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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

can't grow a new heart


Para eles parece mais fácil. Mergulham no trabalho, compram carro/moto/bicicleta, relógios, sapatos. Tiram/deixam crescer a barba. Viajam com os amigos. Aumentam a frequência dos chopes com os meninos. Pegam uma, duas mulheres-pizza (expressão deles, claro). Passam 10 horas jogando GTA, ou vendo filmes no netflix. E esquecem. E enterram. E queimam. E depois de um mês parece que foi em outra vida. Vira pó.
Não é uma crítica. Se eu pudesse faria o mesmo. É o mais  lógico e objetivo a se fazer.

Mas não tenho como fugir do que sinto. Meu material de trabalho, infelizmente, sou eu - é o pulso que desliza a pena no papel, e para isso é preciso pulsar, sentir.  E não dá pra fabricar outro coração. Nem ignorar que esse aqui bate, torto, desafinado. Não se eu quiser criar.

sábado, 16 de março de 2013

Se eu pudesse ter um superpoder, não escolheria poder ler em ônibus, atravessar paredes, ser (in)visível.
Só queria saber esquecer. Apagar imagens, nomes, vozes. Cidades, ruas. O cheiro do interior das casas. Rostos e toques.
[Nomes, suas cores e o sabor que deixam na língua quando os lemos.]

domingo, 3 de março de 2013

Visível

Agora somos só dois nomes que se veem online.
Até que um dia o teu nome fique camuflado, inofensivo no meio dos outros.
Como aconteceu com outros nomes, como dizem que com o teu será. Como me ditam e eu repito, obediente: vai ficar tudo bem, porque sempre fica. Porque é como as coisas são, foram feitas pra serem.
E é só isso. E é só isso?

domingo, 16 de dezembro de 2012

Nunca


Ele abre a mochila e esvazia, uma a uma, as coisas que ela esqueceu: livros, cadernos, um chinelo; colares, uma saia, brincos. As coisas que ela deixou e ele guardou por hábito e por algum sentimentalismo e pudor que agora de nada lhe servem, já que ela não volta - ela disse que nunca, e nunca  era algo que ela sabia dizer. Então ele esvazia: uma a uma na estante e depois na gaveta e depois numa caixa e um dia num saco plástico do Pão de Açúcar, entre as garrafas para a reciclagem e o lixo orgânico que alimenta a garganta metálica da lixeira comum do andar do prédio.
Ela carrega a mochila e há tanta coisa ali dentro de que não precisa e já nem se lembra - ela não sabe ser leve, lhe dizem, não sabe ser. Ela abre a mochila e olha os livros, cadernos, o chapéu e tantas coisas. Cada objeto com sua cor única, mistura exata de tinta, poeira e desbotamento ao longo dos anos, e ela sente o desamparo das coisas esquecidas, e ela não consegue largar. Fecha novamente o zíper da mochila, não tem estômago para abandonar nada. Mil vezes o peso nas costas, mil vezes.

Eu misturo as histórias dela, com as minhas, com as deles e delas e as suas, e eu não consigo parar de sentir tudo o tempo todo, não consigo parar. Sonho com o delineador escorrendo no rosto vermelho dela, com as mãos trêmulas e os olhos vazios dele em frente ao iMac e acordo exausta e com dor em cada ponto do corpo. Como se tivesse levado uma surra. Como se tivessem me empurrado para o chão novamente - não lembro do tapa, só lembro da dor. Acordo e não quero nunca mais sonhar, nunca mais dormir.

domingo, 7 de outubro de 2012

Tirando a Nico, ninguém gosta de ser espelho de ninguém. Muito menos de ser um espelho a quem o outro deseja mal por não refletir a imagem correta -- a imagem dele. Qualquer afeto que se tenha vai murchando gradualmente, vai se distanciando, não por maldade ou mágoa, mas por proteção. E porque fica difícil dialogar com alguém que está sempre se procurando no que a gente faz, diz, escreve, vive -- que se ressente da nossa existência individual quando ela não está ligada a dele.
(Que não quer ver a gente, que só quer se ver na gente).
Se afastar gradualmente de alguém que assumidamente não quer o nosso bem não tem nada a ver com acordar um dia e deletar aquele a quem se jurou amor na noite anterior. A dor de quem fica pode ser comparável, claro -- qual não é?-- mas na responsabilidade, no contexto, em  todo o resto acho a comparação forçada, meio constrangedora até.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ele riu e puxou a fivela do cabelo dela, que despencou negro pelos ombros. Tocou de leve em seus dedos, deslizou e parou na palma da mão. Subiu do pulso aos ombros, alisando riscos rosados pelo caminho. Não perguntou por quê, o quê; com uma caneta, tatuou uma estrela no centro do pulso – a ponta porosa do hidrocor fez cócegas na pele dela. A tinta negra preenchia cortes falhas e depressões – os riscos viraram raios, e ela tentou sorrir e ele disse – o primeiro – que ela não estava sozinha.
...
Ele acordou e puxou o corpo dela para perto, até a boca roçar a nuca, e alisou seus cabelos dourados entre as flores do travesseiro. E sonolento lhe disse baixinho no ouvido que ela não estava sozinha – o último – que nunca mais estaria sozinha. Tão baixinho que era quase segredo, e ela ouvia desperta, com medo de ouvir o que não deveria. Com medo que fosse mentira, que fosse fugaz, ou que se fosse um dia. Tão baixinho que só ela ouvia.