Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Outro dia me perguntava o que encontraria se pesquisasse a fundo a origem dessa relação com a escrita. E pensei que podia ser algo tão simples como a solidão -- se ela não fosse tão omnipresente desde tão cedo,  será que haveria espaço para essa relação, nestes moldes? Depois de horas sem a voz do Outro para reorganizar os pensamentos -- eles se diluem na atmosfera vazia e porosa ao meu redor. Depois de horas cedo e traço qualquer coisa no papel -- traço alguma estrutura.

Ou, contra o tédio, o êxtase:

"Por outro lado, a solidão actua também como um filtro. O que se escreve no dia seguinte é mais do que uma enumeração de impressões; durante a noite, o êxtase demarca-se do quotidiano pelos seus belos contornos prismáticos, forma uma espécie de figura e é mais facilmente rememorável. Diria que se contrai e assume a forma de uma flor.
Para nos aproximarmos dos mistérios da felicidade no êxtase teríamos de reflectir sobre o fio de Ariadne. Que prazer no simples acto de desenrolar um novelo! Um prazer que tem afinidades profundas, quer com o êxtase, quer com o da criação. Avançamos, mas, ao avançar, não só descobrimos os meandros da caverna em que nos aventurámos, como também desfrutamos dessa felicidade do descobridor apenas através daquela outra que consiste em desenrolar um novelo. Essa certeza que nos é dada pelo novelo engenhosamente enrolado que nós desenrolamos -- não será essa felicidade de toda a produtividade, pelo menos daquela que tem forma de prosa? E no haxixe somos seres de prosa e de prazer da mais alta potência."

Sobre o Haxixe e outras drogas, Walter Benjamin, trad. João Barrento

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mais alento do que na Bíblia

O mal está apenas guardando lugar para o bem. O mundo supura é só a olhos impiros. Deus está fazendo coisas fabulosas.

(Tutaméia, Guimarães Rosa)

Na falta de um Messias, as palavras <3

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O que me prende

"(...) as imagens não me faltam, mesmo nos sonhos normais. Mas destas só retenho as que notei imediatamente. A matéria dos sonhos, o grão das imagens, é sensível à luz;e essas notas correspondem à fixação da película na câmara escura. Apenas um fragmento ínfimo do mundo dos sonhos emerge na consciência e mesmo esse desaparece num abrir e fechar de olhos, se não o apanhamos de pronto."

"Portanto não é de imagens, semelhantes às que arrebataram e apavoraram de Quincey, que me recordo. Apenas a sua placenta tenho presente: o solo onde germinam e crescem. A mudança das imagens é precedida das mutações do espírito e da sua receptividade. Primeiro, é preciso criar o vazio, como acontece com qualquer quadro, filme ou manuscrito, que começa sempre por uma superfície branca. Há que neutralizar o tempo. Este leve impulso, desprovido de qualidade, era agradável. De vez em quando, campainhas discretas interrompiam-no, como que para alertar a atenção."

Drogas, Embriaguez e Outros Temas, Ernst Jünger

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Lepidópteros

Lepidópteros - termo cunhado por Sá-Carneiro e propagado pela Orpheu que indicava ora  burgueses, ora artistas que viviam mais da atitude que da obra, ou melhor, aqueles que, como mariposas, vivem da luz do outro – presos ou a ideologias, a convenções sociais ou convicções artísticas. Parece que há uma gradação entre todos estes casos, um gap entre os lepidópteros artistas e aqueles que chafurdam na boçalidade lepidóptera, mas a Rapariga aqui ainda não leu o suficiente das Cartas (ou das obras do Mário de Sá-Carneiro) para poder explicar.

(...) como eu no fundo abominava essa gente - os artistas. Isto é, os falsos artistas cuja obra se encerra nas suas atitudes,  que falam petulantemente, que se mostram complicados de sentidos e  apetites,  artificiais, irritantes, intoleráveis. Enfim, que são os exploradores da arte apenas no que ela tem de falso e de exterior.

A confissão de Lúcio, Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A leitura-jogo e a arte da invenção





Será muito anti-ético escrever sobre livros que ajudamos a editar? Provavelmente. No caso deste livro, escrito por um exímio editor (basta dizer que há mais de 15 anos descobre e publica autores nacionais), minha única contribuição foi a retirada de uma vírgula. Mais nada. O original era perfeito, limpo, claro. O labirinto estava na própria história, nas entrelinhas da (auto)ficção. E quando se trata de um sentimento tão raro como só alguns livros nos despertam, fica difícil se conter e limitar a pérola ao espaço mínimo de uma concha. Ou de uma estante.

Quando a memória para de funcionar, os tempos se conjugam num único e mesmo presente, avisa Jorge, o narrador. É ali, já nos primeiros parágrafos, que o leitor é tragado numa pausa espaço-temporal – o hoje, o ontem e o que vem ou pode vir depois se mistura, simultâneo e aleatório. Nesse caminho sinuoso, de saídas, desvios e intertextualidades múltiplas, somos guiados por um homem na eterna busca pelo rosto de uma mulher que se foi, que se acostuma a outro nome após a morte do pai – falecido e ausente há tempos. Pai e filho se desdobram no mesmo nome, em meio aos primeiros sinais de demência da mãe.

Loura, ruiva, morena, quem é essa mulher que se vai – Laura, Joana? e aquela que levou de vez o pai para fora de casa, qual eram o nome dela, delas? – os olhos senis da mãe ainda indagam, mas é o narrador quem pergunta – entre os diários empoeirados do velho Jorge, em conversas ambíguas com o tio, em diálogos confusos com um antigo detetive. Afinal, só um dos Jorges procura, em cada perfil de mulher que avista de longe e que confirma, com alívio, ao chegar perto, não ser o dela.

Mas enquanto busca aquilo para o qual não há respostas fáceis, ele se depara com a invenção. Algo tão raro e óbvio e misterioso que não consegue ser descrito, que requer muitas palavras para o definir – intraduzível, estranho. Tudo o que existe precisa de um nome e uma patente, mas essa invenção pede um nome simples, que não se esgote. Afinal, este é um artefato pronto para ser usado e abusado de infinitas maneiras, sem nunca perder seu valor de raridade, preciosidade. Que se molda a rostos, paisagens, épocas, guardando em sua essência a imortalidade – sobrevivendo a todos nós, perplexos e falíveis mortais.

Em A invenção do amor, de Jorge Viveiros de Castro, cada linha é como um portal, como um chão falso deslizando o leitor para o fundo de novos sentidos. Como uma leitura-jogo, as páginas pedem para serem arrancadas, embaralhadas e lidas em ordem aleatória – como a própria invenção, singular, infinita e única para cada um que a vive. Nessa escrita de caminhos proustianos e eternos retornos, a única regra clara é a de que “tudo é o mesmo e simultâneo”: leitor narrador e autor partem do mesmo ponto zero, se arriscam, se deixam ganhar ou perder – só para se encontrar mais adiante, num movimento que reflete a própria correnteza fluida, forte, fugaz e imortal do amor.

domingo, 5 de janeiro de 2014

coragem vs medo

 (...) o que chama­mos de ‘coragem’ muitas vezes tem suas raízes em uma forma de covardia: para comprová-lo, basta lembrar todas as situações em que, para lograr atos como matar, torturar ou violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão baseou-se no medo ‘viril’ de ser excluído do mundo dos ‘homens’ sem fraquezas, dos que são por vezes chamados de ‘duros’ porque são duros para com o próprio sofrimento e sobretudo para com o sofrimento dos outros.

Bourdieu

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

touché


"Wenn einer in sein dreißigstes Jahr geht, wird man nicht aufhören, ihn jung zu nennen. Er selber aber, obgleich er keine Veränderungen an sich entdecken kann, wird unsicher; ihm ist, als stünde es ihm nicht mehr zu, sich für jung auszugeben. (...)

Nie hat er einen Augenblick befürchtet, dass der Vorhang wie jetzt aufgehen könne vor seinem dreißigsten Jahr, dass das Stichwort fallen könne für ihn, und er zeigen müsse eines Tages, was er wirklich zu denken und zu tun vermochte, und dass er eingestehen müsse, worauf es ihm wirklich ankomme. Nie hat er gedacht, dass von tausendundeiner Möglichkeit vielleicht schon tausend Möglichkeiten vertan und versäumt waren - oder dass er sie hatte versäumen müssen, weil nur eine für ihn galt.
Nie hat er bedacht ...
Nichts hat er befürchtet.
Jetzt weiß er, dass auch er in der Falle ist."

Ingeborg Bachmann, Das dreißigste Jahr

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Nós sabemos todos muito bem, no fundo, que o interior é o lugar não do meu, não do eu, mas de uma passagem, de uma fresta por onde um sopro estrangeiro nos pega.

Valère Novarina, Diante da palavra.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Do verbo se fez carne

Descobrir agora que o sexo vinha sendo plenamente registrado nela como linguagem -- como palavras que ela conseguia dizer em voz alta -- a tornava muito mais real para ele como pessoa. Os dois agora não podiam mais fingir que eram só dois jovens animais mudos fazendo o que faziam de maneira irrefletida. As palavras tornavam tudo menos seguro, as palavras não tinham limite, as palavras criavam um mundo próprio.

Liberdade, Jonathan Franzen

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Os dois se surpreenderam. Cachos pesados pendiam das laterais do rosto da Senhorita Barrett; grandes olhos espertos brilhavam; uma grande boca sorria. Orelhas pesadas pendiam das laterais do rosto de Flush; seus olhos também eram grandes e inteligentes; sua boca estava aberta. Havia algo de comum entre os dois. Enquanto encaravam um ao outro, pensaram: aqui estou eu. Então, sentiram: mas que diferente! O rosto dela era pálido, de uma inválida, afastado do ar, da luz, da liberdade. O dele era o rosto saudável e afetuoso de um animal jovem; cheio de saúde e de energia. Separados violentamente, apesar de originados no mesmo molde, será que um completava o que estava latente no outro? Ela realmente poderia ser tudo aquilo, mas ele... não. Entre os dois existia o maior abismo que pode separar um ser do outro. Ela falava. Ele era mudo. Ela era uma mulher; ele era um cão. Assim, intimamente ligados; assim, imensamente separados, um encarava o outro. Então, de um salto, Flush subiu no sofá e se acomodou no lugar em que permaneceria para todo o sempre — sobre a manta aos pés da Senhorita Barrett.

Flush, Virginia Woolf

domingo, 14 de julho de 2013

O lobo e o carneiro

No livro das minhas vidas, Aleksandar Hemon cita os versos do poema épico sérvio A grinalda da montanha, de Petar Petrovic Njegos,  um mantra do nacionalismo cultural sérvio, ensinado nas salas de aula. Hemon descreve como, em versos repetidos de cor por crianças e adultos sérvios, o protagonista reconhece que o extermínio total dos muçulmanos é a única solução para preservar a liberdade e soberania do seu povo.  O lobo tem direito a um carneiro/ como um tirano a um homem fraco./ Mas para esmagar o pescoço da tirania/ Conduzi-la ao conhecimento virtuoso/ Esse é o dever mais sagrado de um homem.
No túmulo, flores brotarão/Para uma distante geração futura, dizem os versos.
Difícil destacar algum trecho deste livro que tenha me tocado -- quase tudo é tão violentamente genuíno, desencantado e sincero que, passando pelas páginas, volto por momentos a acreditar levemente na humanidade -- acreditar que é possível sobreviver e florescer em meio a um catástrofe dessas, e manter o caráter, e preservar o que há de único e precioso em nós mesmos em meio a uma realidade que desaba. Lembrei do Eating animals, do Jonathan Safran Froer, na parte em que sua avó, debilitada após fugir de um campo de concentração, recusou um pedaço de porco porque não era kosher. Mas você poderia ter literalmente morrido de fome, ele questionou, ao que ela se justificou: "Se nada mais importa, então não há nada que nos salve”.

O lobo tem direito a um carneiro, o tirano a um homem fraco. Continuo sem saber que gatilho exato esses versos, que li meio zonza antes de dormir, dispararam em mim, o que foi que me  fez pegar a caneta e escrever, letras rápidas e nervosas : A tua fome não te dá o direito de comer nada, nunca, nada. 

terça-feira, 19 de março de 2013

Quando vejo, já deslizo as mãos pela laminação em brilho da capa. Meus olhos param na imagem estampada - um still em p&b de um dos seus diretores preferidos, no livro de um dos seus autores preferidos. A estante de poesia me espera sugerindo vários comfort books para o dia – e eu me perco na imagem congelada, o retrato que algum dia irá prender os olhos dele também.
Você desiste fácil, você não se esforça – , minha mãe diz, é verdade, talvez eu não queira mesmo. Já não quero o café, já não quero o que vim comprar, já não quero mais nada. Melhorar. Para que, para quem. De que me serve isso, a quem serve?
Passam por mim como sumo de toranja por um passador roto – como diz Adília. Ficam memórias e memoriais aqui dentro – ruas, praças. Miradouros. Nomes e gostos. O perfume subitamente no travesseiro – resquício de um sonho, de um delírio. As saias e vestidos que lhe ficariam bem. As pessoas não se separam, as pessoas se abandonam, –  iz Sofia a Rímini. As pessoas num supermercado, experimentando, gostando e enjoando, devolvendo à prateleira.

sábado, 16 de março de 2013

amores tantálicos

*"Tantalia" é a história de um casal que decide comprar uma plantinha para conservá-la como símbolo do amor que os une. Percebem, tardiamente, que se a plantinha morrer, morrerá com ela o amor que os une. E como o amor que os une é imenso e por nenhum motivo estão dispostos a sacrificá-lo, decidem fazer a plantinha se perder entre uma multidão de plantas idênticas. Depois, ficam inconsoláveis, infelizes por saber que nunca mais poderão encontrá-la.

Bonsai, Alejandro Zambra


domingo, 18 de novembro de 2012

releituras

O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o quê, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

Ítalo Calvino, Cidades invisíveis

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Fisherman and his Soul

'Alas!' cried his Soul, 'I can find no place of entrance, so compassed about with love is this heart of thine.'
'Yet I would that I could help thee,' said the young Fisherman.
And as he spake there came a great cry of mourning from the sea, even the cry that men hear when one of the Sea-folk is dead. And the young Fisherman leapt up, and left his wattled house, and ran down to the shore. And the black waves came hurrying to the shore, bearing with them a burden that was whiter than silver. White as the surf it was, and like a flower it tossed on the waves. And the surf took it from the waves, and the foam took it from the surf, and the shore received it, and lying at his feet the young Fisherman saw the body of the little Mermaid. Dead at his feet it was lying.
(...)
The black sea came nearer, and the white foam moaned like a leper. With white claws of foam the sea grabbled at the shore. From the palace of the Sea-King came the cry of mourning again, and far out upon the sea the great Tritons blew hoarsely upon their horns.

'Flee away, said his Soul, 'for ever doth the sea come nigher, and if thou tarriest it will slay thee. Flee away, for I am afraid, seeing that thy heart is closed against me by reason of the greatness of thy love. Flee away to a place of safety. Surely thou wilt not send me without a heart into another world?'
(...)
And his Soul besought him to depart, but he would not, so great was his love. And the sea came nearer, and sought to cover him with its waves, and when he knew that the end was at hand he kissed with mad lips the cold lips of the Mermaid and the heart that was within him brake. And as through the fulness of his love his heart did break, the Soul found an entrance and entered in, and was one with him even as before. And the sea covered the young Fisherman with its waves.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

É um sonho dentro de outro sonho, plural nos particulares, único na substância. (...) continuando o sonho, pouco a pouco ou brutalmente, todas as vezes de forma diferente, tudo desmorona e se desfaz ao meu redor (...) Tudo agora tornou-se caos: estou só no centro de um nada turvo e cinzento. E, de repente, sei o que isso significa, e sei também que nada era verdadeiro fora do Lager. De resto eram férias breves, o engano dos sentidos, um sonho: a família, a natureza em flor, a casa. Agora esse sonho interno, o sonho de paz, terminou, e no sonho externo, que prossegue gélido, ouço ressoar uma voz, bastante conhecida; uma única palavra, não imperiosa, aliás breve e obediente. É o comando do amanhecer em Auschwitz, uma palavra estrangeira, temida e esperada: levantem, 'Wstavach'.
A trégua, Primo Levi

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Sofia diz

Ninguém se separa, Rímini. As pessoas se abandonam. Essa é a verdade, a verdade verdadeira. O amor pode até ser recíproco, mas o fim do amor não, nunca. Os siameses se separam. Mas não se separam, tampouco: porque sozinhos não conseguem. Um terceiro precisa separá-los: um cirurgião, que corta pelo meio o órgão ou o mesmo ou a membrana que os une com um bisturi e derrama sangue e na maioria das vezes, diga-se de passagem, mata, mata um deles, pelo menos, e condena o outro, o sobrevivente, a uma espécie de luto eterno, porque a parte do corpo pela qual estava unido ao outro fica sensibilizada e dói, dói sempre, e se encarrega de lembrá-lo, sempre, de que não está nem nunca vai estar completo, que isso que lhe tiraram nunca mais poderá ter de novo.

"O passado", Alan Pauls