sophie), que guardar mágoa e sabotar a felicidade de quem amamos é no mínimo antihumano – que é preciso aceitar as mudanças e continuar inventando passos, correndo com esperança pelo vem por aí.

eu escreveria mais, mas termino com Belle and Sebastian: my anger always turns to pity and to love <3







quinta-feira, 19 de junho de 2014

no sonho


E no sonho ele riu, os olhos mornos de sono e me deslizou para o seu lado e me envolveu em seus braços e me puxou para cima dele, suas mãos descendo da minha nuca deslizando pela coluna até a lombar, a bunda, as coxas – as partes preferidas dele. Eu queria dizer alguma coisa importante mas ele tapou minha boca, vindo com força. E depois adormeceu, o corpo em cima do meu, pesando até que eu deslizasse vagarosamente para não acordá-lo. De manhã estiquei o braço para o lado da cama instintivamente, mas só encontrei o vazio, a mão estendida no ar por segundos até eu perceber que tinha sido um sonho, que estava sozinha, na minha cama de solteira.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Em uma semana, a segunda vez que penso nisso.
Não tenho cartelas.
O enredo da minha vida é tão patético que provavelmente eu acordaria dois dias depois, com uma leve ressaca e três caixas de emails lotadas para responder, fora o trabalho acumulado.

Em poucos dias faço aniversário. Gostaria de juntar os poucos que se dessem carinho de lembrar, e ao mesmo tempo só penso em escapar para casa, encolhida na cama com uma bolsa de água quento e, sem ter que conter os sentimentos.
Hoje, no filme com ele. A mulher que chora quando, após 18 anos, alguém toca suas costas nuas. Quanto tempo aguenta a ausência de calor, de troca de energia? Quanto tempo se aguenta sem um abraço inteiro, até a inapetência total?

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Examino as linhas do nariz, queixo, boca. Confirmo - a franja castanha torta, as olheiras roxas, o sinal perto dos olhos. Então ainda estou aqui, sou eu mesma, constato, num misto de alívio e pânico que dura meio segundo -
na outra metade, lembro de cada esbarrão na rua na última semana. O telefone que  não toca, não vibra não se ilumina há tantos dias que nem sei, a caixa de emails que só recebe spams, a cadeira ocupada no trabalho, a geladeira vazia. A bicicleta que quase me atropelou, a moça do café, que continua de costas para o balcão, mesmo que eu levante a voz ao fazer o pedido. O meu nome, que nunca mais ouvi.

Junto todos os dados do real ao reflexo no espelho, e duvido.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

in real life

Eu e minha mãe no carro, paradas no sinal. Um rapaz atravessa a faixa e me reconhece através do vidro. Ele esboça um sorriso, um tchauzinho tímido enquanto anda.~

- É um colega da editora, filha?
- Não mãe. É um personagem do meu livro.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Por muito que eu te chame e te persiga

Será que o tempo é o espaço consagrado do Dois? E a proliferação do Dois converte-se sempre numa pluralidade infectada? O Mal é para Sophia (de Mello Breyner) uma ocorrência inexplicável. Serão os anjos revoltados? Serão os homens que não chegaram sequer a ser anjos? Não sabemos. Vemos apenas os resultados, a multiplicação dos monstros. Como se passa sem quase saber que se passa da pureza para a impureza? "Senhor da tua pura justiça / Nascem os monstros que em minha roda eu vejo / É porque alguém te venceu ou desviou / Em não sei que penumbra os teus caminhos // Foram talvez os anjos revoltados / Muito tempo antes de eu ter vindo / Já se tinha a tua obra dividido // E em vão eu busco a tua face antiga / És sempre um deus que nunca tem um rosto / Por muito que eu te chame e te persiga."

"A respiração azul das cores", In: A poesia ensina a cair, Eduardo Prado Coelho
(grifo meu)

sábado, 10 de maio de 2014

my anger turns to pity and to love

Rio, Roma. O cenário muda, mas, ele e eu somos sempre os mesmos. Na última vez, aparecíamos andando de mãos dadas numa fleamarket caçando discos; de repente estávamos num quarto de hotel em Amesterdã fumando um beque ao som de uma música ambiente qualquer, meu corpo encolhido contra o dele, deslizando a ponta dos dedos pela sua barba, descendo pelo seu peito, num abraço – seu corpo gordinho que meus braços não cercavam, tão habitual e tão meu, como casa. De repente ele me pega no colo e rolamos pelos lençóis suados do quarto abafado pelo aquecedor, as mãos dele percorrendo cada pedacinho do meu corpo, peito colado com peitos, ajustando o ritmo dos corações. E línguas e braços e pernas confusas e tão certas na entrega, e depois a exaustão, seu corpo sobre o meu me esmagando até o sono, até ele rolar de lado e sorrir e me beijar e olhar nos olhos, ainda me amando.

Acordo assustada, sem saber onde estou.

domingo, 4 de maio de 2014

Disforme

Como os meus últimos escritos, como minha vida desde que nos deixamos, tudo parecia ainda era estranhamente doído e disforme. Como o conteúdo inacabado do ventre de uma ostra, que poderia parecer delicioso, inusitado, exótico, intrigante para quem quebra a concha e força a entrada. Mas ainda não era a pérola.

O caderno de esboços continuava no chão, debaixo da cama. Puxei-o para cima, abri uma página em branco e, com o lápis guardado entre as páginas, deixei as mãos riscarem livremente traços sem sentido. Era bom para aliviar a tensão. O som do carvão sobre o papel era como uma melodia familiar, que me trazia magicamente para um lugar único, seguro, onde não havia medos, erros, apenas a paz do lar. Era como a sensação de voltar a casa depois de um dia tenso, subir o elevador e deixar a cidade para trás ao fechar a porta e mergulhar no silêncio acolhedor, abrigado dos ruídos do mundo. Welcome home, dizia a primeira página. Para quem ainda não conseguia aterrar, flutuando à deriva nos produtos do cérebro insone, o caderno funcionava como uma âncora. O que o amor infelizmente nunca tinha sido.

domingo, 20 de abril de 2014

Não preciso de médico, disse a ele. Para quê, só para confirmar o que meu corpo já sabe –o que a tinta vermelha escreve em filetes pelas minhas coxas? A cólica no baixo frente como se fosse um mês qualquer – como se todas 11 semanas de angústia e ânsia e passeios por vitrines cheias de sapatinhos de crochê fossem só isso – uma ânsia vâ, um embrião de futuro nosso que não fui capaz de gestar. Quando menos de gerar. Que se diluiu e partiu dentro de mim, indiferente ao meu empenho. Ao meu querer. Um bebê, meu, dele, nós três ligados. Andava pelas ruas sorrindo sozinha, era como uma mágica, uma dádiva transformando meu corpo a cada dia, chutando e me enjoando e me insuflando um amor estranho a cada movimento. Um amor estranho mas real - as noites no sofá em frente a tv, a cabeça apoiada nos ombros dele e suas mãos acarinhando o meu, o nosso ventre. 

Que delírio megalomaníaco me fez pensar ser capaz de protegê-lo dentro de mim. Guardar esse segredo até o fim, proteger uma coisa tão preciosa. Ele me abraça, me diz pela vigésima vez que não tenho culpa. Mas eu sei. Leio nos olhos dele – nem disso ele me acha capaz.

Nem disso eu sou capaz, eu sei. Choro atônita no banheiro, o sangue indo embora com a descarga e tudo acabado, meu ventre vazio, meu corpo só eu mesma - inútil. A água limpa os restos de sangue, o que era sonho puxado como um tornado pelo esgoto. O grito fica aqui preso, não consigo mais falar de tanta dor.

Podemos ter outros, imagino ele dizendo. Ele não diz. Ele insiste para eu ir ao hospital, confirmar se está tudo bem. Não está tudo bem. Nunca mais vai ficar tudo bem, será impossível de se entender? Me encolho na cama em posição fetal, o calor da hemorragia ainda entre as coxas. Fecho os olhos, quero ficar sozinha; ele me deixa no quarto escuro, quente e vazio como um casulo, as paredes e o edredon me abraçam. Num impulso estico o braço até a mesinha e alcanço o celular, telefono. Minha mãe pergunta o que foi, eu choro calada e ela sabe, e eu pergunto por quê, mãe, por quê? E ela diz não chora, você pode ter outros, aliás, pode não, você vai ter outros, meu amor.


domingo, 13 de abril de 2014

stockholm syndrome

Só queria paz, mas isso não estava nos planos. Só queria voltar a ser eu.
 Mas isso não está mais no meu poder.
Então espero passar. Um dia talvez, passe. Fui assaltada, levaram a única coisa que realmente importa - a fé. Fico quieta, aqui, recuperando. Não espero justiça. Nem vingança, nada disso. Só espero acordar um dia melhor. Um pouco mais perto de estar inteira. Um pouco melhor.