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domingo, 24 de abril de 2016

Whatever works –- a arte da evasão


Não foi fácil adormecer ontem; uma dor de cabeça resistente a 1000 mgs de paracetamol e 300 ml de gin pressionava têmporas e fundo dos olhos há 5 horas. Eu sabia quantas porque depois de oito já poderia repetir os remédios. Ele perguntava por que eu estava assim e eu sabia que nenhuma resposta era socialmente válida além do estresse relativo a uma (im)provável estabilidade financeira futura e a dissertação a ser parida. Uma semana pelo menos que o senhor que não troca o suéter, o que dorme no estacionamento em frente à futura creche, sumiu. Uma semana que não o vejo nem lá, nem na hora do almoço comprando quentinha no largo, nem à tarde distribuindo milho para os pombos. Foi-se.

Nenhum carro de serviço social passou pela rua – os outros continuam aqui.

Há uns três anos foi assim com ele também. Um dia do nada perdi o seu rastro, e nunca. Nunca mais apareceu. Poderia ter sido internado – era um vizinho meu, dormia nas ruas por puro alcoolismo. Mas depois de seis meses sem notícias? Depois de um ano? Dois?
Uma semana. Procuro todos os dias pelos seus sinais – há sete dias que não encontro nenhum toco de cigarro perto do canto que ele arruma para dormir.

Qualquer um pode desaparecer assim.  Quem é que vai reclamar  – e com quem? Nem as pombas que ele alimentava diariamente parecem sentir falta. Antigamente tínhamos que abrir espaço para andar entre elas, quando, sentado no paralelepípedo, ele distribuía milho; agora aquela esquina está limpa, como disse o segurança, a dona daquele outro cachorro e as palavras ecoando na minha cabeça. Limpa.
I know I should be totally clean, but well, (..). Don't worry bae, whatvr works now
Pergunto-me se é assim que parece a ausência do que incomoda mas no fundo nem vemos: the coast is clear. Um alívio. Também perdi o rastro do meu desaparecimento. Se começou em fevereiro, com o acidente. Em março, com a ansiedade social e a depressão. Ou no final de março com isso mais o resto e a inabilidade para gerir tudo e a vontade de imobilidade e invisibilidade, natural num bicho ferido. Perdi o início. Não acompanho mais o desenvolvimento. Assisto distante, apenas comento algumas fases. Estamos in bloom.

A raiz do tubérculo é perito na arte da evasão para o interior. Por que?
a) melhor sair do interior egoico doído para um grande cosmos sem sensação e personalidade.
b) nada como um grande exercício de economia de recursos pessoais devido ao esgotamento

Iremos voltar algum dia? Provavelmente. A que preço, não sei.
O que irá acontecer quando se romper o lacre de silêncio e imobilidade que costura pele, pulso, sonhos, riscos, rascunhos no retiro dessa cave escura?
Quem não é visto não é lembrado, e isso é para ser lido literalmente.
Será que ainda haverá espaço no mundo?
Quantas semanas até esquecerem totalmente? Quanto tempo até a gente realmente se apagar e ir?


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Big bang


Ando na rua olhando para o chão de pedras portuguesas quando duas senhoras rindo me fazem voltar a cabeça para elas e depois para o céu – no azul, a dança atômica das aves que se unem e separam em grandes cardumes rasgando as ondas de ar quente do fim da tarde. Havia um fenômeno qualquer com esse nome – uma vez ele me explicou – já esqueci, percebo com um sorriso. Já não me lembro. A grata surpresa de de repente se pegar esquecendo. Os pássaros o sol o céu o azul e as senhoras dançam em meu peito num equilíbrio perfeito, num segundo frágil em que tudo se encaixa  antes de desmoronar para o caos natural e sem sentido em que vivem as coisas. Num segundo mínimo de um piscar de olhos – cílios com cílios disparando o big bang do universo fruto de uma mente em repouso e o pulso insistente do peito.


domingo, 8 de março de 2015

sobre girl hate, again

Quando eu tinha os meus 22, 23 anos, estagiei em produção de tv em Portugal, em  um programa sobre imigrantes. O trabalho apostava na integração pela informação, e basicamente consistia em fazer reportagens de imigrantes bem-sucedidos, bem integrados, fazer quadros com culinárias típicas de outros países ou denunciar casos de discriminação. O programa era financiado pelo governo e funcionava como uma fonte de informações para os imigrantes e também para os portugueses, que tinham a chance de (re)conhecer os recém-chegados do Leste, África ou Brasil como cidadãos iguais, lidando com todas as dificuldades normais da vida – além daquelas que a sociedade que não os acolhe impõe.

A ideia do trabalho era incrível. Pensei que iria aprender muito com aquele estágio. E aprendi – mas não só sobre o tema da imigração. (In)felizmente, minha lição ali teve mais a ver com puxadas de tapete profissionais, inesperadas e pior, vindas de mulheres imigrantes como eu.

Sem querer entrar em detalhes para não comprometer ninguém (não é esse o objetivo do post), descobri o que era girl hate adulto na minha primeira reportagem. Fui mandada embora para casa pela editora, que, sem nem ver o trabalho finalizado, avisou que meu tempo ali tinha acabado. Aparentemente a colega também imigrante que me acompanhou e disse que eu estava fazendo um ótimo trabalho não lhe deu o mesmo feedback. Fiquei confusa e sem entender nada (como a editora poderia julgar meu trabalho sem o ver, já que a fita estava ainda na minha mão?). Até que uma colega mais velha me abriu os olhos:

Eu era bonita, jovem, estudava na melhor faculdade de jornalismo do país e tinha todo o perfil para ocupar uma posição no programa no final do estágio. O que, pelo jeito, incomodou algumas pessoas. Mesmo que eu nunca tivesse nem esboçado a ideia de ocupar o lugar de ninguém.

Essa jornalista me deu a aula mais importante que já tive sobre como devemos nos unir e combater o girl hate que, no fim das contas, é um tiro no pé de todas as mulheres. Só quem sai ganhando com isso, no final, são os homens, vendo um bando de meninas competindo entre si para chamarem mais atenção seja profissionalmente, seja para agradá-los romanticamente/esteticamente.

Foi duro e inesperado o golpe, que partiu de alguém que considerava como amiga, mas também foi uma lição. Lembro que perguntei à minha colega mais velha o que eu poderia fazer para agradecer a ela. "Nunca tratar nenhuma estagiária, colega ou qualquer mulher dessa forma, porque estamos todas no mesmo barco", ela disse.
Um ensinamento que levei para a vida.

Pode exigir um pouco de treinamento para quem foi criada na base da competição, mas o que posso dizer é que é extremamente libertador, gratificante e motivante sentir orgulho e alegria pelo trabalho de outras mulheres (e homens tb). É libertador porque passamos a pensar que não há um pódio só para um vencedor na vida – há milhares de prêmios e troféus, e há espaço para cada uma/um de nós, com todas as nossas particularidades. Não há como ninguém ser melhor do que a gente porque ninguém é igual a gente. Isso é tão lógico – porque será que não nos ensinaram esse mantra no berço?

Nesse dia das mulheres, vamos celebrar as conquistas de cada uma de nós. Além de lutar pelos nossos direitos, ou acusar os homens de qualquer coisa, vamos pensar no que a gente tem feito de verdade para apoiar o trabalho umas das outras. Já é um bom começo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Anda,

Anda, vou-te mostrar a terra
dos teus pais, avós, antepassados
tão antigos que os podes escolher.
Este aqui é noé, de barba por fazer;
meteu na arca puro e impuro, bem e mal,
inventou o vinho, homem melhor
da sua geração ( não é grande elogio ),
teve filhos, netos, é de crer que morreu.
Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia.
Vês as colinas? São tuas, quando
as olhas a direito. Realmente tuas,
parte de um mundo teu.
Sim, isso são filosofias,
tens razão. ( E tem graça ao ter razão ).
Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças
onde era costume, sabes, tratar casos assim.

António Franco Alexandre, Quatro Caprichos, Lisboa, Assírio & Alvim.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Don't swim tonight, my love, the sea is mad my love




Dezoito paredes. Duas portas de vidro na pequena varanda de onde me debruçava para a rua. Memórias impregnadas como cheiro de cigarro no floral bege-rosa do sofá. Os furos queimados no colchão, tapetes e colcha, marca de cada amigo que ia passando. 500 sorrisos meus. 200 brigas e gritos e ameaças dele. 600 sorrisos dela. 900 abraços de cada um dos amigos que fiz lá, ou que vieram me visitar nesses 10 anos. Cada festa reunião, jantar, cenas passando como flashes enquanto tento apagar, deixar ir, dormir. Os almoços de sábado na época em que eu cozinhava para oito pessoas – e comia feliz. Os primeiros passos da Odete, tão pequena que eu tinha medo de esmaga-la quando ela acompanhava quietinha meus movimentos na cozinha. A mobília dele, indo embora no carreto, eu assistindo pela janela com uma taça de vinho branco. As malas dela, duas grandes e mais três sacos de lixo devidamente depositados na porta. O dia que encontramos uma estante na rua e carregamos 3 quarteirões até a casa e lixamos e pintamos de vermelho e penduramos na sala – não cabia livros, só cds. Na época ainda havia cds.

Eu voltando cedo da revista, dentro do comboio estranhando as ondas tão altas, no dia do terremoto. A fissura no alto do teto virando rachadura após o abalo. Eu no primeiro estágio, almoçando qualquer coisa e correndo de volta para o jornal. Chegando às 23h de um milhão de cursos que não serviram para nada. Nós sendo informados na reunião de pauta que a revista tinha falido. Eu desempregada, tomando chá, vendo Oprah, comendo tofu com coca-zero, plenamente consciente do tsunami que viria a seguir. 
–Você parece serena, com a decisão de ir embora, ela me disse. Meu pai nunca me pediria isso, ela acrescentou. 
– Não há nada a fazer além de esperar e manter a calma, respondi. Eu serei eu com todas as minhas questões em qualquer lugar do mundo – ela assentiu sem me dar muito crédito, enquanto ouvíamos Magnetic fields e comíamos azeitonas do Leste com café. ( o que havia).

Acertei, ainda sou eu. Tirando a alegria. De voltar para casa. Para a minha casa. Aquela em que eu pintei todas as paredes (com ajuda de amigos), do rodapé ao teto. Aquela para a qual escolhi a mobília, uma por uma no Ikea – ou achava na rua e pintava ou cobria com papel de parede cheio de patinhos e florzinhas ou outras estampas kitsch que me faziam sorrir de manhã. Aquela casa que tinha uma cortina pink, cenário preferido para as fotos dos meus amigos. Aquela que os meus amigos visitavam – na época em que parecia que sempre estaria rodeada por eles, e que sempre haveria kindred spirits à minha volta.

Eu disse que viria um tsunami e era só isso que sabia, sem detalhes. Rezava para não sobreviver e ter que recolher os destroços.

Ainda hoje desconfio do mar, desconfio das ondas. Elas vão e vêm exatamente como no dia do abalo – no terremoto as coisas não tremem, elas balançam, de um lado para o outro até você duvidar da própria sanidade. Observo o mar e espero; a onda parece que não quebra nunca. Quando me aventuro nas águas elas me reclamam e puxam logo para a parte alta, onde meus pés não alcançam, só para me atirar de novo à areia. Às vezes dá tempo de ficar uns segundos deitada, observando o céu. Sentindo a espuma apaziguar o corpo, lixado como se com pedra pomes. Os dedos, pernas e pés afundando na areia, como se parte da paisagem, uma concha qualquer.

Eu, que recolho e escolho conchas como se pedras preciosas.

Quem mais o faz?

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

they say that home is where the heart is


Há quantas gerações estamos indo e voltando, indo e voltando?
Quando é que a terra nos acolhe e abarca de vez, meu deus?

terça-feira, 20 de agosto de 2013


Gosto de estar no miradouro sozinha, quando chegam as primeiras estrelas. Mas assim, a meio da tarde, o calor daqui me abriga. A pele toda acarinhada pela luz. E, de repente, o frescor das igrejas escuras silentes de pedra e perdas.
Um cão sem coleira vem falar comigo, cheira as minhas pernas. Olha-me nos olhos e, como sempre, me segue.

rua da conceição


As pessoas falam comigo ou em inglês ou em espanhol. A cidade está vazia, uma planície de mármore branco devorada pelo sol no azul do céu. Manhãs e tardes subindo e descendo ladeiras, o calor no cimo da cabeça, e as pernas crescendo em sombras. Ando insegura, o trânsito mudou - ano de eleições é ano de obras, dizem-me - hesito pelos novos velhos caminhos que seguem, como círculos, invariavelmente para o centro de um passado que desperta a cada esquina -- a memória pulsátil e intacta, como a canção de ninar que nos surpreende na caixinha de música.

Um passado que toca suave, que pulsa sem doer no peito - não dói mais.

Quando

Quando se perde uma cidade, é porque já se ganhou outra?




quarta-feira, 22 de maio de 2013

corpo-cidade

Começa no princípio e o princípio são os pés, os alicerces, a base -- placas de argila e estacas corroídas, frágeis ante a iminência do sismo, parte de sua própria falha geológica constitutiva.
Cidade-corpo por onde um rio corre, roendo por dentro.

[ Uma escrita, um corpo, uma cidade que se pensa à beira do aniquilamento, do êxtase, da dissolução.]

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

E o que faremos


E o que foi feito de nós, Lisboa? Praças e bancos e pombas e estátuas e os nossos olhos de fome, esforço, descanso. E o que foi feito? - Do cheiro verde escuro do Tejo - do cheiro, do gosto, do passo nas pedras rolando. E o que foi feito de nós, daquilo que mais amámos? Já não há letra, nem música, nem a luz rósea da tarde a pintar essa dor - e o que faremos?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O meu país

(..)O meu país são todos os amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
pois eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez


(trecho de "Peregrino e Hóspede sobre a Terra", Ruy Belo)

sábado, 14 de abril de 2012

Noturno 1


Ela disse que era impossível esquecer o anoitecer em Lisboa, o azul escuro no céu, luzes amarelas beijando o chão. Ela disse que não conseguia, que quando o sol ia embora ainda esperava aquele azul, que nunca mais. Ela disse que por isso preferia o sol, o dia, a semana, que aí não se lembrava tanto, que aí não precisava esquecer. Eu disse que  não queria esquecer.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Lisboa amor

E ver a cidade que se ama com um olhar estrangeiro. E deixar-se apaixonar, mais uma vez.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

patchwork

Sair para poder voltar. Aos meus pés as rachaduras se expandem, a terra seca retalhada em patchwork – noites e dias passados costurados a esmo, bordados no fio autônomo da memória. Na película p&b, imagens trêmulas desfazem-se no vídeo, etéreas, grão a grão, pixel a pixel: a rua vazia através do vidro sujo da janela, as cortinas escuras do pó – o sofá curtido pelo tabaco, pequenos furos castanhos de brasas esquecidas – os dedos amarelos na chávena rosa chiclete. O vermelho do pufe contra o branco da poltrona, os azulejos 50´s carcomidos  pelos anos, estranhas manchas de fungo entre os rejuntes. O verde escuro do limo nas frestas da banheira, meu corpo escorregando em vapor e água cálida, óleo de baunilha e amêndoa, Interpol aos berros calando os vizinhos. She puts the weight into my little heart  - o vapor, o frio, a fome. O sono, que vem em ondas abruptas enquanto deslizo pela banheira, o sono, em marés rasas, indo e vindo sem fim. Aos meus pés as rachaduras continuam e sei que para voltar é preciso antes sair, com os dois pés, não só com um – com os membros, cabeça, olhos, coração. Mesmo que para onde? Mesmo que para onde não []

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Tijolos vermelhos sujos de terra, entre mármores e azulejos num azul e branco e verde-limo, pedaços partidos, corroídos pelo vento marinho. O azul é masculino, a cidade...a cidade é branca. Branca, deixa-se possuir  pelo olhar que a colore. Ou será ela que nos possui a cada passo, a cada tropeço, guardando um pouco de nós - o que é mais nosso e nem sabemos - nessas pedras.

[O toque dos sinos. Cruzeiros deslizam, brancos, no azul-cinza do Tejo]

Luzes laranja contra o céu metálico - a cidade desperta. Manhã de insônia ou entardecer, já não sei - o miradouro não tem relógios. Os azulejos só contam os anos, as décadas. Por um segundo infinito quero me fundir com todas essas cores, morrer numa overdose de beleza. Ou ser a cidade em um olhar. Retê-la. Confundir nossos corpos à meia luz do dia que se vai, tê-la em mim. Acariciá-la como esta brisa, que afaga o céu, as mãos, que arranha as bochechas.

[O barulho dos cargueiros. Gaivotas planam entre nuvens-anjos rilkeanos.]

As luzes de Almada como estrelas, cintilando intermitentes para além do rio. O chiar dos elétricos que seguem para a Sé, descendo pelos trilhos que ferem a superfície da cidade. Que cortam a pele, em lâminas. Seu som me embala em  vento, céu, azul, saliva.  Em sonho.