Mostrando postagens com marcador depressão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador depressão. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Sinking in the past| The things that shouldn't last | Just put to bed and | stand beside me

Come pick me up
Take me out
Fuck me up
Steal my records
Screw all my friends
They're all full of shit
With a smile on your face
And then do it again

I wish you would

terça-feira, 7 de julho de 2015

Violetas



Além das palavras, dos sentidos, do chão, do céu, dos ais. Um tempo de maturação estranho – misterioso – até que um dia as feridas desabrocham quietas, deslizando em pétalas enrugadas, como se nada fosse, em flor. Rósea e tranquila, a violeta me encara alheia a tudo isso - inútil e real, como todos nós. Seiva sangrando viva, morrendo a cada lufada de oxigênio – mas inteira.

Penso em quantas vezes lhe neguei ajuda. Quantas vezes ela me disse que só eu a entenderia, que não aguentava mais o peso dos dias. E eu no início dizia que ia passar; depois deixei de acreditar – me afastei, sua dor me fazia mal. É difícil para mim perceber o quanto sou nociva – ela me escreveu uma vez. Releio seus e-mails. Eu não respondi. Porque era veneno que corria pelas suas palavras, quando ela agredia o mundo com sua dor, quando dizia que precisava de ajuda, senão…. era como uma flor carnívora; eu não me deixaria abocanhar pela ilusão de ser necessária – eu não me deixaria intoxicar.

As violetas não são tóxicas. Eu acho. Poderia colocá-las debaixo da língua e me deixar acalmar pela cor rósea, como um remédio sublingual. Qualquer um de nós já passou por isso: a tentação de ir para o nada, como ela ameaçou tantas vezes. Quando não se aguenta mais o peso do mundo.

Mas olho as violetas e, não. Resisto. Fecho os olhos e tento ser com a flor. No absurdo de abrir as pétalas apesar de tudo – nessa fé ingênua, e insistente, nessa (des)esperança louca.
De continuar florindo, apesar de tudo.

domingo, 21 de junho de 2015

I rest my case

– O que houve, Cristina? Você parecia tão alegre na festa de ontem, que cara é essa?
– Uma amiga mãe, com quem eu não tinha contato há uns dois anos. Matou-se. Não tinha nem trinta anos...
– Mas você só arruma amiga doida, heim...
–....

sexta-feira, 27 de março de 2015

O mais fiel


Das primeiras vezes o medo, o pânico palpável no frio do estômago, o nó nos pulsos – ele vem e me invade, esmaga, esvazia – tudo sai do lugar, as coisas caem ao chão e desabam como eu, sem ar. Como onda ele vem e vai, ele sempre volta. Como onda que quebra, tragando tudo para um ventre vórtice aquático, cuspindo na costa o que não lhe interessa: seixos, meu corpo e outros restos de naufrágio – o que sobrou?

Das primeiras vezes o terror do Tsunami, o horizonte de águas escuras engolindo o mundo, o medo para além de qualquer fé. Até que um dia, habituada ao escuro, ficou mais claro o movimento das marés: a correnteza tranquila sabe o momento exato, e aguarda, atenta – como o olhar fixo dele, como o de mais ninguém. A banhista na praia reluta em crer, disfarça, se diverte contando barquinhos no horizonte, estrelas do mar – eu resisto, até que distraída me pego olhando para o espelho das águas, ajeitando a mecha de cabelo na orelha nua, sem brincos, oferenda inteira pra ele. Ele que sempre volta: o mais fiel, aquele que insiste e persiste, como o mar quebrando na costa destruída.

Ele aquele que resiste, que me invade, que me ocupa quando não há mais porquê estar em mim – quando não há som nem luz e todos já desistiram, quando todos já foram embora. Depois do mergulho forçado levanto lentamente, limpo as algas do corpo doído, procuro na areia o que a sua fome poupou.

E encontro. Pequenas conchas num branco de opala, madrepérola suave cheia de curvas em cores pastéis tatuadas, o brilho da água nas pedras. E encontro, sempre.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013


Naquele lugar, era sempre inverno. Na sala de espera, o aquecedor não dava conta das adolescentes trêmulas, muito menos dos ressacados. Eles gemiam e resmungavam, à espera da  metadona. A tv pequena rangia com o vento, a imagem se perdendo em chuviscos. Cumprimentos tímidos no corredor, os  rostos vazios de todas as semanas. Os mesmos rostos cinzentos.

Um cigarro do lado de fora, mãos geladas me passam o isqueiro. Por debaixo da manga adivinho as marcas no pulso, chamam meu nome e eu desvio os olhos. Entro na primeira sala, as enfermeiras observam-me tirar o casaco, subir na balança. Saio rapidamente, elas me fazem voltar.

Tiro as calças e a blusa, subo novamente.Tiro as meias, as enfermeiras cochicham lá no fundo, não vejo. O sutiã também? Tudo bem. Tiro a roupa, e tudo se apaga num branco sem fim.

Na outra sala ele me espera, o sorriso estático de sempre. E eu respondo a tudo, dócil, alerta, obediente. Quantas horas de sono, quantos quilos, quanta fome, quanta libido – ele anota tudo. Deve saber do que preciso. As mãos grossas rabiscam papéis, preenchem espaços, completam fichas – estou de preto e pareço mais frágil, novos nomes surgem na receita. Doses mais altas. Agradeço a atenção, indiferente. Na saída a Patrícia espera a sua vez, cada dia mais alheia. Parece serena – ela não usa cinto, as calças caem. Eu uso cintos, vários, e faço novos furos à medida que é preciso. Mas eu vivo sozinha, não faz mal, ninguém vê.

Lá fora os pais da Patrícia a esperam. Da porta de vidro observo o casal idoso e vejo em minha mente os cabelos loiros da Teresa atrás deles -  aqueles cabelos descoloridos, o cheiro abaunilhado a angel no seu abraço, e a sua pele rósea na minha, e eu imagino - e meu coração salta mas logo retorna à realidade do seu ritmo lento - não, eu estou sozinha, não há ninguém. Só eu, o cigarro e os plátanos do velho hospital, folhas amarelecendo com o outono. Folhas caindo.

Uma vez chamaram o meu nome e era outra a doutora. Era nova. Ela leu alguma coisa nas fichas, enquanto eu roía as unhas do outro lado da mesa. Ela parou de ler e me olhou nos olhos, com um ar descrente. Me examinou de cima a baixo e parou nos olhos, e ela perguntou por quê.

E ela me disse: Você se acha especial por ser doente?

Não, você não é especial.