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terça-feira, 10 de novembro de 2015

lilás


Na primavera, os campos estavam sempre cobertos de girassóis, enormes e assustadores - suas pétalas douradas como olhos abertos para o céu azul. Caminhávamos em meio às flores, eu insistia, afinal, durava pouco - no verão o amarelo ouro enegrecia em cadáveres ressequidos, enevoados de abelhas, mariposas adormecidas espreitando nosso passo por baixo da terra. O que também durava pouco. Em poucos meses vinha o outono e as pequenas flores lilazes despontavam à nossa volta, em todos os canteiros, jardins, parques -  até, no inverno, colorirem de roxo a montanha inteira, encobrindo a vista do mar, estonteando quem ousasse com o seu cheiro. Quem ousaria? No início eu colhia algumas, espalhando o cheiro pela casa, em chás, perfumando banhos longos e intermináveis em que a flor se fundia em água, vapor e óleo, se colando à pele. Mais tarde, só o roçar dos dedos nas pétalas pequenas já bastava - e só aproximar os lábios das flores já era  mergulhar na substância de matizes lilazes, sentindo o gosto do gozo, retendo-o em mim - expansão e continência. Quem ousaria ? E quem ousaria dizer não? 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O que me prende

"(...) as imagens não me faltam, mesmo nos sonhos normais. Mas destas só retenho as que notei imediatamente. A matéria dos sonhos, o grão das imagens, é sensível à luz;e essas notas correspondem à fixação da película na câmara escura. Apenas um fragmento ínfimo do mundo dos sonhos emerge na consciência e mesmo esse desaparece num abrir e fechar de olhos, se não o apanhamos de pronto."

"Portanto não é de imagens, semelhantes às que arrebataram e apavoraram de Quincey, que me recordo. Apenas a sua placenta tenho presente: o solo onde germinam e crescem. A mudança das imagens é precedida das mutações do espírito e da sua receptividade. Primeiro, é preciso criar o vazio, como acontece com qualquer quadro, filme ou manuscrito, que começa sempre por uma superfície branca. Há que neutralizar o tempo. Este leve impulso, desprovido de qualidade, era agradável. De vez em quando, campainhas discretas interrompiam-no, como que para alertar a atenção."

Drogas, Embriaguez e Outros Temas, Ernst Jünger

Sono e escrita

não importa o que se beba, o que se tome, o que se fume, ele não vem. Só quando quer. Quando amanhece e o dia já está quente entre os lençóis. Quando as pálpebras pesam e o há sabor metálico preso na garganta. Aí ele me domina – músculos em contração, enrolados estáticos no edredon, corpo que não se quer mexer, que se prende quieto como que para prendê-lo – qualquer movimento pode quebrar a magia, romper a barreira  flutuante que protege a esfera encantada do sono de todo o resto – do concreto e insípido, do real.
Ele só vem quando quer, e tudo que eu quero é tê-lo, retê-lo em mim, e ser nele - mergulhar no sem som do fundo dos olhos. Onde dizem que é vazio – porque não há dor, ou euforia? onde o vazio pulsa – calado e vivo, inquieto, ideal. 

Fotograma

Deitada no sofá, o poema na cabeça. As palavras formam de repente imagens, desenhando em fúria estradas, estações e placas com nomes de cidades longínquas. Flashes de cores estouram, num por do sol em rosa néon, laranja, malva: a luz ferindo os olhos em ruas queimando de frio, a neve enlameando as botas. Cidades de nomes com novas cores: Bratislava. Sarajevo. Vilnius. Países novos de remendos antigos; cicatrizes altas, rosadas e doídas como as minhas. Arrepiando-se ao toque. Fendas e feridas como mapas íntimos – a geografia em braile, não decifrável com os olhos.

Deitada no sofá, insisto: quero o que meus olhos não veem. As cores que desbotam, os cheiros que nos assaltam em novas esquinas, as paredes ruídas, esfarelando-se. No umbral de ir e ficar, no umbral de viver ou não, para que. No ir além do que não se sabe, do que se constrói a cada sentir.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Lepidópteros

Lepidópteros - termo cunhado por Sá-Carneiro e propagado pela Orpheu que indicava ora  burgueses, ora artistas que viviam mais da atitude que da obra, ou melhor, aqueles que, como mariposas, vivem da luz do outro – presos ou a ideologias, a convenções sociais ou convicções artísticas. Parece que há uma gradação entre todos estes casos, um gap entre os lepidópteros artistas e aqueles que chafurdam na boçalidade lepidóptera, mas a Rapariga aqui ainda não leu o suficiente das Cartas (ou das obras do Mário de Sá-Carneiro) para poder explicar.

(...) como eu no fundo abominava essa gente - os artistas. Isto é, os falsos artistas cuja obra se encerra nas suas atitudes,  que falam petulantemente, que se mostram complicados de sentidos e  apetites,  artificiais, irritantes, intoleráveis. Enfim, que são os exploradores da arte apenas no que ela tem de falso e de exterior.

A confissão de Lúcio, Mário de Sá-Carneiro

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cidade que aperto, batendo as asas - ela

Nunca tinha me acontecido, mas há sempre uma primeira vez: sonhei com um poema. Não meu, obviamente. Sonhei que lia Herberto Helder, e o poema falava de flores e cidades. Acho que o poema que eu lia não existia. Ainda. Mas este aqui  fala de tudo isso e muito, muito mais do que o meu inconsciente sequer poderia abarcar.

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.


Herberto Helder

terça-feira, 26 de março de 2013

Lorelei

Sisters, your song
Bears a burden too weightly
For the whorled ear's listening
...
Worse
Even than your maddening
Song, your silence

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Bloco do não quero mais saber

Procuro por ele em todos os blocos. Em todas as praças. Em todas as barbas e bigodes que arranham minha pele. Procuro por ele, ele procura por ela. Em todos os blocos. Em todas as bandas, os shows. O céu clareia pela manhã - ele dorme, e é nela que pensa. Onde ela está - pode estar em qualquer lugar. Eu estou aqui - só esticar a mão e tocar - invisível, sempre invisível.
Ele procura. Eu não quero mais saber.
Eu procuro pelo sono, que nunca vem. Pelo alívio de não ter fome. Pelas palavras, que me alimentam sem dor. O escuro fica roxo com essa luz - a cor vibra estranha, errada e viva no cardíaco. Louca, engraçada por continuar sorrindo e amando as mais pequenas coisas que me enchem de ternura. Um pássaro desajeitado, uma flor que não rompe o botão. Tudo que há de falho e verdadeiro. O que o mundo esmaga.
Eu não quero mais saber. Eu faço o que posso, ele não faz nada. Não imagina, não pressente - descarta. Preso na miragem de um amor que se foi. Não vê a flor que poderia romper o botão. As últimas estrelas insistentes pela manhã. Ele quer ser cego e eu sou invisível - mas era só estender a mão. Mas não. Então procuro pelo sono, por essas linhas, pelo alívio de não ter que comer. A sombra verde clara nos olhos, a purpurina no corpo, as pérolas da fantasia. Sorrio, me enfeito, protejo da dor quem ainda me quer bem. E não quero mais saber.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Alba

Aos poucos aprendo a escrever no escuro. O pulso encontra as palavras pelo tato. As luzinhas de Natal quase não contam, vão e vêm muito frágeis. Não vejo muito entre o sono, a falta de sono, as lágrimas - as primeiras depois de tanto.
É como se uma nova onda viesse e - jogada na costa novamente. Só resta levantar e andar, limpar as algas do corpo. Enxugar o cansaço, que cola a pele à areia. Mas espero. O cair da manhã, o sol e sua cegueira. O calor acordando o corpo. Portas e passos povoando a casa.
Na caixinha 4, 5 comprimidos. Um deles sem marca de corte - não me recordo do que é. Se for antialérgico, insônia. Taquicardia. Se calmante, ok. Comprimidos brancos me confundem.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Al Bertianas

"Desatar a escrever" ou "simular a espera" são saídas de escape ao real, maneiras de evitar o real, de o denegar.
...
Soube que o deserto, o meu deserto, se esconde inevitavelmente dentro de mim. Nele circulam ecos de vozes mais antigas que a minha, e umas mãos de âmbar nocturno tocam incomensuráveis areias.
...
A estrada é uma concepção que não se realiza. Não é um princípio sem fim, é apenas meio, que é sempre o lugar onde me sinto, no meio de alguma estrada mental.




quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

As pessoas que falam para deixar a luz entrar não conhecem a escuridão. Porque não há espaço. A escuridão ocupa e preenche todos os átomos. Ela é como um gás, aparentemente leve, invisível, pensando em todas as nossas células. Não é possível se mexer quando ela cai, ela pesa em nossa pele. Não é possível gritar. A nuvem cobre o sol por segundos que parecem horas, e não controlamos nada além da respiração. Só resta esperar pelo momento em que o encanto se quebra - quando nosso corpo desperta e rompe o manto da imobilidade.
Às vezes no escuro há flashes de luz que aparecem como raios. Mas eles doem - são como choques disparados no cérebro.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012


Feliz Natal o quê -- pensou Isa, calando o telefone no gancho -- se você não tem nada a ver com essa mulher que sobreviveu. Se você não tem nada a ver. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ela me disse uma vez que são as histórias que nos encontram-- tentamos esquecer, ou por preguiça, desânimo, medo, e elas nos perseguem e alcançam lá na frente, onde nunca poderíamos imaginar e por isso nos proteger. Não somos nós, são elas, elas é que insistem, nos rodeiam, dando um jeito forte ou bem sutil até que cedemos. Como quando estamos apaixonados e o nome da pessoa nos assombra em rótulos, letreiros, anúncios, menus. Parece que há uma inteligência qualquer a serviço do que tem que ser - parece Maktoub, ou que somos especiais, mas não é nada disso, é só isso: a história pedindo pra nascer.

As histórias que eu mais gostei de contar só contei porque não conseguia mais fugir delas -- porque não havia mais nada a fazer.

Uma das razões pelas quais demiti minha analista (há mais, claro): ela disse que se não fosse essa capacidade de sofrer e sentir, eu não conseguiria escrever.
Ora, é muito óbvio que se não fosse isso eu nunca precisaria escrever.

sábado, 6 de outubro de 2012

Andando pela rua ao cair da tarde, voltando para casa. As ruas vazias - sem dor, só vazias - do sábado no Humaitá. Ando distraída olhando o chão e subitamente reparo no seu tom excessivamente cobre. Levanto os olhos e vejo: as árvores, folhas e troncos, os postes, os brinquedos no parque, acobreados; os letreiros das lojas, o cachorro e a criança numa nuance alaranjada, como se (a)tingidos pela ferrugem. Der Himmel über Berlin -- o que poderia disparar essa súbita mudança de coloração das coisas, instagrando o mundo de outono?

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Lallen

              "Rosen" (1994), Gerhard Richter

Os alicerces como raízes na terra remexida. Construir por cima do que desabou, preparar a terra, o papel, o punho. Ela diz alguma coisa, mas é apenas um lallen und lallen, até que as frases se embolam sem sentido, num sussurro de canção de ninar fantasmas. Puro gaguejar, tropeço da língua, sem narrativa. Por isso um projeto difícil, por isso raízes sem tronco, sem sustento. E o eterno ofício de escavar a terra, balbuciando para ninguém aquilo que absolutamente não faz sentido.

sábado, 19 de maio de 2012

Nat e a fluoxetina



Só hoje descobri que durante anos me enganei na letra dessa música, um clássico da minha infância. Sempre ouvi: "só porque não sei chorar eu vivo rindo a sofrer" - quando, afinal, ele diz que fica triste a sofrer.
O verso perdeu todo o seu ar adoravelmente maníaco - e, confesso, metade da graça. 

segunda-feira, 2 de abril de 2012


No almoço de domingo, ela me recordou ( sabe-se lá porque) do meu "sucesso" na infância, quando interpretei o papel de Nica, a formiguinha, na peça de final de ano. Sucesso sim: dos 7 anos 10 anos tive que responder por esse apelido na escola, e os coleguinhas dos outros turnos  sempre me paravam no corredor perguntando hey, você que era a  Nica?
(Lembro da sensação de adorar estar no palco tão bem como lembro da última vez que usei uma chupeta -- como se tivesse pleno acesso à memória de outra pessoa.)
A peça era sobre uma formiguinha que corria a floresta em busca de um lugar que pudesse chamar de "lar" --  "um lugar maravilhoso e feliz então ficar" -- ela cantava no refrão. Nessa busca, conversava com macacos, elefantes, leões, árvores, e perguntava a cada um deles para onde deveria ir, e cada um deles indicava a direção de um lugar maravilhoso, que afinal era a própria casa deles. A formiguinha achava os lugares até agradáveis mas não se identificava e por isso continuava andando, procurando.
Acho que no final ela encontrava outras formiguinhas e percebia que o lugar maravilhoso era onde não estava mais sozinha.
Mas é o que eu acho.
Não consigo me lembrar de como terminava a história.