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terça-feira, 7 de julho de 2015

Violetas



Além das palavras, dos sentidos, do chão, do céu, dos ais. Um tempo de maturação estranho – misterioso – até que um dia as feridas desabrocham quietas, deslizando em pétalas enrugadas, como se nada fosse, em flor. Rósea e tranquila, a violeta me encara alheia a tudo isso - inútil e real, como todos nós. Seiva sangrando viva, morrendo a cada lufada de oxigênio – mas inteira.

Penso em quantas vezes lhe neguei ajuda. Quantas vezes ela me disse que só eu a entenderia, que não aguentava mais o peso dos dias. E eu no início dizia que ia passar; depois deixei de acreditar – me afastei, sua dor me fazia mal. É difícil para mim perceber o quanto sou nociva – ela me escreveu uma vez. Releio seus e-mails. Eu não respondi. Porque era veneno que corria pelas suas palavras, quando ela agredia o mundo com sua dor, quando dizia que precisava de ajuda, senão…. era como uma flor carnívora; eu não me deixaria abocanhar pela ilusão de ser necessária – eu não me deixaria intoxicar.

As violetas não são tóxicas. Eu acho. Poderia colocá-las debaixo da língua e me deixar acalmar pela cor rósea, como um remédio sublingual. Qualquer um de nós já passou por isso: a tentação de ir para o nada, como ela ameaçou tantas vezes. Quando não se aguenta mais o peso do mundo.

Mas olho as violetas e, não. Resisto. Fecho os olhos e tento ser com a flor. No absurdo de abrir as pétalas apesar de tudo – nessa fé ingênua, e insistente, nessa (des)esperança louca.
De continuar florindo, apesar de tudo.

domingo, 30 de outubro de 2011

A rosa

A rosa que eu sempre quis – que vi nascer em meu peito, que vi se desmanchar fora de mim. A rosa. Desbota, lívida, perdendo cores num degradê contínuo quase até a palidez, quase irreconhecível. Quantas flores não perdem pétalas no outono, quantas folhas não caem, quantos não morrem a cada segundo – o que é a rosa seca perto disso tudo, o que é um só – uma só flor que julga se defender com espinhos inúteis – uma só, no meio disso tudo.
A rosa não é nada. Milhões morrem a cada segundo -- ela é só um número.
Mas eu lembro, e é só fechar os olhos e ela volta à memória, abrindo-se em multitons: malva, salmão, lilás, róseo cetim. Querendo voltar – numa esperança idiota, a única possível – querendo voltar, apesar de saber ser breve, inútil, sem sentido. Querendo e dizendo sim, apesar de tanto.
Para o meu alívio.

terça-feira, 31 de maio de 2011

over the rainbow


além das palavras, dos sentidos, do chão, do céu, dos ais. Um tempo de maturação estranho - misterioso - até que um dia as feridas desabrocham quietas, deslizando em pétalas enrugadas, como se nada fosse, em flor. Rósea e tranquila, me encara alheia a tudo isso - inútil e real, como todos nós. Seiva sangrando viva em cada caule, morrendo a cada lufada de oxigênio - mas inteira.

E fechar os olhos e tentar ser com a flor, no absurdo de abrir as pétalas apesar de tudo - nessa fé ingênua, e insistente, nessa (des)esperança louca.
E ser com a flor.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

lilly

Passeando pelas ruas à noite, os mendigos dormem, os carros deslizam lá longe, os tiros ecoam no morro, outros donos e seus cães sorriem, num passo mais rápido e já distante. Passeio em alerta - o balanço estático no parque assombra a noite, silencioso e escuro, enquanto ando sozinha. Crianças acenam na janela de um carro, gestos mudos de adeus a desconhecidos. A música nos bares se cala - eu deveria sorrir às crianças mas não sei como - o peito se fecha, tragando o cheiro de flores e fumaça para dentro.

[Espantada percebo a presença silente e atenta, observando, do canteiro, acompanhando todos os meus movimentos. ]

Pálida e sinuosa, ela treme com a brisa, frágil predadora. Seduzindo o vento, ela permanece à espreita -  e eu, presa, deixo-me atrair.  Porque é este o roteiro; porque nesse deixar-me ir encontro torpor e sossego. Porque tenho esse vício, esse gosto no abandono, essa pulsão - labiríntica - de entrega ao fado.

E então, num diálogo mudo e íntimo nós nos conhecemos - eu, ela e o vazio da noite, as ruas caladas e as lamparinas amarelas contra o azul escuro, sem estrelas.

Ela observa e espera, presa pela raiz à terra - espera que eu admita o que ela já sabe, o que está farta de saber - e de repetir, no mantra silencioso que é a sua dança branca na brisa noturna do verão. A noite, o parque em silêncio, as ruas vazias, todos já sabem, mas só ela espera, atenta. Pelo momento em que eu aceite o convite para essa dança onírica, pelo meu sim.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

delicadeza

Jacques Henri Lartigue "bibi in the daisies"

Domingo. O sol indo embora por trás da neblina, flashes de azul entre as nuvens – a água plácida do lago, os cabelos dela se diluindo no nado, na relva, no meu toque. Sua boca de terra, ervas e halls mentolado- esfrego o orégano nos dedos, a seiva arde na garganta. Fecho os olhos e inspiro, deixo pesar na terra o corpo, todo sujo de flores secas – deitada na relva observo o céu frio cada vez mais branco, céu e floresta na fusão da neblina. Elas ainda estão aqui, as flores. Pequenas, escondidas no bolso do casaco – abrindo-se plenas no teu quarto, estonteantes no seu odor de cemitério – tímidas e frouxas nos meus cadernos, marcando o dia. A data em que se desprenderam do buquê, pétalas queimadas e sem viço – no vidrinho, turkey bush e conhaque em gotas escuras, queimadas e sem viço – pernas flácidas e descoradas, rendendo-se como açúcar às formigas – desistindo em paz enquanto as gotas caem, graciosas, fundindo-se ao chão.