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quinta-feira, 19 de maio de 2016

advice to the young and maniac...student

Se está cheio de ideias brilhantes, passe-as a escrito. Verifique a lista depois de estar estabilizado e decida quais as que fazem ainda sentido.


sábado, 30 de abril de 2016

escrever • mergulhar • respirar • submergir • nascer



"Por vezes sinto que não escrevo, que descrevo os esforços para escrever, os esforços para nascer" – Artaud

Se escrever é subir e tomar ar, então afundo no irrespirável. Assistimos a água invadindo os pulmões, sabendo que apenas um pequeno, um mínimo movimento, poderia nos trazer de volta ao oxigênio. No entanto quem é capaz, de verdade –  de se esvaziar do excesso de si e respirar o novo – ?
Vamos lá, quem é capaz, para além dos saraus e noites de lançamentos e grupos de facebooks e festas com álcool e solidão na volta pra casa a página em branco?
O fastio aprisiona. As palavras quebram as costelas, forçam a passagem, O corpo sobe, obrigado a tomar a ar. É assim que acontece. Não tem fórmula, técnica, musa, nem magia.

terça-feira, 29 de março de 2016

trama e não o desenlace

Desde os 12 que desejo outra coisa. Nem sabia o quê, só sabia que queria outra coisa diferente, romper com a narrativa linear traçada à minha frente geração por geração.
Só não fazia ideia de que romper com a narrativa linear não significava necessariamente CRIAR outra.

Contabilizando quedas, tropeços, pensando os 50 passos à frente e os 150 para trás como manobra de dança podemos dizer que em termos de desconstrução ao menos evoluí bastante.

Nem eu mesma consigo acreditar na quantidade de pessoas que já fui. E no entanto o que há de essencial e único é sempre o mesmo e isso é quase invisível e poucos têm acesso, quase ninguém consegue reter. Nem eu

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

2015

Uma grande montanha russa

Um ano de obstáculos inimaginavelmente dolorosos  – um ano de benções inesperadas.

Ano de muita luta contra a própria insegurança, de colher assustada os frutos de um trabalho de anos – desde daqueles anos pré-alfabetização em que contava histórias para o gravador, ao fascínio de conseguir entender o que aqueles símbolos do alfabeto diziam, à mágica de conseguir dizer o que queria com eles – até que eles se tornaram o primeiro e único porto seguro real. A única âncora nesse mundo de tsunamis. A terra firme, em qualquer areia movediça.

Ano de assumir o casamento com a escrita. De deixar para trás velhos conceitos, ideias que não cabem mais. Roupas também. 
E de conseguir navegar, apesar de tudo. Com um sorriso. 
Sem nunca perder a doçura,

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Outro dia me perguntava o que encontraria se pesquisasse a fundo a origem dessa relação com a escrita. E pensei que podia ser algo tão simples como a solidão -- se ela não fosse tão omnipresente desde tão cedo,  será que haveria espaço para essa relação, nestes moldes? Depois de horas sem a voz do Outro para reorganizar os pensamentos -- eles se diluem na atmosfera vazia e porosa ao meu redor. Depois de horas cedo e traço qualquer coisa no papel -- traço alguma estrutura.

Ou, contra o tédio, o êxtase:

"Por outro lado, a solidão actua também como um filtro. O que se escreve no dia seguinte é mais do que uma enumeração de impressões; durante a noite, o êxtase demarca-se do quotidiano pelos seus belos contornos prismáticos, forma uma espécie de figura e é mais facilmente rememorável. Diria que se contrai e assume a forma de uma flor.
Para nos aproximarmos dos mistérios da felicidade no êxtase teríamos de reflectir sobre o fio de Ariadne. Que prazer no simples acto de desenrolar um novelo! Um prazer que tem afinidades profundas, quer com o êxtase, quer com o da criação. Avançamos, mas, ao avançar, não só descobrimos os meandros da caverna em que nos aventurámos, como também desfrutamos dessa felicidade do descobridor apenas através daquela outra que consiste em desenrolar um novelo. Essa certeza que nos é dada pelo novelo engenhosamente enrolado que nós desenrolamos -- não será essa felicidade de toda a produtividade, pelo menos daquela que tem forma de prosa? E no haxixe somos seres de prosa e de prazer da mais alta potência."

Sobre o Haxixe e outras drogas, Walter Benjamin, trad. João Barrento

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Al Berto [11-01-1948 — 1997]



Eis a noite onde esqueço a vida e cismo sobre aquilo que ainda não sonhei. E aceito como único presságio a melancolia aérea das açucenas. aceito como único consolo a desolação imensa dos teus braços. aceito, aceito como único calor o da tâmara crescendo no deserto, aceito como único vício aquele cuja pele ainda não toquei. aceito como única noite a das searas do fundo do mar. aceito como única fala possível aquela que é susceptível de rasgar pulsos. aceito como único corpo aquele que não cresceu dos relógios do mundo. Aceito, aceito como único sonho aquele espelho onde te reflectes e me encontro. aceito a humildade de viver sozinho, a vergonha dos desejos insatisfeitos, a noite que me devora, aceito, aceito estas paredes, estes objetos, este sol, esta varanda, este mar, estes braços, estas mãos, este sexo, estes dedos, aceito, aceito, estes peixes de enxofre estatelados sobre a mesa, estas visões de catástrofe, estes sonhos premonitórios, estas luzes surgindo na pele, aceito, esta dor que me morde, esta escrita, este coração, estas doenças, estes cabelos, a escassez da fala, este silêncio cada dia maior e mais perturbador, aceito esta cadeira, este livro, este nome, estes olhos esmagados pela insónia, esta cama vazia, este frio, aceito, aceito, aceito esta janela, esta música de vísceras, esta faca, este sussurro, esta ausência, esta imagem desfocada, esta gravata adolescente, este sismo, este grito, estas coxas sujas de esperma, esta comida, estes cigarros, estes cadernos rabiscados que não servem para grande coisa, aceito, aceito a inutilidade de viver, de morrer, de estar aqui, de me deslocar, de permanecer, de fugir, de esperar, aceito, aceito a inutilidade de me reconhecer e de amar, a inutilidade dos dias, aceito, aceito o marulhar lodoso da alma, aceito não ter projetos nem querer construir uma pátria, aceito, aceito o vazio imenso das algibeiras, a dor das mãos percorrendo um corpo, aceito o caos e esta mosca que não encontra saída e morre no calor da lâmpada, aceito, aceito estes ossos, esta loucura que me assola lentamente, lentamente, aceito ficar louco, inconsciente, indefeso, aceito a tristeza que me ofereces, a pouca água que me é necessária, aceito, aceito nunca mais me lembrar de mim e viver pobre, aceito nunca mais te tocar nem acreditar em deus, aceito, aceito não possuir nada, não querer nada, aceito, aceito nunca mais aqui voltar, nunca mais.

Al Berto, "O medo"

quarta-feira, 24 de junho de 2015

The secret


Two girls discover
the secret of life
in a sudden line of
poetry.

I who don't know the
secret wrote
the line. They
told me

(through a third person)
they had found it
but not what it was
not even

what line it was. No doubt
by now, more than a week
later, they have forgotten
the secret,

the line, the name of
the poem. I love them
for finding what
I can't find,


and for loving me
for the line I wrote,
and for forgetting it
so that


a thousand times, till death
finds them, they may
discover it again, in other
lines

 in other
happenings. And for
wanting to know it,
for

assuming there is
such a secret, yes,
for that
most of all.


Denise Levertov

Fedro

O que há de estranho na escrita, Fedro, é sua semelhança com a pintura: as obras de um pintor estão diante de nós como se fossem seres vivos, mas se a interrogarmos guardam um majestoso silêncio. O mesmo acontece com as palavras escritas: parecem
inteligentes /.../, mas se as questionamos /.../
continuam repetindo a mesma coisa para sempre.


Platão

Por que não me canso disso? Cada frase que escrevo rasga mais um arranhão na minha pele. Cada palavra subtraída, uma ferida que abre, sangrando feroz. Escrevo, reescrevo, risco e rabisco num círculo vicioso e interminável. Todos os dias penso que não é necessário, que já está bom - para no dia seguinte chorar de vergonha, de tanta imperfeição. Não sei porque essa ânsia continua, e mais uma vez isolo-me ansiosa pelo momento de prazer, eu o papel e a caneta, eu e esse eu que pulsa e que desconheço e que me obriga a prosseguir. Não, a escrita nem sempre é arte nem refúgio; às vezes é automutilação.

leitura-fusão

não quero a crítica, não quero a análise. quero a leitura-encontro.o sol batendo no rosto, o vento vivendo nas faces, nas frases. quero leitura e releitura, a vivência, o toque das palavras, cores e sabores. não quero entender o poema - quero estar nele, ser com ele, ser ele e outra coisa e eu e nós e muito mais, infinitamente. Leitura-encontro- fusão de sujeitos, colisão de partículas em versos e entrelinhas, pertença mútua, a imanência que mescla corpo, espírito, palavra.
Quero muito?

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Aniversários

Lembro de um aniversário – tinha acabado de chegar a Lisboa – e ainda não tinha amigos. Só a Raquelzinha. Eu comprei um bolo pequeno, acendi uma velinha – fiz um pedido sozinha na minha cama. Depois joguei o bolo fora. Naquela época eu ainda não comia.
Hoje o dia começou bem. Acordei a tempo para a aula e conversei com a professora, que gostou do meu projeto. Cheguei a casa e escrevi mais e mais para o outro trabalho, tentando justificar a mim mesma que é essa a história que precisa ser contada, que não tenho como fugir. Depois adormeci espontaneamente; acordei com a Odete me pedindo comida, me pedindo para sair.
Cuidei da pequena. Saímos na chuva e, na volta, fiz comida para ela – acabou a ração. Voltei para o computador para adiantar o freela. E as horas foram passando.
Não é o primeiro aniversário que passo sozinha. Também não é o primeiro em que não sinto que deva comemorar. Há tanta coisa que tenho feito errado. Tanta coisa que tenho me esforçado mas que, simplesmente, não consigo fazer. Se a intenção é o que conta, já deveria ter saído dessa roda de samsara – mas pelo jeito o resultado é mais importante que o esforço. Mas eu não me importo.
Seco as lágrimas. Sei que vai ficar tudo bem. Nem que minha vida seja apenas um quarto solitário e muitas histórias para escrever, eu vou ficar bem. Se conseguir cumprir as tarefas diárias, não desapontar mais ninguém e ainda escrever, o que mais posso pedir da vida? Amor?

Ora, nem todo mundo nasceu pra ser alto, loiro, gordo ou magro. Nem todo mundo nasceu pra ser amado também. É como as coisas são – não vale a pena se revoltar e brigar por achar que se merece alguma coisa. É pura perda de tempo e energia.

Prefiro escrever. Alimento o papel com meu pulso e ele me alimenta de volta, preenchendo o coração. Deve haver mais do que isso, claro. Crianças, amigos, amantes, cachorros. Mas o papel e as palavras, por ora, são o bálsamo que enche de ternura qualquer ponto doído do coração.

primeira estória

A menina tinha 9 anos, um laço amarelo na trança e a tarde inteira para brincar sozinha. Fechada no quarto, a tv sem som jogava luz  ora azul, ora verde nas paredes, no seu rosto, nos seus dedos. Ela tinha jeito para a escrita, diziam na escola; embora na verdade seu maior talento fosse o de brincar em silêncio, sem dar trabalho, despercebida. Nunca poderia tocar um instrumento, por exemplo. Ou dançar. Ou fazer natação. Não comandava direito as pernas e muito menos os cabelos, naquele cacheado frisado sem fim, sempre caindo das presilhas.
A verdade é que não gostava de fazer muita coisa: só ficar pensando, arrumando os brinquedos, desenhando coisas. Não sabia ainda que era errado. Não sabia que era esquisito.

Naquela tarde depois da escola ela chegou no quarto, ligou a tv sempre muda, fechou a porta. Deitada na cama, abriu o caderno com gula e desenhou as palavras com a mesma calma com que arrumara as barbies na casa de bonecas, alinhando uma a uma atenta, colocando cada qual no mais harmonioso, no mais perfeito lugar. No seu devido lugar. Terminou a tarefa tranquila, jantou com os pais, assistiu novela na sala, foi se deitar e dormir, mal sabendo. Ela mal sabia. E quando acordou, lógico:

A boneca morena trazia o vestido da loira, que estava sentada na penteadeira da ruiva, que ia acenando na porta com o Ken da morena, (a primeira). A moranguinho, que fazia de filha, roubava o berço de uma mirrada Pinypon. No minúsculo batente nem sinal do pequeno poney, só havia espaço para o gatinho do Littlest Pet Shop. Ela olhava o cenário e nem sabia por onde começar a arrumar tudo de novo -- e para quê-- e por quê?

*É fácil falar, se exibir, sorrir para a foto. Mas e o depois?  No duro, quem segura as ideias depois que elas são soltas da cabeça para o mundo? Quem segura cada uma que penteamos, lustramos, nomeamos e não reconhecemos no dia seguinte? Quem alinha a fila de palavras que escorregam dóceis pelo pulso e parecem amanhecer com fome, roendo o papel, furando os olhos de quem lê?

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Sono e escrita

não importa o que se beba, o que se tome, o que se fume, ele não vem. Só quando quer. Quando amanhece e o dia já está quente entre os lençóis. Quando as pálpebras pesam e o há sabor metálico preso na garganta. Aí ele me domina – músculos em contração, enrolados estáticos no edredon, corpo que não se quer mexer, que se prende quieto como que para prendê-lo – qualquer movimento pode quebrar a magia, romper a barreira  flutuante que protege a esfera encantada do sono de todo o resto – do concreto e insípido, do real.
Ele só vem quando quer, e tudo que eu quero é tê-lo, retê-lo em mim, e ser nele - mergulhar no sem som do fundo dos olhos. Onde dizem que é vazio – porque não há dor, ou euforia? onde o vazio pulsa – calado e vivo, inquieto, ideal. 

domingo, 29 de março de 2015

Aquelas histórias clássicas de pessoas trancadas em casas e igrejas que pegam fogo, caves e subsolos que inundam. Você sente a fumaça, o cheiro, o pânico, não sabe quando será -- só sabe que não irá demorar muito. Você sabe que não há para quem rezar, para onde fugir nem pelo que esperar. Você concentra todo o seu ser na tarefa de conseguir passar pelo momento das chamas queimando a pele, das ondas encharcando o pulmão. Você não tem fuga e só pensa em como pode fazer para suportar o momento, sabendo que depois só há o abismo -- não há nada depois.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Corpo da escrita

Talvez não possa falar do trauma porque esse exige um período de latência. Talvez possa falar de choque. Das fissuras que abre, que inscreve no fluxo narrativo. Das fendas, quedas e saltos, que se recortam na travessia tensa da leitura. Do silêncio, da recusa em dar nome e forma ao que se sente e não tem nome -- deixando o que se sente contaminar, letra por letra, o papel, a pele, o corpo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cidade que aperto, batendo as asas - ela

Nunca tinha me acontecido, mas há sempre uma primeira vez: sonhei com um poema. Não meu, obviamente. Sonhei que lia Herberto Helder, e o poema falava de flores e cidades. Acho que o poema que eu lia não existia. Ainda. Mas este aqui  fala de tudo isso e muito, muito mais do que o meu inconsciente sequer poderia abarcar.

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.


Herberto Helder

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Celan Style

A chuva corta a vidraça, cai abrupta pelo quarto – estico as costas no porcelanato frio, costela a costela chocando-se com o chão. Tentar reter a chuva aqui. Seu ruído constante pontilhando cores dentro de nós. Die Farben fahren, navegam o corpo, tingindo as veias, percorrendo o universo pálido da pele. Queimam em tons pastéis. Concentro-me na chuva – a sensação escapa com as gotas que saltam para o chão, magoando o rosto sem dó, magoando, negligente. Escorrendo escuras como as palavras, que afagam como lâminas, suaves e cegas sobre o papel.

domingo, 19 de outubro de 2014

meu pai II

Minha avó vomitava tudo o que comia; duvido que conseguisse amamentar o filho. Até hoje ela vomita – com Alzheimer, ficou claro para as acompanhantes o momento em que ela come e força o vômito, já que não pode ir ao banheiro de porta fechada pelo risco de cair. Minha avó, com 90 anos, um dia acordou e resolveu capinar o quintal – foi apanhada pela enfermeira de madrugada, com uma tesoura enorme enferrujada cortando a grama, como sempre fez.
Até hoje meu pai ama o cheiro do mar. Sonha com cruzeiros e passeios de barco - sua comida preferida é arroz de polvo, peixe grelhado, mariscos. Desde sempre foi ele quem me levou à praia. Minha mãe não aguenta a combinação sol-areia-água salgada, que faz os meus olhos e os dele brilharem.
Meu pai quase não vai à praia; anda muito de bicicleta até a a orla, vê o mar e volta, satisfeito. Adora as gaivotas e os pássaros da Lagoa.
Quando eu era mais nova, em Lisboa, ele me explicou: quando as gaivotas fazem muito barulho e vêm para a terra é sinal de tempestade no mar.
Sempre que posso vou à praia. Minha casa é cheia de conchas, de todas as formas, cores e cheias de fissuras e quebras- minhas preferidas. Gosto de pintá-las com tinta perolada ou esmalte madrepérola. Gosto de mostrar pelas cores o quão são preciosas.

Meu pai

Meu pai chegou ao Brasil com menos de um ano. A viagem durou nove dias; nove longos dias em que a minha avó, apertada na cabine de terceira classe com um bebê no colo, enjoava a cada vez que olhava o mar. Uma vez ela descia as escadas para a cabine e quase desmaiou – o bebê escapuliu dos seus braços, e se não fosse uma moça ao lado que o segurou, ele não estaria aqui.
Eu não estaria aqui.