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sábado, 3 de junho de 2017

Resumo

There’s nothing to be gained by remaining locked inside yourself, but not much is happening around you either.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

2015

Uma grande montanha russa

Um ano de obstáculos inimaginavelmente dolorosos  – um ano de benções inesperadas.

Ano de muita luta contra a própria insegurança, de colher assustada os frutos de um trabalho de anos – desde daqueles anos pré-alfabetização em que contava histórias para o gravador, ao fascínio de conseguir entender o que aqueles símbolos do alfabeto diziam, à mágica de conseguir dizer o que queria com eles – até que eles se tornaram o primeiro e único porto seguro real. A única âncora nesse mundo de tsunamis. A terra firme, em qualquer areia movediça.

Ano de assumir o casamento com a escrita. De deixar para trás velhos conceitos, ideias que não cabem mais. Roupas também. 
E de conseguir navegar, apesar de tudo. Com um sorriso. 
Sem nunca perder a doçura,

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Em uma semana, a segunda vez que penso nisso.
Não tenho cartelas.
O enredo da minha vida é tão patético que provavelmente eu acordaria dois dias depois, com uma leve ressaca e três caixas de emails lotadas para responder, fora o trabalho acumulado.

Em poucos dias faço aniversário. Gostaria de juntar os poucos que se dessem carinho de lembrar, e ao mesmo tempo só penso em escapar para casa, encolhida na cama com uma bolsa de água quento e, sem ter que conter os sentimentos.
Hoje, no filme com ele. A mulher que chora quando, após 18 anos, alguém toca suas costas nuas. Quanto tempo aguenta a ausência de calor, de troca de energia? Quanto tempo se aguenta sem um abraço inteiro, até a inapetência total?

terça-feira, 4 de março de 2014

à deriva


"Recovery is being able to walk in spring and feel the warmth of the sun and not be wrapped in winter clothes, because you are cold.
Recovery is being able to enjoy new and old activities with friends.
Recovery is setting yourself new goals and challenges where others can appreciate your talents and everything you have to offer.

Recovery is living life to the full." (daqui)

Ao que eu completo, sem romantismo deepack chopriano.
A verdade é que tentar se recuperar é estar sozinho. Muito mais do que antes. Isolado num mundo que as pessoas só podem observar de longe, seja por medo, pudor, raiva, pena. 
Tentar se recuperar é lutar 24 horas para executar as tarefas mais básicas do ser humano, deixando na geladeira aquelas em que você sempre se destacou e amou e que te preenchem emocionalmente  -- no meu caso, trabalho, escrita, estudo, amigos. É despender 90% do oxigênio para levantar da cama e funcionar saudavelmente, e ver com tristeza que não sobra energia para o que mais se ama.
É se ver rodeada de expectativas ao mais breve sorriso, é desapontar a todos no primeiro tropeço (mas você estava indo tão bem!). É chorar perplexa ao ganhar um abraço de um desconhecido na rua -- há quanto tempo não te tocam? Quanto tempo um ser humano aguenta sem um abraço e amor pra seguir em frente?
É estar sozinha mas ter esperança. É ser movida diariamente por uma esperança qualquer, que tem que ser alimentada (sim, até ela!) 24 horas por dia, como toda fé.

Pelo contrário, desistir ( ou resistir?) é reunir toda a energia e focar naquilo em que sempre nos destacamos, aquilo que sempre nos fez feliz e aos outros. É voltar a trabalhar com afinco, escrever com ânsia, estar 100% para amigos, família, amores.  É vê-los sorrindo de volta tranquilos, certos de que, se o nosso resultado é exemplar em tudo isso, é porque finalmente estamos bem. Sim, envolve sentir muito frio, muita dor, mas só quem sente somos nós -e dá para aliviar com casacos, cobertores, almofadas, remédios. É poder receber abraços inteiros e verdadeiros diariamente, porque afinal está tudo bem.

Quando alguém desiste/resiste, abdica em esperança o que ganha em lucidez.

Uma vez li num conto de alguém que não me recordo o nome-- "Tarja preta" era o título do livro -- que o mais importante era pagar as contas e deixar tudo limpo ao sair de casa. Que você podia fazer o que quisesse para aliviar a própria dor, desde que conseguisse bancar - manter as contas em dia e a casa em mínima ordem. Que só se você não conseguisse manter esse mínimo, os outros te considerariam um problema e iriam querer intervir.

A primeira vez que melhorei mesmo, tinha alguém do meu lado que me apoiou e ajudou 100%. Não foi difícil - eu tinha que estar boa e inteira para aquela relação, e não há maior estímulo que isso.
Agora dizem que tenho que lutar sozinha e por mim mesma.
Ninguém sabe me dizer, consistentemente, porquê.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Metas pra junho

Meu passo se apressa, meu olhar atento, alto e presente. Atravesso as ruas sem olhar - medo de quê? A química certa retendo a dopamina e a serotonina no sistema, não há nada a temer. Por enquanto, flutuo na brisa do citalopram finalmente batendo no sistema - como água fria de cachoeira quebrando nas costas e lavando a mente e de repente fica tudo claro, e de repente consigo ver. Que há uma liberdade nisso tudo - porque depois de se perder tanto, o que mais há pra perder? Tudo, alguns diriam. Mais ainda, outros diriam. Racionalmente sei, mas sinto como se não houvesse nada.

[E agora, é nesse espaço amplo e vertiginoso do nada que encontro ar puro e consigo finalmente respirar, peito aberto para o que vier]

Ela me disse que o que me faltava era desejo. Que as metas é que nos impulsionam - não só o afeto, as pessoas - que eu tinha que querer coisas. Roupas, sapatos, passo por todas as vitrines e deus sabe que não quero nada. Que o dinheiro possa comprar. Ela diz que o que me falta é fome, e eu sei. Ok. Citalopram funcionando, são essas as metas que vão me impulsionar até junho. Meio do ano, meu aniversário. Depois disso, crio novas. E assim vou vivendo -- não é assim que as pessoas fazem? ela me devolve sorrindo.

1- finalizar o segundo livro
2- passar na pós
3- continuar o francês
4-  fazer no mínimo 1 refeição completa por dia, no matter what. Mesmo nos dias difíceis.
5- Subir para pelo menos 40 kgs e manter, não baixar, nem subir muito
6- não desistir se o peso subir muito no início, porque é normal e faz parte do tratamento. Não ter de vergonha de estar em tratamento.
7- ganhar condicionamento físico e voltar a ter massa muscular para poder andar de Patins moxis vintage lindos na Lagoa
8- ganhar condicionamento físico para voltar pra casa de bicicleta elétrica de vez em quando.
9- terminar o terceiro projeto, com o klaus; iniciar o quarto
10- mais concentração e empenho no trabalho
11- ler coisas novas; ver séries novas; ouvir música nova
12- experimentar, sem medo, comidas novas. Incluir lactose e lembrar que só daí vem a b12.
13- ficar longe de quem não me faz bem; baixar a guarda para quem me faz sentir bem.
14- curtir mais a odetinha
15- largar o dormonid; tentar yoga; acupuntura, respiração pranayama, wtv
16- investir também no espiritual, não deixar isso de lado nunca
17- aprender a ficar bem sozinha, sem estar à espera, nem à procura
18- se rolar uma viagem, aceitar
19- aceitar sempre ajuda - nunca deixar de ajudar também

20- eu diria retomar o alemão, mas talvez possa ficar para o próximo semestre:)



sexta-feira, 8 de novembro de 2013


Naquele lugar, era sempre inverno. Na sala de espera, o aquecedor não dava conta das adolescentes trêmulas, muito menos dos ressacados. Eles gemiam e resmungavam, à espera da  metadona. A tv pequena rangia com o vento, a imagem se perdendo em chuviscos. Cumprimentos tímidos no corredor, os  rostos vazios de todas as semanas. Os mesmos rostos cinzentos.

Um cigarro do lado de fora, mãos geladas me passam o isqueiro. Por debaixo da manga adivinho as marcas no pulso, chamam meu nome e eu desvio os olhos. Entro na primeira sala, as enfermeiras observam-me tirar o casaco, subir na balança. Saio rapidamente, elas me fazem voltar.

Tiro as calças e a blusa, subo novamente.Tiro as meias, as enfermeiras cochicham lá no fundo, não vejo. O sutiã também? Tudo bem. Tiro a roupa, e tudo se apaga num branco sem fim.

Na outra sala ele me espera, o sorriso estático de sempre. E eu respondo a tudo, dócil, alerta, obediente. Quantas horas de sono, quantos quilos, quanta fome, quanta libido – ele anota tudo. Deve saber do que preciso. As mãos grossas rabiscam papéis, preenchem espaços, completam fichas – estou de preto e pareço mais frágil, novos nomes surgem na receita. Doses mais altas. Agradeço a atenção, indiferente. Na saída a Patrícia espera a sua vez, cada dia mais alheia. Parece serena – ela não usa cinto, as calças caem. Eu uso cintos, vários, e faço novos furos à medida que é preciso. Mas eu vivo sozinha, não faz mal, ninguém vê.

Lá fora os pais da Patrícia a esperam. Da porta de vidro observo o casal idoso e vejo em minha mente os cabelos loiros da Teresa atrás deles -  aqueles cabelos descoloridos, o cheiro abaunilhado a angel no seu abraço, e a sua pele rósea na minha, e eu imagino - e meu coração salta mas logo retorna à realidade do seu ritmo lento - não, eu estou sozinha, não há ninguém. Só eu, o cigarro e os plátanos do velho hospital, folhas amarelecendo com o outono. Folhas caindo.

Uma vez chamaram o meu nome e era outra a doutora. Era nova. Ela leu alguma coisa nas fichas, enquanto eu roía as unhas do outro lado da mesa. Ela parou de ler e me olhou nos olhos, com um ar descrente. Me examinou de cima a baixo e parou nos olhos, e ela perguntou por quê.

E ela me disse: Você se acha especial por ser doente?

Não, você não é especial.