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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Al Berto [11-01-1948 — 1997]



Eis a noite onde esqueço a vida e cismo sobre aquilo que ainda não sonhei. E aceito como único presságio a melancolia aérea das açucenas. aceito como único consolo a desolação imensa dos teus braços. aceito, aceito como único calor o da tâmara crescendo no deserto, aceito como único vício aquele cuja pele ainda não toquei. aceito como única noite a das searas do fundo do mar. aceito como única fala possível aquela que é susceptível de rasgar pulsos. aceito como único corpo aquele que não cresceu dos relógios do mundo. Aceito, aceito como único sonho aquele espelho onde te reflectes e me encontro. aceito a humildade de viver sozinho, a vergonha dos desejos insatisfeitos, a noite que me devora, aceito, aceito estas paredes, estes objetos, este sol, esta varanda, este mar, estes braços, estas mãos, este sexo, estes dedos, aceito, aceito, estes peixes de enxofre estatelados sobre a mesa, estas visões de catástrofe, estes sonhos premonitórios, estas luzes surgindo na pele, aceito, esta dor que me morde, esta escrita, este coração, estas doenças, estes cabelos, a escassez da fala, este silêncio cada dia maior e mais perturbador, aceito esta cadeira, este livro, este nome, estes olhos esmagados pela insónia, esta cama vazia, este frio, aceito, aceito, aceito esta janela, esta música de vísceras, esta faca, este sussurro, esta ausência, esta imagem desfocada, esta gravata adolescente, este sismo, este grito, estas coxas sujas de esperma, esta comida, estes cigarros, estes cadernos rabiscados que não servem para grande coisa, aceito, aceito a inutilidade de viver, de morrer, de estar aqui, de me deslocar, de permanecer, de fugir, de esperar, aceito, aceito a inutilidade de me reconhecer e de amar, a inutilidade dos dias, aceito, aceito o marulhar lodoso da alma, aceito não ter projetos nem querer construir uma pátria, aceito, aceito o vazio imenso das algibeiras, a dor das mãos percorrendo um corpo, aceito o caos e esta mosca que não encontra saída e morre no calor da lâmpada, aceito, aceito estes ossos, esta loucura que me assola lentamente, lentamente, aceito ficar louco, inconsciente, indefeso, aceito a tristeza que me ofereces, a pouca água que me é necessária, aceito, aceito nunca mais me lembrar de mim e viver pobre, aceito nunca mais te tocar nem acreditar em deus, aceito, aceito não possuir nada, não querer nada, aceito, aceito nunca mais aqui voltar, nunca mais.

Al Berto, "O medo"

quarta-feira, 24 de junho de 2015

The secret


Two girls discover
the secret of life
in a sudden line of
poetry.

I who don't know the
secret wrote
the line. They
told me

(through a third person)
they had found it
but not what it was
not even

what line it was. No doubt
by now, more than a week
later, they have forgotten
the secret,

the line, the name of
the poem. I love them
for finding what
I can't find,


and for loving me
for the line I wrote,
and for forgetting it
so that


a thousand times, till death
finds them, they may
discover it again, in other
lines

 in other
happenings. And for
wanting to know it,
for

assuming there is
such a secret, yes,
for that
most of all.


Denise Levertov

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Como lidar com um coração partido (sim, o seu)

minha parede: a cada heartbreak um novo poema

Ao longo dos anos, desenvolvi vários métodos para cicatrizar meu coração, que virou quase uma colcha de retalhos – ou melhor, um mosaico de vitrais, o que soa mais frágil, bonito e in. Desde o meu primeiro break-up aos 18 anos, sozinha em Portugal, até o último, com 32, aprendi várias técnicas para amenizar a dor – a maior parte delas não inclui analgésicos nem calmantes, nada que precise de receita médica. São coisas simples – o que traduzi há poucos dias para uma amiga  como "kit de primeiros socorros". E a primeira lição a aprender é: o que não colocar dentro dele – ou melhor, o que não fazer:

1- Olhar fotos, reler e-mails antigos. (Não precisa apagar também. Faz uma pasta no computador com a tag "passado"e joga tudo ali. Se você não tiver forças nem para rever as fotos na hora de guardar nas pastas, peça ajuda a um(a) amigo(a) – eu pedi e peço sempre que não aguento.)
Ps1: Se você ainda estiver na fase da raiva e precisar do ato catártico de apagar tudo, vai lá e faça. Você pode se arrepender depois, mas tem muito tempo até lá.
Ps2: No caso de relacionamentos muito autodestrutivos, pode apagar, rasgar e usar qualquer outra técnica catártica, como tacar as fotos na fogueira. Been there, done that.

2- Mantê-lo(a) no feed de notícias, no instagram e outras redes sociais que te dão update sobre a vida do(a) ex. Sério. Não precisa tirar da lista de amigos do facebook se o rompimento foi tranquilo, mas você realmente quer ver fotos dele(a) com uma amiga (e convenhamos, você nunca vai pensar que é só amiga)? Tira do feed de notícias – tanto ele(a) como os amigos dele(a), pelo menos por um tempo. Ninguém fica sabendo, ninguém se se sente rejeitado e você pode abrir seu computador sem sentir o coração acelerar à procura de pegadas que denunciem o que ele(a) fez a noite passada.

3- Stalkear. Não. Não. Isso é humano, faz parte dos nossos impulsos, mas somos seres racionais – se tem gente que larga cigarro e heroína, você é capaz de resisitir ao impulso de passar madrugadas "pesquisando" perfis alheios e traçando todas as teorias conspiratórias possíveis sobre com quem ele(a) esteve, está, ou está quase pegando. Quando der vontade, saia com seu cachorro; faça as unhas; coma meio quilo de sorvete; suba na esteira; tome um banho longo e demorado que incluia massagem com óleos, hidratação no cabelo, pele, esfoliação no calcanhar. Arrume seu armário.

Se nada disso parecer viável, ligue para um(a) amigo(a). Ligue para sua mãe. Ou chore em posição fetal na cama, até passar. PASSA.

4- Ligar para ele/ela e não falar nada. Nem com 15 anos. Isso é mais do patético: vai do espectro do infantil ao doentio, e ainda te faz gastar dinheiro à toa. Óbvio que ele(a)a sabe que é você. Da última vez que fizeram isso a um amigo meu gay, um amigo hetero atendeu, deu um chega-pra-lá no coitado do ex dizendo que eles agora estavam juntos e que ai dele se voltasse a ligar. Imagina se fazem o mesmo com você – uma menina atende e diz que já o território está ocupado, –já era, baby? Vai doer... e, se já está doendo, para quê mais humilhação e dor?

5- Ligar para ele/ela bêbada e pedir pra voltar/conversar. Deu vontade? Volte para o item 3 e ponha em prática as estratégias listadas. Já fez tudo e a vonade não passou? Invente outras e me ensine.

6- Ligar para mãe/irmão/ amigos dele. Lembre-se: já está doendo. O que você quer, respostas? É duro, mas vezes não há. E cada um que conta uma história aumenta um ponto; sinceramente, você quer chorar no ouvido de pessoas que vão responder tudo ahãms ou ouvir quietas enquanto rezam em silêncio para você se afastar e deixar o outro seguir seu caminho? (Em silêncio aqui foi na melhor das hipóteses, ok? Porque você levar uma bela descascada que só vai te jogar ainda mais no chão, se é que é possível). Deu vontade? Volte para o item 3.

7- Ficar com alguém para não "sair perdendo". Você nasceu e morreu sozinha, portanto, deveria cuidar melhor de si mesmo/a – e isso inclui respeitar seu tempo de luto. Forçar a barra e ficar com outra pessoa ainda pensando no(a) ex é um desrespeito aos próprios sentimentos – sem falar nos do(a) novo(a) parceiro(a). Fica fria; quando a dor passar, ainda vai ter gente solteira no mundo.  Tem sempre uma "leva de divorciados" chegando. Para quê a pressa?

8- Se anestesiar com álcool/drogas/remédios/trabalho. Repetindo: você nasceu sozinha, vai passar a maior parte dos seus segundos de vida sozinha, então deveria cuidar melhor de si mesma – porque depois, baby, vai sobrar pra você. Se a dor estiver insuportável, procure um psiquiatra, um terapeuta de uma linha com a qual você se identifique, faça aulas de yoga, meditação, massagem ayurveda. Procure terapias alternativas. Mergulhe em si mesma – mas não se afogue.

9- Passar "por acaso" pelos lugares que vocês frequentavam ou que ele(a) frequenta. Você é ingênua o suficiente para pensar que se vocês se esbarrarem por ali vai parecer mero "acaso"? Please. Autopreservação em primeiro lugar. Deu vontade, volte ao item 3.

10 - Se achar gorda(o)/feia(o)/com pouco estudo/loser no trabalho, e que esse foi o motivo do rompimento. Ok. A sua autoestima baixa pode ter sido um dos motivos do rompimento. E essa é uma boa oportunidade para trabalhar isso! Com mais tempo só para você, invista no que pode te fazer sentir melhor na própria pele. Se há algo que não te agrade e que você queira mudar, como o trabalho, cabelo, mude. Mas muitas vezes é a nossa atitude perante as coisas que tem que mudar – e não as coisas.
No caso do cabelo pode cortar e pintar que cresce :)


Ok. Se você chegou até aqui, merece um prêmio.
O que se deve colocar no kit de primeiros-socorros? – ou, o que você pode fazer:

1- Levantar de manhã. Tomar café. Tomar banho e se vestir. Almoçar. Ocupar o dia. Jantar. Deitar de noite e dormir. 
(Mother i can feel the soil falling over my head)
Quando algo que julgávamos estável se quebra, o sábio profeta Morrissey estava certo – parece que  o mundo desaba na nossa cabeça e fica muito difícil, para algumas pessoas, manter uma rotina saudável, funcional, produtiva. Se não estiver conseguindo sozinho, passe umas semanas na casa dos seus amigos ou pais. PEÇA AJUDA. Manter a rotina parece bobo, mas baby steps, pessoal. Cada um dessas pequenas coisas que você vai desistindo de fazer porque acha que não consegue, te retira forças para fazer a próxima. O contrário também é válido. Um dia de cada vez – cada dia que conseguir preencher todos os itens desta rotina já é uma grande vitória.

(No meu último heartbreak minha mãe batia na minha casa todos os dias com um prato de comida e só saía quando eu comesse. Minha prima me ligava todas as noites só pra checar se estava tudo bem. Mês passado tive um heartbreak profissional, uma mega mudança de rotina - de trabalhador de 8 horas a estudante de mestrado – e me vi perdida sem a segurança da rotina. Fui deixando aos poucos de fazer as coisas...até pedir ajuda e montar, com minha nutricionista e psicóloga, um plano de emergência para voltar a "funcionar" – estou indo super bem).

2- Juntar fotos, roupas, objetos, tudo o que te faça lembrar do(a) ex. Novamente, se não conseguir sozinha, peça ajuda dos seus amigos. Jogue fora florzinhas secas e outras bobagens, guarde numa caixa cartas trocadas (bonitas) e doe roupas ou o que for útil ou fizer alguém feliz. Se você não for capaz de fazer essa seleção, apenas embrulhe tudo numa caixa e coloque num lugar a que você não tenha acesso, como no alto do armário da casa dos seus pais ou de um amigo íntimo. O importante é tirar tudo da sua vista. Fiz isso em 2012 e só me lembrei  quando a faxineira me perguntou o que era aquela caixa, se podia jogar fora. Fiquei com preguiça de abrir e selecionar e rever aquilo tudo, mas jogar fora me parecia sacrilégio; então pedi para ela deixar ali e esqueci novamente (lembrei agora, mas a preguiça é muito grande para subir, abrir e bisbilhotar o passado).

2.1 - Fazer o mesmo nas redes sociais. Achei essa parte ainda mais dolorosa e não fui capaz de executar sozinha. Uma amiga foi lá em casa, entrou no meu facebook e, ao meu lado, ia apagando da timeline as fotos de casal, removendo meu nome e o dele nas em que aparecíamos juntos. pronto, ela disse quando acabou – foi ais rápido do que eu pensava. Óbvio, ela me ajudou a guardar as fotos na pasta PASSADO do computador enquanto excluía do facebook  – eu não queria apagar o passado, mas também não queria que meu perfil fosse um mausoléu para um amor perdido, No caso do instagram, tive que deixar de seguir. A conta dele era privada, o que dificultou a escolha – não tinha volta. Ainda bem que eu fiz isso o mais rápido que pude.

3- Chorar
It's not going to stop – till you wise up
Não tem como fugir da dor. Por mais que se tente ignorá-la, ela nos pega de surpresa ali no virar da esquina. Seu coração vai saltar quando ouvir alguém gritar por um homônimo no ônibus, você vai acabar com a caixinha de kleenex vendo Bambi na sessão da tarde, você vai achar injusto o garçom colocar na sua mesa a lata de coca-cola com aquele nome. Ou pior, vai achar que é um sinal de que vocês têm chance. Se você for do tipo psíquica e isso acontecer, jogue na loteria no mesmo dia e comparemos os resultados.
Agora sério, chore, só isso. No ombro de um amigo, num bar, na sa cama até adormecer. Chore, mergulhe e viva esse luto com coragem, respire fundo e, quando estiver mais calma, passe para o item 4.

4- Fazer da dor e do amor a sua motivação
I can't grow a new heart
Uma hora as lágrimas secam, e você percebe que a dor continua – mais leve, mas ali – e que o amor também. O que fazer? Horas assistindo netflix ou partying hard com amigos são legais, mas não levam muito longe. Não dá para matar esse amor, se for verdadeiro. Nem essa dor. Mas você pode fazer tanta coisa com ela! Criar. Pense em qualquer hobby, ou talento; ou se seu hobby virou profissão pense naquilo que você mais gostava de fazer quando criança – pintar, desenhar, escrever, dançar pela casa, arrumar flores, decorar a casa, brincar com crianças, gatos, cachorros. Se puder, se inscreva num curso livre de qualquer uma dessas coisas – de preferência em grupo. Ou procure por aquilo que você sempre quis fazer mas não tinha tempo – aulas de canto, piano, tarô, astrologia, cerâmica, costura, o que você quiser. Mas faça alguma coisa criativa (e que te dê orgulho) com essa dor.

5- Jogar seu amor no trabalho voluntário
Que causa te toca mais o coração? Animais abandonados? Adote, ou visite abrigos. Tire um sábado ou domingo para ir lá visitar os bichinhos. Crianças? Há vários hospitais que aceitam voluntários para ler ou entreter crianças doentes. Direitos Humanos? Feminismo? Desigualdade social?Lares de idosos? Procure na internet como se fazer voluntária em alguma ONG que lute pela causa com a qual você se identifica. Atenção: isso não é só para passar o tempo. É para fazer escoar esse amor, aí dentro de você, para quem realmente precisa. Assim ele não fica preso no seu peito – e você se sente mais leve e aberta para receber o amor que surge de fontes inesperadas – uma flor, o contato com o mar, a meditação, o abraço de um amigo, a alegria do seu bichinho quando você chega em casa.

6- Tirar férias e viajar
Oh life is bigger
Se você tem meios para isso, aproveite. Nada melhor do que se obrigar a andar por caminhos diferentes quando se está imerso na dor. Você pode continuar sofrendo, lógico, mas novas paisagens, línguas, lojas e pessoas dão um empurrãozinho despertando a curiosidade – e ela pode ser a mola mestra para você sair um pouquinho de dentro de si mesma, sim, desse lugar que virou um caos de dor. Viajar também te ajuda a sentir que o mundo é muito maior que uma relação, que você, no mundo, pode ser muito maior do que você era fechada numa relação. E há o bonus: você vai ficar mais preocupada em curtir a viagem ou fazer upload das suas fotos do que pensar no que seu/sua ex está fazendo. Além do que é sempre melhor chorar em Paris, né? Ou na praia. Ou na serra.
(se for serra ou praia, escolha um lugar sem sinal 3G por preocaução.)
Leve um amigo com você. Se não tiver, leve seu cachorro. Se não tiver, vá com seus pais (ótima oportunidade de focar em relações de acolhimento). Se nada disso for viável, vá sozinha – e descubra que você é uma ótima companhia para si mesma.

7- Mudar um pouco (por fora)
Corte ou pinte o cabelo. Doe suas roupas velhas, troque por outras que te façam sentir mais bonita. Descubra como você se sente mais bonita – esqueça os parâmetros do ex ou da ex para as suas roupas, maquiagens, sapatos, tudo. Quem manda agora é você (Aliás, sempre deveria ter sido, né? Mas ok, baby steps again).

7- Mudar um pouco (por dentro)
Faça uma lista do que te impede de crescer, de ser quem você quer ser  – só não vale querer ser a esposa de fulano(a), ok? O que você pode fazer para chegar cada vez mais perto disso? Vale qualquer desejo: profissional, criativo, monetário, ser mais feliz com o próprio corpo, ser menos ansiosa, ter uma relação mais harmônica com sua família, investir numa alimentação e estilo de vida mais saudável. No meu caso, por exemplo, fiz essa lista no final de 2013: meus dois objetivos a longo eram profissionais e criativos, e eu nunca poderia imaginar que chegaria tão longe. O outro, a longo prazo, envolve fazer mais amigos – o que é um pouco mais demorado, mas poso dizer que aos poucos estou conseguindo.
Pode ser também que você esteja tão abalada ainda que não tenha mais sonhos, desejos – que você tenha projetado tudo no outro e, com ele, ache todo gosto ou vontade tenha ido embora. Nesse caso, você vai ter que redescobrir ou encontrar ou inventar sonhos e sentidos novos. Volte para o item 3 – o que você adorava fazer quando criança? Se estiver muito duro, procure ajuda profissional – uma psicóloga ou terapeuta podem te ajudar e muito a criar um horizonte quando não se vê nada à frente.

7- Conte com sua rede de apoios. 
Peça toda a ajuda que precisar dos amigos e da família. Se possível, se force a fazer coisas com eles, e não apenas conversar – porque o assunto sempre recai naquilo que a sua mente não consegue esquecer, não é mesmo? Passeiem de bicicleta, façam um trilha, tomem sol na praia/piscina – ou, se preferirem – vejam séries juntos, comam brigadeiro, façam uma festa do pijama na casa de alguém. Já que somos adultos, pode ser queijos, vinhos, filmes e brigadeiro também – mas não exagere na bebida. O álcool traz euforia rápida mas também deprime.

9- Leia um tijolão
Quando estava bem próxima de terminar com S. (4 anos), li os 7 volumes de Em busca do tempo perdido, do Proust. Quando finalmente terminamos eu não tinha concentração mental para ler nada que não fosse o obrigatório do trabalho. Minha lentidão para ler e pensar não me deixava acompanhar ficção. E aí, descobri que finalmente conseguia ler e sentir poemas – o que me acompanha até hoje, a ponto de ter trabalhado 6 anos numa editora especializada em poesia.
Quando terminei com P. (2 intensos anos), li tudo do Sebald publicado aqui no Brasil; um livro de cartas entre a Virginia Woolf e a Vita Sackville-West e a biografia da Anne Sexton. Com o I (4-5 meses), li os diários da Sylvia Plath e uma coletânea de cartas da Katherine Mansfield; com o G. (6 meses) li Freedom, do Franzen, Anna Karenina, do Tolstoi, NW, da Zadie Smith até ser atropelada pelos textos da pós-graduaçao. Recentemente (há uns 7 meses?) briguei com uma BFF com mais de 10 anos de amizade e acho que foi para sempre – comecei o Graça infinita no dia, aos prantos na livraria, comprei no kindle e já terminei as mais de 1.000 páginas. Também assisti muito Gossip girl, confesso – se você não é muito de ler, (re)veja temporadas das suas sériespreferidas quando der vontade de chorar de madrugada. Ajuda.

10 - Escolha um poema 
Essa é a minha última técnica, a única que já ponho em prática naturalmente, não me exige esforço e me dá um sentimento de completude imediata após. Não tem a ver com remédios ou simpatias.
É simples: para cada queda, colo um novo poema na parede do quarto. A cabeceira da minha cama parece um matelassê de papéis amarelados, que desbotam a cada dia, como os versos, em português ou línguas distantes – como os amores – se apagando e se inscrevendo na memória eternamente. Se minha parede virou esse scrapbook, o meu coração é um mosaico, que desiste de bater inteiro. Que insiste em bater, a despeito. E confesso. Se a princípio eram band-aids, hoje os poemas são adornos. Coloco molduras, escolho o papel, a cor da tinta, coloco luzes em volta. E olho com orgulho essas cicatrizes-poemas, que fazem de mim quem eu sou hoje, como tatuagem.

Se tiver uma técnica para compartilhar, seja bem-vinda(o).

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------

----------------------------- até que a dor alegre recomece.


 Llansol, O começo de um livro é precioso

sexta-feira, 6 de março de 2015

Vê onde pisas




Vê onde pisas
Ao caminhar, sentiu pisar
algo que lhe amorteceu
o passo, e lhe transmitiu



aos músculos uma sensação
quase agradável, não fosse
aquele arrepiante,


súbito ruído cartilagíneo. Vê.
Um pequeno pássaro
esmagara-se-lhe sob o pé.


Verso Antigo, Luís Quintais

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Anda,

Anda, vou-te mostrar a terra
dos teus pais, avós, antepassados
tão antigos que os podes escolher.
Este aqui é noé, de barba por fazer;
meteu na arca puro e impuro, bem e mal,
inventou o vinho, homem melhor
da sua geração ( não é grande elogio ),
teve filhos, netos, é de crer que morreu.
Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia.
Vês as colinas? São tuas, quando
as olhas a direito. Realmente tuas,
parte de um mundo teu.
Sim, isso são filosofias,
tens razão. ( E tem graça ao ter razão ).
Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças
onde era costume, sabes, tratar casos assim.

António Franco Alexandre, Quatro Caprichos, Lisboa, Assírio & Alvim.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cidade que aperto, batendo as asas - ela

Nunca tinha me acontecido, mas há sempre uma primeira vez: sonhei com um poema. Não meu, obviamente. Sonhei que lia Herberto Helder, e o poema falava de flores e cidades. Acho que o poema que eu lia não existia. Ainda. Mas este aqui  fala de tudo isso e muito, muito mais do que o meu inconsciente sequer poderia abarcar.

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.


Herberto Helder

domingo, 19 de outubro de 2014

[Não posso adiar o amor para outro século]

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
António Ramos Rosa 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Pearl Harbor

I belong here. I was born
here. The palms sift their fingers
and the men shove by in shirts,
shaving in underwear shorts.
They curse and scratch the wet hair
in their armpits, and spit. Whores
spread their delicate little germs
or, indifferently, don’t, smiling.
The waves wash in, warm and salty,
leaving your eyebrows white and
the edge of your cheekbone. Your ear
aches. You are lonely. On the
underside of a satin leaf, hot
with shade, a scorpion sleeps. And
one Sunday I will be shot brushing
my teeth. I am a native of this island

Frank O´Hara

terça-feira, 20 de maio de 2014

Por muito que eu te chame e te persiga

Será que o tempo é o espaço consagrado do Dois? E a proliferação do Dois converte-se sempre numa pluralidade infectada? O Mal é para Sophia (de Mello Breyner) uma ocorrência inexplicável. Serão os anjos revoltados? Serão os homens que não chegaram sequer a ser anjos? Não sabemos. Vemos apenas os resultados, a multiplicação dos monstros. Como se passa sem quase saber que se passa da pureza para a impureza? "Senhor da tua pura justiça / Nascem os monstros que em minha roda eu vejo / É porque alguém te venceu ou desviou / Em não sei que penumbra os teus caminhos // Foram talvez os anjos revoltados / Muito tempo antes de eu ter vindo / Já se tinha a tua obra dividido // E em vão eu busco a tua face antiga / És sempre um deus que nunca tem um rosto / Por muito que eu te chame e te persiga."

"A respiração azul das cores", In: A poesia ensina a cair, Eduardo Prado Coelho
(grifo meu)

domingo, 12 de janeiro de 2014

só que não

Ela queria ser esquecida                     e foi
   roupas e rostos rasgados ao vento
      cabelos cortando a cara          
              a pele pérola pura enfim

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Antologia
Círculo de Poesia
Moraes Editores 1975

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013




Morreu a mais bela mulher do mundo
(...)
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução
sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.

Ruy Belo, Transporte No Tempo

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

da vaga vaga que vem vindo enquanto viva e que fica na página na forma de palavra

Pedra a pedra construo o meu poema
e é nele que dos dias me defendo
Nada sei de emoções manipulo morfemas
e nas cidades sinto a solidão dos campos
Humano mesmo se demasiado humano
não peço ou posso privilégios de poetas
e desconheço a carne cerebral de que careço nos
sonhos que me semeiam as semanas
cingidas de cidades sossegadas
onde só o silêncio é soberano

País possível, Ruy Belo

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Moradas


Sta Teresa d'Ávila era a minha santa preferida na infância. Sim, eu tinha santos preferidos na infância, e colecionava imagens. Explico: antes de ir parar naquele templo cinzento do nazismo estudava num colégio de freiras, com teatro, capela, freirinhas e jardins floridos. Passava horas mortas muito feliz sozinha ou com as outras crianças na capela, visitando cada uma das imagens - conservo a mania até hoje, as igrejas são sempre um refresco nos dias quentes. Na igreja do bairro ou da escola aquela santa de livro e pena na mão parecia bem mais interessante que as outras, era aquela com quem eu mais conversava, a imagem que eu mais queria observar.
E eu ainda não sabia da missa metade.

Não fazia ideia de como ela desafiara as convenções do seu tempo, como se fez respeitar no meio misógino e arcaico da época, amoleceu as resistências de padres, bispos, papas, e arrebatou tantos no seu arrebatamento. A sua espiritualidade mística, visceral - intensa da carne ao espírito - é meio tsunâmica, não deixa espaço para mais nada - é preciso esvaziar o castelo interior, mas num esvaziamento rico de vivência, até que ele, o dono, venha ocupá-lo. E o que é isso além de puro amor, desejo?

Cada vez é menos cool ser católico ou religioso; parece haver cada vez menos lugar nesse mundo para a contemplação delicada constante e intensa - já há pouco para a oração. Pras pessoas que não entendem como é possível ser uma mulher adulta esclarecida, estudada, mente aberta e simultaneamente ter fé de verdade, pra quem acha que isso e superstição ou crendice é a mesma coisa, eu não tenho como explicar. A espiritualidade (como eu a sinto) foge das amarras da lógica, ou de uma compreensão mais racional - ela toca o coração e queima a pele e escapa rápido pelos dedos, antes que seja possível se finalizar uma compreensão do que acontece. É como quando se vê o amado depois de dias de espera e o coração sobe até a boca e o rosto enrubesce e as palavras fogem e você não controla - e é isso e a paz depois que os corpos se acalmam e o coração sossega batendo junto. É tudo isso junto, e mais. Fica a sensação, essa dor/amor constante, esse duo preenchimento/vazio tão esmagador - e delicioso - que não há como pensar na própria subjetividade longe dessa relação.


Coloquio amoroso

Si el amor que me tenéis,
Dios mío, es como el que os tengo,
Decidme: ¿en qué me detengo?
O Vos, ¿en qué os detenéis?

-Alma, ¿qué quieres de mí?
-Dios mío, no más que verte.
-Y ¿qué temes más de ti?
-Lo que más temo es perderte.

Un alma en Dios escondida
¿qué tiene que desear,
sino amar y más amar,
y en amor toda escondida
tornarte de nuevo a amar?

Un amor que ocupe os pido,
Dios mío, mi alma os tenga,
para hacer un dulce nido
adonde más la convenga.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sandy Dennis Briefly











I wake up
to my cats
judging me.
They stare
blankly
as if to say
"Is this what
you had in mind
for your life?
If it is, you may
want to consider
sleeping pills or
a tall bridge
because in our view
you’re pathetic.”
Or
they’re hungry

Pamela August Russell

terça-feira, 3 de setembro de 2013

everywhere


Face of a dog in the tree.
If she were here, she’d see it.
Bats by daylight, everyone
thinks you lie. I believe in
nature, the wind that blows through it is ample evidence.
I’m part of something bigger
which includes her, where she is.

Matthew Rohrer

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Papercut

Já se foram 3 band-aids. Não para de sangrar desde as 15h da tarde. Tudo começou com a procura do poema (horas em busca dos versos exatos que deviam dizer exatamente aquilo de que não me recordo). Aconteceu no momento em que abri uma edição do Bukowski, e só me dei conta quando pingos vermelhos mancharam o preto e branco das linhas:

when God created love he didn't help most
when God created dogs He didn't help dogs
when God created plants that was average
when God created hate we had a standard utility
when God created me He created me
when God created the monkey He was asleep
when He created the giraffe He was drunk
when He created narcotics He was high
and when He created suicide He was low

when He created you lying in bed
He knew what He was doing
He was drunk and He was high
and He created the mountains and the sea and fire at the same time

He made some mistakes
but when He created you lying in bed
He came all over His Blessed Universe.

terça-feira, 25 de junho de 2013

poema-prece

In 1938 I spent ten days at Solesmes, from Palm Sunday to Easter Tuesday, following all the liturgical services. I was suffering from splitting headaches; each sound hurt me like a blow; by an extreme effort of concentration I was able to rise above this wretched flesh, to leave it to suffer by itself, heaped up in a corner, and to find a pure and perfect joy in the unimaginable beauty of the chanting and the words.
(...)
 There was a young English Catholic there from whom I gained my first idea of the supernatural power of the sacraments because of the truly angelic radiance with which he seemed to be clothed after going to communion. Chance -- for I always prefer saying chance rather than Providence -- made of him a messenger to me. For he told me of the existence of those English poets of the seventeenth century who are named metaphysical. In reading them later on, I discovered the poem of which I read you what is unfortunately a very inadequate translation. It is called "Love". I learned it by heart. Often, at the culminating point of a violent headache, I make myself say it over, concentrating all my attention upon it and clinging with all my soul to the tenderness it enshrines.
I used to think I was merely reciting it as a beautiful poem, but without my knowing it the recitation had the virtue of a prayer.


LOVE bade me welcome; yet my soul drew back,
Guilty of dust and sin.
But quick-eyed Love, observing me grow slack
From my first entrance in,
Drew nearer to me, sweetly questioning
If I lack'd anything.

'A guest,' I answer'd, 'worthy to be here:'
Love said, 'You shall be he.'
'I, the unkind, ungrateful? Ah, my dear,
I cannot look on Thee.'
Love took my hand and smiling did reply,
'Who made the eyes but I?'

'Truth, Lord; but I have marr'd them: let my shame
Go where it doth deserve.'
'And know you not,' says Love, 'Who bore the blame?'
'My dear, then I will serve.'
'You must sit down,' says Love, 'and taste my meat.'
So I did sit and eat.
(George Herbert)

Waiting for God, Simone Weil

sexta-feira, 14 de junho de 2013

lírios


Em momentos assim, sempre penso como é possível sofrer de amor, quando o peito está cheio do mesmo amor por tudo -- como sentir falta de algo ou alguém se esse amor me preenche toda. Me ocupa, me habita por inteiro. Dura pouco, mas o gosto fica na língua. Como sentir dor, tristeza. Não há espaço - nem eu caibo em mim.
E como explicar, para mundo, essa experiência mística que é estar em ligação com deus e o universo e um segundo, pura contemplação intangível, intraduzível 

(post sentido no convento de santo antônio, hoje, no Rio. Essa marcação de lugares no blog não funciona direito. na falta de lírios, as rosas)