Mostrando postagens com marcador luto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador luto. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de julho de 2015

Violetas



Além das palavras, dos sentidos, do chão, do céu, dos ais. Um tempo de maturação estranho – misterioso – até que um dia as feridas desabrocham quietas, deslizando em pétalas enrugadas, como se nada fosse, em flor. Rósea e tranquila, a violeta me encara alheia a tudo isso - inútil e real, como todos nós. Seiva sangrando viva, morrendo a cada lufada de oxigênio – mas inteira.

Penso em quantas vezes lhe neguei ajuda. Quantas vezes ela me disse que só eu a entenderia, que não aguentava mais o peso dos dias. E eu no início dizia que ia passar; depois deixei de acreditar – me afastei, sua dor me fazia mal. É difícil para mim perceber o quanto sou nociva – ela me escreveu uma vez. Releio seus e-mails. Eu não respondi. Porque era veneno que corria pelas suas palavras, quando ela agredia o mundo com sua dor, quando dizia que precisava de ajuda, senão…. era como uma flor carnívora; eu não me deixaria abocanhar pela ilusão de ser necessária – eu não me deixaria intoxicar.

As violetas não são tóxicas. Eu acho. Poderia colocá-las debaixo da língua e me deixar acalmar pela cor rósea, como um remédio sublingual. Qualquer um de nós já passou por isso: a tentação de ir para o nada, como ela ameaçou tantas vezes. Quando não se aguenta mais o peso do mundo.

Mas olho as violetas e, não. Resisto. Fecho os olhos e tento ser com a flor. No absurdo de abrir as pétalas apesar de tudo – nessa fé ingênua, e insistente, nessa (des)esperança louca.
De continuar florindo, apesar de tudo.