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segunda-feira, 27 de abril de 2015

The real deal



Sonho que recebo uma carta. Uma embalagem com carimbo e selo da Polônia. Abro o pacote e encontro um casaco rosa antigo, com bandeirinhas, selos e brasões de vitórias antigas. Dentro, uma foto minha. E um poema, numa letra e língua que não consigo entender.
Ele diz que não sabe o que é a nossa amizade. Que precisa saber
Não sei como mas descubro que ele está fazendo um curso na Fapesp sobre arte contemporânea, o mesmo que eu queria fazer. Penso em esperá-lo na porta, vestida com o casaco. Devo ter confundido a Fapesp com A EAV, por causa do Charles Watson. Meu plano era esperá-lo, comentar que também queria fazer o curso, (o que era verdade) e ao mesmo tempo agradeceria o presente e mostraria como ficou bem em mim, e tentaria marcar um café. No qual eu diria
que eu sempre soube
Sempre soube que ele não tinha nada a ver com o mundo de barbies deslumbrados que o rodeiam. Que ele precisava de substância, intensidade, como a onça pecisa da carne da presa – que suco verde não enganava a fome dele. Que ele procurava a pérola dentro da ostra e não ostras com limão e capirinhas num iate em Paraty. Apesar de fingir muito bem.
E de repente, no sonho, eu vestida com aquele casaco de tantas guerras percebia que era eu a pérola, a joia rara que ele buscava. Invisível, escondida no conteúdo translúcido da concha – como um fantasma que só alguns veem. E que ele também era. Debaixo de tantos brasões e realizações, o czar medroso, generoso e puro, adormecendo como uma criança. Debaixo de tantas máscaras a que a vida obriga para vencer. E eu sentia, em todo meu corpo correndo: ele é também é the real deal. Só que não sabe. Quando irá acordar, meu deus?

Acordo e despenco em segundos até o real da minha cama vazia, fria, o abajur ainda aceso com o temor do escuro. Pego o caderno e escrevo. Não choro; escrevo até o sono voltar. Guardo as palavras no papel e mais uma memória dentro de mim. Chove bastante, as gotas nublam o vidro da janela. Adultos não choram – criam novos sonhos. Ou escrevem. Ou fazem do sentimento alguma coisa, Colocam um band-aid e seguem – ou outros, como eu, deixam sangrar em silêncio e observam as formas e texturas que surgem da ferida, como tatuagens. Esperam pelos temporal e vão buscar as conchas que as ondas trouxeram lá do fundo. Brilhantes, em tons de madrepérola e roxo furta-cores, como pedras preciosas. 
Também espero o temporal passar. Observo atenta os raios atingindo o oceano na noite escura, e espero plácida pela manhã. Quando o sol acordar meu corpo na areia e, ao meu redor, brilharem as conchas mais lindas. 
Estou na praia. Observo as ondas à noite e contenho meu desejo de me fundir ao céu e mar noturno. Entre os dedos seguro uma, duas, três conchas – as mais bonitas depois da ressaca. Com elas entre os dedos, espero pelo dia em que possa entregar a dele – o amuleto que o protegeria do mundo cão em que ele vive.

Amor de verdade não precisa do outro. Porque o outro está sempre aqui. Em cada respirar de maresia, em cada árco-íris descoberto num quartzo, em cada linha de um poema. E não, não dói dói. A felicidade do outro é sua também, porque é impossível mudar o que se sente. É gratuito, parado no tempo como uma onda sonora que se propaga infinita, repercutindo no espaço. 
No espaço, em algum lugar, nós. Lembra?