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sábado, 3 de junho de 2017

Resumo

There’s nothing to be gained by remaining locked inside yourself, but not much is happening around you either.

domingo, 24 de abril de 2016

Whatever works –- a arte da evasão


Não foi fácil adormecer ontem; uma dor de cabeça resistente a 1000 mgs de paracetamol e 300 ml de gin pressionava têmporas e fundo dos olhos há 5 horas. Eu sabia quantas porque depois de oito já poderia repetir os remédios. Ele perguntava por que eu estava assim e eu sabia que nenhuma resposta era socialmente válida além do estresse relativo a uma (im)provável estabilidade financeira futura e a dissertação a ser parida. Uma semana pelo menos que o senhor que não troca o suéter, o que dorme no estacionamento em frente à futura creche, sumiu. Uma semana que não o vejo nem lá, nem na hora do almoço comprando quentinha no largo, nem à tarde distribuindo milho para os pombos. Foi-se.

Nenhum carro de serviço social passou pela rua – os outros continuam aqui.

Há uns três anos foi assim com ele também. Um dia do nada perdi o seu rastro, e nunca. Nunca mais apareceu. Poderia ter sido internado – era um vizinho meu, dormia nas ruas por puro alcoolismo. Mas depois de seis meses sem notícias? Depois de um ano? Dois?
Uma semana. Procuro todos os dias pelos seus sinais – há sete dias que não encontro nenhum toco de cigarro perto do canto que ele arruma para dormir.

Qualquer um pode desaparecer assim.  Quem é que vai reclamar  – e com quem? Nem as pombas que ele alimentava diariamente parecem sentir falta. Antigamente tínhamos que abrir espaço para andar entre elas, quando, sentado no paralelepípedo, ele distribuía milho; agora aquela esquina está limpa, como disse o segurança, a dona daquele outro cachorro e as palavras ecoando na minha cabeça. Limpa.
I know I should be totally clean, but well, (..). Don't worry bae, whatvr works now
Pergunto-me se é assim que parece a ausência do que incomoda mas no fundo nem vemos: the coast is clear. Um alívio. Também perdi o rastro do meu desaparecimento. Se começou em fevereiro, com o acidente. Em março, com a ansiedade social e a depressão. Ou no final de março com isso mais o resto e a inabilidade para gerir tudo e a vontade de imobilidade e invisibilidade, natural num bicho ferido. Perdi o início. Não acompanho mais o desenvolvimento. Assisto distante, apenas comento algumas fases. Estamos in bloom.

A raiz do tubérculo é perito na arte da evasão para o interior. Por que?
a) melhor sair do interior egoico doído para um grande cosmos sem sensação e personalidade.
b) nada como um grande exercício de economia de recursos pessoais devido ao esgotamento

Iremos voltar algum dia? Provavelmente. A que preço, não sei.
O que irá acontecer quando se romper o lacre de silêncio e imobilidade que costura pele, pulso, sonhos, riscos, rascunhos no retiro dessa cave escura?
Quem não é visto não é lembrado, e isso é para ser lido literalmente.
Será que ainda haverá espaço no mundo?
Quantas semanas até esquecerem totalmente? Quanto tempo até a gente realmente se apagar e ir?


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Big bang


Ando na rua olhando para o chão de pedras portuguesas quando duas senhoras rindo me fazem voltar a cabeça para elas e depois para o céu – no azul, a dança atômica das aves que se unem e separam em grandes cardumes rasgando as ondas de ar quente do fim da tarde. Havia um fenômeno qualquer com esse nome – uma vez ele me explicou – já esqueci, percebo com um sorriso. Já não me lembro. A grata surpresa de de repente se pegar esquecendo. Os pássaros o sol o céu o azul e as senhoras dançam em meu peito num equilíbrio perfeito, num segundo frágil em que tudo se encaixa  antes de desmoronar para o caos natural e sem sentido em que vivem as coisas. Num segundo mínimo de um piscar de olhos – cílios com cílios disparando o big bang do universo fruto de uma mente em repouso e o pulso insistente do peito.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013


Naquele lugar, era sempre inverno. Na sala de espera, o aquecedor não dava conta das adolescentes trêmulas, muito menos dos ressacados. Eles gemiam e resmungavam, à espera da  metadona. A tv pequena rangia com o vento, a imagem se perdendo em chuviscos. Cumprimentos tímidos no corredor, os  rostos vazios de todas as semanas. Os mesmos rostos cinzentos.

Um cigarro do lado de fora, mãos geladas me passam o isqueiro. Por debaixo da manga adivinho as marcas no pulso, chamam meu nome e eu desvio os olhos. Entro na primeira sala, as enfermeiras observam-me tirar o casaco, subir na balança. Saio rapidamente, elas me fazem voltar.

Tiro as calças e a blusa, subo novamente.Tiro as meias, as enfermeiras cochicham lá no fundo, não vejo. O sutiã também? Tudo bem. Tiro a roupa, e tudo se apaga num branco sem fim.

Na outra sala ele me espera, o sorriso estático de sempre. E eu respondo a tudo, dócil, alerta, obediente. Quantas horas de sono, quantos quilos, quanta fome, quanta libido – ele anota tudo. Deve saber do que preciso. As mãos grossas rabiscam papéis, preenchem espaços, completam fichas – estou de preto e pareço mais frágil, novos nomes surgem na receita. Doses mais altas. Agradeço a atenção, indiferente. Na saída a Patrícia espera a sua vez, cada dia mais alheia. Parece serena – ela não usa cinto, as calças caem. Eu uso cintos, vários, e faço novos furos à medida que é preciso. Mas eu vivo sozinha, não faz mal, ninguém vê.

Lá fora os pais da Patrícia a esperam. Da porta de vidro observo o casal idoso e vejo em minha mente os cabelos loiros da Teresa atrás deles -  aqueles cabelos descoloridos, o cheiro abaunilhado a angel no seu abraço, e a sua pele rósea na minha, e eu imagino - e meu coração salta mas logo retorna à realidade do seu ritmo lento - não, eu estou sozinha, não há ninguém. Só eu, o cigarro e os plátanos do velho hospital, folhas amarelecendo com o outono. Folhas caindo.

Uma vez chamaram o meu nome e era outra a doutora. Era nova. Ela leu alguma coisa nas fichas, enquanto eu roía as unhas do outro lado da mesa. Ela parou de ler e me olhou nos olhos, com um ar descrente. Me examinou de cima a baixo e parou nos olhos, e ela perguntou por quê.

E ela me disse: Você se acha especial por ser doente?

Não, você não é especial.