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sábado, 30 de abril de 2016

escrever • mergulhar • respirar • submergir • nascer



"Por vezes sinto que não escrevo, que descrevo os esforços para escrever, os esforços para nascer" – Artaud

Se escrever é subir e tomar ar, então afundo no irrespirável. Assistimos a água invadindo os pulmões, sabendo que apenas um pequeno, um mínimo movimento, poderia nos trazer de volta ao oxigênio. No entanto quem é capaz, de verdade –  de se esvaziar do excesso de si e respirar o novo – ?
Vamos lá, quem é capaz, para além dos saraus e noites de lançamentos e grupos de facebooks e festas com álcool e solidão na volta pra casa a página em branco?
O fastio aprisiona. As palavras quebram as costelas, forçam a passagem, O corpo sobe, obrigado a tomar a ar. É assim que acontece. Não tem fórmula, técnica, musa, nem magia.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

2015

Uma grande montanha russa

Um ano de obstáculos inimaginavelmente dolorosos  – um ano de benções inesperadas.

Ano de muita luta contra a própria insegurança, de colher assustada os frutos de um trabalho de anos – desde daqueles anos pré-alfabetização em que contava histórias para o gravador, ao fascínio de conseguir entender o que aqueles símbolos do alfabeto diziam, à mágica de conseguir dizer o que queria com eles – até que eles se tornaram o primeiro e único porto seguro real. A única âncora nesse mundo de tsunamis. A terra firme, em qualquer areia movediça.

Ano de assumir o casamento com a escrita. De deixar para trás velhos conceitos, ideias que não cabem mais. Roupas também. 
E de conseguir navegar, apesar de tudo. Com um sorriso. 
Sem nunca perder a doçura,

terça-feira, 10 de novembro de 2015

lilás


Na primavera, os campos estavam sempre cobertos de girassóis, enormes e assustadores - suas pétalas douradas como olhos abertos para o céu azul. Caminhávamos em meio às flores, eu insistia, afinal, durava pouco - no verão o amarelo ouro enegrecia em cadáveres ressequidos, enevoados de abelhas, mariposas adormecidas espreitando nosso passo por baixo da terra. O que também durava pouco. Em poucos meses vinha o outono e as pequenas flores lilazes despontavam à nossa volta, em todos os canteiros, jardins, parques -  até, no inverno, colorirem de roxo a montanha inteira, encobrindo a vista do mar, estonteando quem ousasse com o seu cheiro. Quem ousaria? No início eu colhia algumas, espalhando o cheiro pela casa, em chás, perfumando banhos longos e intermináveis em que a flor se fundia em água, vapor e óleo, se colando à pele. Mais tarde, só o roçar dos dedos nas pétalas pequenas já bastava - e só aproximar os lábios das flores já era  mergulhar na substância de matizes lilazes, sentindo o gosto do gozo, retendo-o em mim - expansão e continência. Quem ousaria ? E quem ousaria dizer não? 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

toska

Nabokov, sobre a intraduzível toska.
Dar nome aos bois sempre ajuda - ainda que seja em russo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Sinking in the past| The things that shouldn't last | Just put to bed and | stand beside me

Come pick me up
Take me out
Fuck me up
Steal my records
Screw all my friends
They're all full of shit
With a smile on your face
And then do it again

I wish you would

domingo, 21 de junho de 2015

I rest my case

– O que houve, Cristina? Você parecia tão alegre na festa de ontem, que cara é essa?
– Uma amiga mãe, com quem eu não tinha contato há uns dois anos. Matou-se. Não tinha nem trinta anos...
– Mas você só arruma amiga doida, heim...
–....

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Aniversários

Lembro de um aniversário – tinha acabado de chegar a Lisboa – e ainda não tinha amigos. Só a Raquelzinha. Eu comprei um bolo pequeno, acendi uma velinha – fiz um pedido sozinha na minha cama. Depois joguei o bolo fora. Naquela época eu ainda não comia.
Hoje o dia começou bem. Acordei a tempo para a aula e conversei com a professora, que gostou do meu projeto. Cheguei a casa e escrevi mais e mais para o outro trabalho, tentando justificar a mim mesma que é essa a história que precisa ser contada, que não tenho como fugir. Depois adormeci espontaneamente; acordei com a Odete me pedindo comida, me pedindo para sair.
Cuidei da pequena. Saímos na chuva e, na volta, fiz comida para ela – acabou a ração. Voltei para o computador para adiantar o freela. E as horas foram passando.
Não é o primeiro aniversário que passo sozinha. Também não é o primeiro em que não sinto que deva comemorar. Há tanta coisa que tenho feito errado. Tanta coisa que tenho me esforçado mas que, simplesmente, não consigo fazer. Se a intenção é o que conta, já deveria ter saído dessa roda de samsara – mas pelo jeito o resultado é mais importante que o esforço. Mas eu não me importo.
Seco as lágrimas. Sei que vai ficar tudo bem. Nem que minha vida seja apenas um quarto solitário e muitas histórias para escrever, eu vou ficar bem. Se conseguir cumprir as tarefas diárias, não desapontar mais ninguém e ainda escrever, o que mais posso pedir da vida? Amor?

Ora, nem todo mundo nasceu pra ser alto, loiro, gordo ou magro. Nem todo mundo nasceu pra ser amado também. É como as coisas são – não vale a pena se revoltar e brigar por achar que se merece alguma coisa. É pura perda de tempo e energia.

Prefiro escrever. Alimento o papel com meu pulso e ele me alimenta de volta, preenchendo o coração. Deve haver mais do que isso, claro. Crianças, amigos, amantes, cachorros. Mas o papel e as palavras, por ora, são o bálsamo que enche de ternura qualquer ponto doído do coração.

Versinkende Sonne - Noturno 2

Versinkende Sonne, Egon Schiele
You call this painting just a sunset…. Looking at this work, however, one would have to say, with all the appropriate melancholy, that the sun is sinking. It’s already grown dark and cold in the foreground, and every leaf on the twigs has grown stiff from the cold. And before such a deeply melancholic sky, which no artist before Schiele ever painted in such a way, I am even moved to ask: will this sun, which is just departing, ever return?”  -- Rudolf Leopold


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mais alento do que na Bíblia

O mal está apenas guardando lugar para o bem. O mundo supura é só a olhos impiros. Deus está fazendo coisas fabulosas.

(Tutaméia, Guimarães Rosa)

Na falta de um Messias, as palavras <3

O que temos pra hoje


Vinte minutos caminhando com a pequena até o parCão = 5 minutos andando e quinze restantes carregando Odete no colo, com a língua já torta com tanto calor. Penso que não deveria ter trazido ela, que sou uma péssima mãe/dona, que as suas patinhas devem estar queimadas pelo sol – puxo sua cabecinha para o meu peito e corro com seus 4 quilos no colo, enquanto as pessoas sorriem da overdose de ternura na ciclovia da Lagoa.
Enquanto as pessoas riem.
Riam dele, com certeza. Ririam menos se já o conhecessem – um maluco "local" e mapeado sempre impõe respeito. Hoje o dia fez sol e calor e o feriado encheu a Cobal de pais e mães jovens cnchendo a cara enquanto os filhos brincavam com bolhas de sabão. Sim. Um senhor vendia um porco falante que cantava apitava e soltava bolinhas de sabão a uma velocidade assustadora – arco-íris de bolas de diversos tamanhos se formavam enquanto as crianças guerreavam apontando porcos e atirando bolhas e gritos umas contra as outras. Até que passei por ele.
Ali, sentado no chão. Sozinho e em silêncio.
Desde pequena coleciono "malucos". Entre aspas mesmo, vários, e não sei ao certo se são/foram nada disso. Em qualquer lugar do mundo descubro logo os loucos locais: anoto mentalmente seus hábitos e spots preferidos, fico em pânico quando um deles desaparece. O loirinho que pedia esmolas na linha de Cascais; o P. Tomé, que ouvia música nos fones e cantava alto incomodando todos os outros passageiros. Até hoje procuro pelo senhor que morava no prédio ao meu lado, bebia bohemia de manhã com os mendigos e às vezes dormia com eles na rua – eles continuam ali, firmes fortes e sempre os mesmos, e meu coração ainda vacila quando lembro que ele não está.  Mas esse que estava na Cobal: desse sei o nome e endereço, nunca me preocupou de verdade – ele é seguido por um hospital, trabalha numa cooperativa, enfim, é alguém com casa, comida, produção e algum acolhimento na sociedade. Mas hoje.
Hoje as crianças guerreavam com bolhas de sabão e ele não via. E as crianças não o viam ali, sentado no chão sozinho, olhos e dedos traçando desenhos num caderno, alheio ao de fora.
Disfarcei e tentei observar o desenho, formas disformes, mas não tive coragem de me aproximar e elogiar. Seria como quebrar uma mágica. Eu deveria sentar e ler e esperar até ele terminar o desenho, e só depois me aproximar e dizer que era bonito e que gostava muito. Dele. Do que ele desenhava. Dizer que estava feliz por vê-lo inteiro no meio da guerra, peito aberto desenhando com dedos e coração e sem se deixar esmagar.
[Dizer que o admirava porque eu não conseguia. Não naquela tarde.]
Acordei e o sol era tanto que nublava a vista. Abutres rondavam a lagoa em busca de sabe-se lá o que quando saí de casa, já com esse aperto no peito. O telefone tocando, eu atendo, o silêncio responde. A tv que não sei ligar. Meu corpo, que me afasta no espelho.  O cabelo cada vez mais loiro sem que eu faça ideia de como. As horas passando e eu sem conseguir visitá-lo no hospital, sem coragem para ligar para o outro lado do Atlântico. Eu desmarcando dates por perceber que no fundo só quero um abraço.
Já estive tantas vezes sentada nesse chão alheia ao mundo escrevendo. Agora que meu corpo tem formas, ficou mais difícil escrever em lugares públicos. Sempre olhares gulosos e comentários que me fazem sentir uma pin up sem a menor pretensão. Só me fazem chorar à noite e sonhar pela invisiblidade novamente. Ou por uma admiração/ aproximação que veja mais do que curvas ou a ausência delas. Talvez nunca haja, minha analista diz. Abafo minha escrita debaixo do travesseiro. Como se gritasse debaixo dágua. Talvez os peixes possam entender.
E esse aperto no peito. Tanto, que fiz como as crianças – comprei um máquina de fazer bolas de sabão. Quando fica insuportável, atiro – a boca do dinossauro rosa se abre numa luz pulsante, golfando bolas e bolinhas fluidas ao som de uma canção ridiculamente estridente.
É o que temos para hoje. É o que está nas nossas mãos nestes dias.

Hazy, hazy days, you know?



quarta-feira, 6 de maio de 2015

Fotograma

Deitada no sofá, o poema na cabeça. As palavras formam de repente imagens, desenhando em fúria estradas, estações e placas com nomes de cidades longínquas. Flashes de cores estouram, num por do sol em rosa néon, laranja, malva: a luz ferindo os olhos em ruas queimando de frio, a neve enlameando as botas. Cidades de nomes com novas cores: Bratislava. Sarajevo. Vilnius. Países novos de remendos antigos; cicatrizes altas, rosadas e doídas como as minhas. Arrepiando-se ao toque. Fendas e feridas como mapas íntimos – a geografia em braile, não decifrável com os olhos.

Deitada no sofá, insisto: quero o que meus olhos não veem. As cores que desbotam, os cheiros que nos assaltam em novas esquinas, as paredes ruídas, esfarelando-se. No umbral de ir e ficar, no umbral de viver ou não, para que. No ir além do que não se sabe, do que se constrói a cada sentir.

domingo, 29 de março de 2015

Aquelas histórias clássicas de pessoas trancadas em casas e igrejas que pegam fogo, caves e subsolos que inundam. Você sente a fumaça, o cheiro, o pânico, não sabe quando será -- só sabe que não irá demorar muito. Você sabe que não há para quem rezar, para onde fugir nem pelo que esperar. Você concentra todo o seu ser na tarefa de conseguir passar pelo momento das chamas queimando a pele, das ondas encharcando o pulmão. Você não tem fuga e só pensa em como pode fazer para suportar o momento, sabendo que depois só há o abismo -- não há nada depois.

Zeit ist Raum | Zeit ist Traum | Zeit ist Trauma




DIE WEISSE FÜRSTIN

Du liebe kleine Schwester, sei nicht bange;

bedenke, das ist alles unser Traum;

da kann das Kurze lang sein, und das Lange

ist ohne Ende. Und die Zeit ist Raum.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Corpo da escrita

Talvez não possa falar do trauma porque esse exige um período de latência. Talvez possa falar de choque. Das fissuras que abre, que inscreve no fluxo narrativo. Das fendas, quedas e saltos, que se recortam na travessia tensa da leitura. Do silêncio, da recusa em dar nome e forma ao que se sente e não tem nome -- deixando o que se sente contaminar, letra por letra, o papel, a pele, o corpo.

head vs heart


Acordava e a cabeça dizia pelo menos

À noite, deitava e o coração suspirava tanto faz

sábado, 21 de fevereiro de 2015

I am myself - that's not enough

Todos os dias a manhã me acorda. O sol entra pelas persianas e agride meus olhos. Durmo mais um pouco – durmo até descansar da insônia habitual da noite anterior. E penso que poderia dormir para sempre, se Deus permitisse. Se eu tomasse uma cartela de fenergan, o que aconteceria?
Nada. Dormiria por dois dias. Se fosse final de semana e eu dissesse aos meus pais que estava viajando, ninguém nem iria notar.
Os remédios são muito seguros hoje em dia. E eu não curto nada ilícito – nada que me faça sair de mim e perder o controle. Não vejo graça numa viagem interior para abrir novas portas da percepção mental. As que conheço já são suficientemente assustadoras.
Algumas são bonitas também – mas essas só vejo em alguns sonhos, quando escrevo, no olhar que quem me ama me devolve.
Olhar que não vejo há, sei lá, tantos anos?
Não há saída a não ser ficar. Ficar e engolir o desespero. Produzir, produzir para pagar algumas contas, manter a casa limpa e não precisar da intervenção de ninguém. Ao menos essa dignidade.

(E nunca mais cair na besteira de me abrir com alguém).
Porque foi quando tudo começou. A vida inteira fiz piada da minha dor – todos riam. Um dia as piadas perderam a graça. E lá fui eu, procurar tratamento. E para quê?
A verdade é que recuperação real não existe. A gente se recupera para que? O mundo continua doente como sempre foi. O único jeito de enfrentá-lo é usando táticas secretas.
Cada um tem a sua. Seja compulsão por trabalho, álcool, drogas, alienação em livros, séries, novela, filhos. Eu tinha a minha – cedi porque a pressão foi demais.
E agora estou sem meus poderes mágicos. E aqui, sozinha, sem emprego, sem os meus dois melhores amigos de sempre, com um monte de memórias para apagar e uma página em branco enorme para escrever. Nem sei por onde começar.
Tudo o que eu queria é que tivesse sido comigo, e não com ele. A doença. Seria tudo mais fácil para todos. Para mim. É duro vê-lo tão fraco. Trocaria de lugar com ele em um segundo. O mundo funcionaria muito melhor. O mundo continuaria funcionando. Como continua funcionando, se eu dormir dois, três, quinze dias.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Celan Style

A chuva corta a vidraça, cai abrupta pelo quarto – estico as costas no porcelanato frio, costela a costela chocando-se com o chão. Tentar reter a chuva aqui. Seu ruído constante pontilhando cores dentro de nós. Die Farben fahren, navegam o corpo, tingindo as veias, percorrendo o universo pálido da pele. Queimam em tons pastéis. Concentro-me na chuva – a sensação escapa com as gotas que saltam para o chão, magoando o rosto sem dó, magoando, negligente. Escorrendo escuras como as palavras, que afagam como lâminas, suaves e cegas sobre o papel.

domingo, 19 de outubro de 2014

meu pai III

Hoje em dia é mais fácil dizer eu te amo – e ouvir um eu te amo de volta. A doença traz cura também. Inunda o coração de amor. E te faz repriorizar tudo – quais são as lágrimas que verdadeiramente importam. Qual é a dor que você pode dispensar. E o quanto a vida é preciosa, com todas as suas limitações e os seus nãos.
A dor dos outros, eu poderia citar Susan Sontag, mas não quero academicismos nesse momento.

Quero o que sinto. E o que sinto, ao saber da doença e dor dele, é que dói estupidamente em todos nós. Não há teorias que expliquem nada: me toca – minha pele se arrepia do susto de estar aqui.
Do susto e da alegria louca de poder estar aqui.  Do nada me vem uma profunda gratidão por viver e poder crescer e ajudar e lutar para deixar um contributo. Algo de palpável, de real. De meu.
Nem que seja "só" amor.