Mostrando postagens com marcador crueldade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crueldade. Mostrar todas as postagens

sábado, 15 de setembro de 2012

Closer


O arrependimento e a culpa são castigos suficientes, claro, ou seriam se fôssemos todos reais: pele, pelos arrepiando-se, corpo e alma movendo-se com as emoções. Mas não somos. Ou não sou, e eles não são. Fremd. Ou ausländer, o que não é o mesmo - a diferença entre vir de fora e ser, intrinsecamente, fora

Nos relatos do ex-oficial da SS, o arrependimento soa à princípio insuportável, um gosto metálico de remédio amargando na boca o resto da vida. Mas não. O arrependimento, ali, não tem a ver com o exercício da crueldade. O arrependimento é o de ter escolhido o caminho errado - o destino menos promissor. De não ter cumprido as ordens certas do superior/ ou de ter cumprido ordens cegamente, sem questionamento. A dor não está em ter sido capaz de tanta atrocidade, mas de ter fraquejado, de ter entrado por um caminho desviante, arriscado, que resultou mau. Não de roubar, mas de ter sido apanhado. 

A pessoa, obviamente, não consegue se conceber como cruel. Não tem essa cicatriz no espelho, porque exercer a violência, aqui, não resulta em trauma. Não há uma ruptura na identidade (como na daquele que sofre), e a pessoa não sente necessidade de reintegrar as fases partidas da sua existência. Não é preciso; há um desligamento total da violência - o "agressor" não se acha cruel porque o seu prazer não está no ato de crueldade, mas em outra coisa qualquer - seja no gosto arriscado pelo desvio, como no caso do cleptomaníaco, seja na obediência cega a uma estrutura externa, como no oficial que aplica tortura, no terrorista que leva, ao pé da letra, as palavras dos profetas.

Mas não seria esse desapego, esse desligamento, a maior crueldade possível - nem que seja com relação a si mesmo?
"O que os olhos não veem, o coração não sente" diz o ditado, mas desde quando o coração de quem mente está a salvo?