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sexta-feira, 5 de junho de 2015

O que temos pra hoje


Vinte minutos caminhando com a pequena até o parCão = 5 minutos andando e quinze restantes carregando Odete no colo, com a língua já torta com tanto calor. Penso que não deveria ter trazido ela, que sou uma péssima mãe/dona, que as suas patinhas devem estar queimadas pelo sol – puxo sua cabecinha para o meu peito e corro com seus 4 quilos no colo, enquanto as pessoas sorriem da overdose de ternura na ciclovia da Lagoa.
Enquanto as pessoas riem.
Riam dele, com certeza. Ririam menos se já o conhecessem – um maluco "local" e mapeado sempre impõe respeito. Hoje o dia fez sol e calor e o feriado encheu a Cobal de pais e mães jovens cnchendo a cara enquanto os filhos brincavam com bolhas de sabão. Sim. Um senhor vendia um porco falante que cantava apitava e soltava bolinhas de sabão a uma velocidade assustadora – arco-íris de bolas de diversos tamanhos se formavam enquanto as crianças guerreavam apontando porcos e atirando bolhas e gritos umas contra as outras. Até que passei por ele.
Ali, sentado no chão. Sozinho e em silêncio.
Desde pequena coleciono "malucos". Entre aspas mesmo, vários, e não sei ao certo se são/foram nada disso. Em qualquer lugar do mundo descubro logo os loucos locais: anoto mentalmente seus hábitos e spots preferidos, fico em pânico quando um deles desaparece. O loirinho que pedia esmolas na linha de Cascais; o P. Tomé, que ouvia música nos fones e cantava alto incomodando todos os outros passageiros. Até hoje procuro pelo senhor que morava no prédio ao meu lado, bebia bohemia de manhã com os mendigos e às vezes dormia com eles na rua – eles continuam ali, firmes fortes e sempre os mesmos, e meu coração ainda vacila quando lembro que ele não está.  Mas esse que estava na Cobal: desse sei o nome e endereço, nunca me preocupou de verdade – ele é seguido por um hospital, trabalha numa cooperativa, enfim, é alguém com casa, comida, produção e algum acolhimento na sociedade. Mas hoje.
Hoje as crianças guerreavam com bolhas de sabão e ele não via. E as crianças não o viam ali, sentado no chão sozinho, olhos e dedos traçando desenhos num caderno, alheio ao de fora.
Disfarcei e tentei observar o desenho, formas disformes, mas não tive coragem de me aproximar e elogiar. Seria como quebrar uma mágica. Eu deveria sentar e ler e esperar até ele terminar o desenho, e só depois me aproximar e dizer que era bonito e que gostava muito. Dele. Do que ele desenhava. Dizer que estava feliz por vê-lo inteiro no meio da guerra, peito aberto desenhando com dedos e coração e sem se deixar esmagar.
[Dizer que o admirava porque eu não conseguia. Não naquela tarde.]
Acordei e o sol era tanto que nublava a vista. Abutres rondavam a lagoa em busca de sabe-se lá o que quando saí de casa, já com esse aperto no peito. O telefone tocando, eu atendo, o silêncio responde. A tv que não sei ligar. Meu corpo, que me afasta no espelho.  O cabelo cada vez mais loiro sem que eu faça ideia de como. As horas passando e eu sem conseguir visitá-lo no hospital, sem coragem para ligar para o outro lado do Atlântico. Eu desmarcando dates por perceber que no fundo só quero um abraço.
Já estive tantas vezes sentada nesse chão alheia ao mundo escrevendo. Agora que meu corpo tem formas, ficou mais difícil escrever em lugares públicos. Sempre olhares gulosos e comentários que me fazem sentir uma pin up sem a menor pretensão. Só me fazem chorar à noite e sonhar pela invisiblidade novamente. Ou por uma admiração/ aproximação que veja mais do que curvas ou a ausência delas. Talvez nunca haja, minha analista diz. Abafo minha escrita debaixo do travesseiro. Como se gritasse debaixo dágua. Talvez os peixes possam entender.
E esse aperto no peito. Tanto, que fiz como as crianças – comprei um máquina de fazer bolas de sabão. Quando fica insuportável, atiro – a boca do dinossauro rosa se abre numa luz pulsante, golfando bolas e bolinhas fluidas ao som de uma canção ridiculamente estridente.
É o que temos para hoje. É o que está nas nossas mãos nestes dias.

Hazy, hazy days, you know?