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segunda-feira, 15 de junho de 2015

primeira estória

A menina tinha 9 anos, um laço amarelo na trança e a tarde inteira para brincar sozinha. Fechada no quarto, a tv sem som jogava luz  ora azul, ora verde nas paredes, no seu rosto, nos seus dedos. Ela tinha jeito para a escrita, diziam na escola; embora na verdade seu maior talento fosse o de brincar em silêncio, sem dar trabalho, despercebida. Nunca poderia tocar um instrumento, por exemplo. Ou dançar. Ou fazer natação. Não comandava direito as pernas e muito menos os cabelos, naquele cacheado frisado sem fim, sempre caindo das presilhas.
A verdade é que não gostava de fazer muita coisa: só ficar pensando, arrumando os brinquedos, desenhando coisas. Não sabia ainda que era errado. Não sabia que era esquisito.

Naquela tarde depois da escola ela chegou no quarto, ligou a tv sempre muda, fechou a porta. Deitada na cama, abriu o caderno com gula e desenhou as palavras com a mesma calma com que arrumara as barbies na casa de bonecas, alinhando uma a uma atenta, colocando cada qual no mais harmonioso, no mais perfeito lugar. No seu devido lugar. Terminou a tarefa tranquila, jantou com os pais, assistiu novela na sala, foi se deitar e dormir, mal sabendo. Ela mal sabia. E quando acordou, lógico:

A boneca morena trazia o vestido da loira, que estava sentada na penteadeira da ruiva, que ia acenando na porta com o Ken da morena, (a primeira). A moranguinho, que fazia de filha, roubava o berço de uma mirrada Pinypon. No minúsculo batente nem sinal do pequeno poney, só havia espaço para o gatinho do Littlest Pet Shop. Ela olhava o cenário e nem sabia por onde começar a arrumar tudo de novo -- e para quê-- e por quê?

*É fácil falar, se exibir, sorrir para a foto. Mas e o depois?  No duro, quem segura as ideias depois que elas são soltas da cabeça para o mundo? Quem segura cada uma que penteamos, lustramos, nomeamos e não reconhecemos no dia seguinte? Quem alinha a fila de palavras que escorregam dóceis pelo pulso e parecem amanhecer com fome, roendo o papel, furando os olhos de quem lê?

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Qualquer lugar

M. atravessa a rua no caminho para a faculdade. Passa pelo vendedor de velharias, que improvisa a vitrine no banco verde da praça. Desvia os olhos instintivamente, evitando o cumprimento por hábito, e para – uma figura numa moldura dourada furta sua atenção. Ela se aproxima, passo a passo, pé após pé, devagarinho – na gravura de bordas desgastadas, os traços rígidos vermelhos subindo e descendo. Ela fecha os olhos:...

...as raízes de uma árvore. mechas de cabelo. ondas de eletrocardiograma. 10 reais. O vendedor não sabia a origem, não sabia o nome do quadro, não sabia o que era a imagem. Podia vir de qualquer lugar.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Como incomodar sem ninguém dar por isso

Ela percorre os corredores da casa deles. Seus dedos deslizam pelo papel de parede metálico, em pequenas figuras geométricas que se repetem, num caminho esguio do rodapé à parede. Caminha para a sala, forrada de quadros e tapeçarias douradas – os espelhos biselados, refletindo um mundo contido, refinado, exquisito.
Ela desliza com cuidado pelo chão, admirando e temendo tudo. Sujando tudo de areia. Porque ela vinha do deserto, lá onde não havia essas coisas. Havia era muita areia, que grudava na pele e tinha como natureza própria se esfarelar ao longo do dia, indiferente ao sinteco marchetado do chão que a gente pisava. Se existe algo como uma verdadeira natureza das coisas, ela achava que era isso -- ser-se indiferente ao que se pisa.
Na sala sozinha ela espera por eles,quieta, intimidada pelas flores. O arranjo no aparador distinto, madeira negra nobre em art nouveau. Vermelhas não: encarnadas, o miolo amarelo pulsante e precioso, como a agulha da roca da história de fadas, só à espera do toque. As pétalas, um veludo que se desmancha nos dedos, acarinha a língua. Mas são de tecido. As flores.
As flores não respiram -- ela percebe, agoniada, não sabe o que fazer. Nas paredes, moças de olhos em bico e cachos revoltos parecem saltar para fora das molduras, zombando da sua confusão. Olhos rasgados, cabelos negros, lenços e brincos longos balançando e zombando. Ela quer quebrar o jarro e libertar as flores. Acordá-las do seu sono tecido. Mas antes que eles cheguem.
Eles não iriam aprovar. Não iriam entender. Diriam sim, ok, tudo bem – mas nunca iam sentir.
A jarra, as flores de enfeite, as moças nos quadros. Tudo era importante, ela não podia. Quebrar. Sujar de areia.

Ela desliza de volta pelo corredor, pé após pé, devagar para não fazer barulho. Lembra do deserto: longas distâncias de muita sede e paisagens abissais, em cores pastéis que desbotam ao calor do sol. Poucas flores que nascem em cactos, que nascem reais. Tão vivas que se retraem quando sentem a ponta dos nossos dedos. Tão vivas. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Metades

(... ) E ele pensava como ela era adorável, ela cabia perfeitamente no seu mundo. Mas ela não queria completá-lo, mais do que a metade confortável da maçã, ela queria ser como um poema, comovê-lo,  movê-lo.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ele não consegue dormir com a claridade; Ela não suporta o escuro. Ela se esconde debaixo do edredom. Ele e suas mãos de molusco escorregam e a alcançam, plugam, ele pega. Vou te prender (ela ouve ali dentro uma voz do passado, quando aquele corpo quente em cima do seu sem espaço para o ar)  me prende, ela responde com os olhos no passado, sem dizer. Dedos, pés, mãos como gelo úmido, ela desliza devagarinho para o lado, contendo a respiração -- contando os minutos até o primeiro ressonar, sinal de que ele caiu no sono. Assim, devagar, ela arrasta o corpo para fora do edredom, as pernas para fora da cama até os pés ganharem a liberdade do chão frio -- está escuro e ela não encontra a porta a não ser tateando e esbarrando em paredes, mas se ele a visse ela seria apenas um semivulto, personagem de sonho, nunca ela mesma, poderia negar e negar sempre. Da porta ela percebe que ele ainda ressona. Contente com o que tem, satisfeito, saciado de sono - e ela, sempre essa fome. Mas agora não vai à geladeira, ela evita a cozinha, o banheiro e se abriga em outro quarto -- a cama de solteiro mínima onde caberiam os dois, ela e ele que não existe, que não insiste -- que se contenta em ficar longe, ler à distância. O que é mais do que muito. Estrelas no céu, ele dorme e ela lê sozinha, na claridade que a acolhe, flutuando por essas linhas de ficção (pura perda de tempo, ele diz) por essas linhas portais que se abrem num fundo falso para o qual despencamos deliciosamente em cada múltipla leitura. Essas linhas corpo quente que a prendem sem porquês, pura avidez e vontade, que -- ficcional que seja -- é o que dá sentido a esse real incompreensível, a essa torrente de nada e de nada, a esse irreal incompreensível pelo qual passamos diariamente, é o corpo quente que segura, que joga luzes nesse embrulho escuro do nada que nos envolve -- e ela, que como qualquer um ( como ela) só sonha com as luzes, as letras, as palavras claras e as mãos que prendem olhos nos olhos, inteiras, sem jogos, sem medo.

domingo, 2 de junho de 2013

A mecânica das coisas

Ele se aproxima, se encanta, eu cedo, ele cansa. A mecânica das coisas. Calo o que vejo, o que sinto -- ninguém tem tempo/disponibilidade para ver além. Fico só, mas inteira. Ou sorrio e ninguém me chateia.

terça-feira, 28 de maio de 2013

(...)
Ela tinha insônias, dormia em 2 turnos de 3 horas.  Levantava na meia-escuridão e ia na cozinha, beber água;  via a tv ligada no corujão na janela do vizinho; ia no banheiro; voltava para cama com frio. Ele adormecia em 10 minutos, mas tinha pesadelos.

Nos sonhos, o corpo do menino inflava como um balão e ia subindo, subindo, se desprendendo da cama, atravessando o teto, o cimo das casas, percorrendo do alto as ruas. Era bom por cinco segundos até que de repente perdia o controle, despencava. A queda era o pior – longos segundos caindo até o baque do corpo na cama o  acordar. Ela ouvia a bateria do coração dele, e nunca sabia se devia acordá-lo ou não. Até que ele despertava sozinho, virava para o lado, sorria tranquilo.

Às vezes, quando o menino tinha pesadelos, acordava a meio da noite, sentava na escrivaninha, pegava papel e caneta, erva. Fumava, rabiscava e riscava rostos de monstros, heróis, bichos. Meninos de camisa listrada, meninas de saia balonê.  Alguns desenhos não ficavam perfeitos, e ele riscava tudo – primeiro o rosto, depois o resto – e recomeçava o traço numa página nova. De manhã, ela perguntava quem eram eles – qual era a história deles. Ele sabia os nomes (que escrevia por baixo, em legendas), mas não sabia mais nada. Às vezes, inventava.

Mas ela descobria rápido:  o coração dele batia bem mais forte quando mentia.

domingo, 26 de maio de 2013

brancas e azuis

São 3 da manhã e o sono não vem. 3 e meia e é o meu terceiro frontal, a chuva cai e o sono não vem. No quarto só o som da respiração - o bebê dorme, aninhado entre os travesseiros, no berço improvisado no meio da cama. Já Ele ressona, baixinho. Penso mais uma vez em jogar tudo para o alto, ir embora - um templo, um convento, um lugar onde minha ocupação principal seja agradar a Deus. Porque é impossível agradar as pessoas. Por que você não pára e faz um pouquinho do que quer? -- a terapeuta joga, com os ombros relaxados e a expressão interessada padrão dos especialistas em atendimento ao cliente, e eu desligo como deslizaria o auscultador no gancho numa ligação de telemarketing, assim: desligo, apago, fecho os olhos e acordo no elevador e agora aqui no quarto entre a penteadeira e o criado mudo, enquanto eles dormem e eu não. O bebê e ele, num sono profundo. Repito a pergunta da psicóloga e ensaio variadas formas delicadas de encaixar as palavras na resposta, mas o facto é que não sei mais o que me agrada além do sono, dos vários tipos de sono com os vários tipos de substâncias com as quais ganho intimidade a cada noite; pra ter o que me agrada me esforço no esforço e nas palavras e as frases escorrem da boca ( e vejo que a combinação funciona  e até que enfim agrado à terapeuta), o que significa que ela continuará com o olhar interessado o suficiente para me passar novas receitas brancas e azuis -- o que significa que, mesmo no desagrado, agrado e consigo algo que agrada. O que não deixa de ser um consolo.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Top 10 dias felizes

Você nunca poderia imaginar, mas aqueles foram os dois dias mais felizes de que me lembro. Os dois dias mais felizes. Nós dois no bar com o nosso garçom, você me ouvindo e olhando como ninguém até então - você me lendo eu te lendo e nós dois, só os dedos enlaçados, a chuva inundando a rua e a tv no fundo com um atentado qualquer. Tão facilmente feliz como quando ganhei o Mick: quando senti o cheirinho de filhote e a barriguinha rosa do meu primeiro cachorro. Quando a irmã Fernanda me ensinou a rezar o terço, e eu passei o dedo pelas contas cor-de-rosa, pelas pérolas nos pai-nossos. Quando comprei o À sombra das raparigas em flor e deixei passar a estação e parei na última, só para continuar lendo -- ou quando o Guga, com dois anos, veio tropeçando e sorrindo, só pra me dar um abraço. Compete de igual para igual. Você nem poderia imaginar, eu nunca poderia te dizer. Aquela noite em que você percebeu e me tirou o cardápio, desviou minha atenção e ia me dando colheradas, me enganando -- ou aquele dia na água, sal e areia na boca e a tua pele quente na minha fria. Páreo duro com aquela viagem ao Alentejo, cerveja a metro, planícies de estrelas sem fim -- ou aquela vez em que ela encheu a casa de post-its fofos dizendo que me amava. Você não poderia, você não pode, não está ao seu alcance, e é só isso que tenho ao meu alcance: esses dias. As memórias desses dias. Que parecem de outras pessoas. De estranhos. Nós dois somos estranhos. Se você soubesse diria. como todos. que isso é desproporcional, que não pode ter sido tão bom, não é possível. Não é possível, lógico. Só é possível porque meus parâmetros são baixos, meus amigos diriam. Ou porque o que é pouco pra você pra mim é muito. Ou porque eu não esperava mais nada depois de tudo que se passou, e o pouco que me davam era tão raro e precioso - era tudo. Você não poderia nem imaginar quanto mais entender, você agora é mais um estranho, como tantos - invisível no gtalk para mim. Nunca esqueço o cheirinho de filhote da Odete. Até hoje ela tem a barriguinha rosa. E eu ainda tenho aquele terço com as pérolas da Irmã Fernanda. E ainda sei rezar. Embora já tenham passado mais de 20 anos. Acredita?

sábado, 2 de março de 2013

Mergulho 2

A princípio só queria molhar os pés, mas a água morna me surpreende, os dedos dos pés relaxam e se esticam enterrados na areia. Sento na vala que se forma entre um banco de areia e outro, uma pequena piscina cálida onde crianças brincam com pás e baldes, deslizo e me deito para banhar o corpo na espuma. A água cobrindo a pele na temperatura ideal, como na banheira de louça do apartamento – os dedos enrugados e o vapor velando o espelho – pequenos bolos de cabelo castanho no chão de pastilhas brancas. Levanto e caminho alguns passos, vem aí uma onda: mergulho furando a curva antes da crista, no preciso local seguro em que me ensinaram – afundo no verde escuro e submergindo inteira, a água quase fria como um tapa de adstringente refrescando a face.

É tudo tão brilhante em volta que não consigo conter a ternura, olho para o lado – o sol beija a água dourando a superfície plana e tranquila como uma piscina, dobrando os joelhos me abaixo como uma criança, acarinhando a espuma brilhante. Mas aí vem outra onda, maior: calculo rápido a distância, mas não há tempo para correr. É então que cometo o erro: viro de costas e corro – a onda quebra exatamente nos meus ombros e caio, rolando como concha num embate árido entre pele, sal, cabelos e areia, rolando até ser devolvida para a costa como um seixo rígido.

Durante segundos após o nocaute permaneço assim, deitada de barriga pra cima, as nuvens altas e o céu azul claro absorvendo o olhar, a testa entupida de água, o sal na boca. Lentamente volto a sentir os braços, os músculos doídos do embate, a pele da bunda queimada do atrito, as pernas raladas. Lentamente levanto. Passo pela piscina das crianças, entre os bancos de areia. Ensaio mais um, dois passos. E aí vem mais uma onda. Não tenho tempo para virar de costas – a onda vem como um soco no queixo e me derruba mais uma vez, caio rodopiando como um novelo por segundos intermináveis até o corpo parar, e a água retornar ao mar. Viro o corpo pra cima; o céu é um quadrado azul.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012


Feliz Natal o quê -- pensou Isa, calando o telefone no gancho -- se você não tem nada a ver com essa mulher que sobreviveu. Se você não tem nada a ver. 

domingo, 25 de novembro de 2012

No sonho vivíamos perto da praia. Perto de uma falésia de onde as pessoas se atiravam. Toda a semana. Pelo menos um ou dois por mês. Aquilo se tornou um passatempo: passeávamos na beira d'àgua à procura dos corpos que davam à costa - tocávamos fascinados a pele fria azulada e examinávamos os olhos baços, revirados. No branco dos olhos era possível ler, ficava tudo gravado: tudo o que tinham visto e sentido nos momentos finais. Um dia em que não havia afogados, eu peguei na mão dele e pedi. Disse - olha nos meus olhos e descobre o que aconteceu -, você não consegue ler?

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

M.

A moça na cama ao lado era Manu - as enfermeiras falavam de uma Manu, o que condizia com a correntinha com o M dourado no seu pescoço. Quando ela acordou melhor, os olhos finalmente passeando por todos e por mim e questionando o entorno, quando ela pareceu acordar, me aproximei e perguntei baixinho seu nome - para todos os efeitos eu não sabia. Manu tossia a noite toda - de três em três horas recomeçava o dueto entre os uivos do cão pastor que guardava o prédio e os chiados agudos do seu peito. Que parecia sempre cheio de água -- sua tosse era algo entre catarro e bile negra, eu imaginava um molusco no lugar dos seus pulmões - uma lula úmida, pesada e gosmenta, que a cada contração do arfar soltava água em vez de ar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Fisherman and his Soul

'Alas!' cried his Soul, 'I can find no place of entrance, so compassed about with love is this heart of thine.'
'Yet I would that I could help thee,' said the young Fisherman.
And as he spake there came a great cry of mourning from the sea, even the cry that men hear when one of the Sea-folk is dead. And the young Fisherman leapt up, and left his wattled house, and ran down to the shore. And the black waves came hurrying to the shore, bearing with them a burden that was whiter than silver. White as the surf it was, and like a flower it tossed on the waves. And the surf took it from the waves, and the foam took it from the surf, and the shore received it, and lying at his feet the young Fisherman saw the body of the little Mermaid. Dead at his feet it was lying.
(...)
The black sea came nearer, and the white foam moaned like a leper. With white claws of foam the sea grabbled at the shore. From the palace of the Sea-King came the cry of mourning again, and far out upon the sea the great Tritons blew hoarsely upon their horns.

'Flee away, said his Soul, 'for ever doth the sea come nigher, and if thou tarriest it will slay thee. Flee away, for I am afraid, seeing that thy heart is closed against me by reason of the greatness of thy love. Flee away to a place of safety. Surely thou wilt not send me without a heart into another world?'
(...)
And his Soul besought him to depart, but he would not, so great was his love. And the sea came nearer, and sought to cover him with its waves, and when he knew that the end was at hand he kissed with mad lips the cold lips of the Mermaid and the heart that was within him brake. And as through the fulness of his love his heart did break, the Soul found an entrance and entered in, and was one with him even as before. And the sea covered the young Fisherman with its waves.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Ela estacionou o carro e abrimos o vidro para soprar a fumaça (as pessoas ainda fumavam)  o tapa de ar gelado contraindo os músculos do meu rosto. Eu disse esse frio está indo além do normal, mesmo para janeiro   e ela concordou, janeiro é o mês mais frio, é natural. E eu disse parece que vai nevar   tás parva, em Lisboa não neva. Ela deu aquele meio sorriso só com um lado do rosto, o voltado para o carona, não para a janela. De neve ela entendia.
Ela terminou o cigarro com a lenta teatralidade habitual, esmagou delicadamente a bituca junto das anteriores no cinzeiro. Saímos   bati a porta do carro e a segui como habitualmente pelo estacionamento. De repente aquela sensação de suspensão no ar: pequenos flocos de gelo começam a descer do céu, flutuando lentos até ganharem velocidade e peso na hora de pousarem no chão. Ela disse como é possível? e eu calei o meu não falei?. Calei meio alegre meio frustrada com a vitória  entre outras coisas no meio, coisas que só fui entender depois.

Ontem ao abrir a janela o frio também fechou meu rosto. Os dedos do lado de fora do vidro passaram do branco ao lilás ao roxo, e eu sabia que não era possível (podia ouvir a voz dela dizendo tás parva). Mas era a mesma sensação de suspensão na atmosfera, a mesma temperatura baixa enregelante de segundos antes de quando os flocos começam a cair pelo chão.

domingo, 23 de setembro de 2012


Na última fuga ele teve a visão de um rosto pálido de porcelana e lábios rosa-chá, anéis doirados em dedos de dígitos mínimos como filigranas, brilhando e entretecendo-se sobre a sua pele.
O grupo parou no meio de uma terra árida, quente de dia, arrastada por ventos gélidos ao por do sol. Na areia avermelhada levantaram tendas, acenderam lumes; ao redor do fogo mulheres-crianças choravam,  bebês mamavam mamilos murchos, meninos corriam, atirando pedras uns aos outros. Velhos e velhas encolhiam-se próximos do fogo, aquecendo o corpo com tisanas de ervas colhidas há dias. Sem fome, sem sono, ele se afasta do grupo e caminha para longe.
Na paisagem vazia, quase extraterrena, sua silhueta interrompia o beijo entre o céu de estrelas e a terra escura.
Ele não sabe de quem é essa pele de begônias, pétalas aveludadas abrindo-se em seda fina sobre as palmas das mãos. Esses lábios leves pedindo a língua, a saliva despertando os órgãos, seiva amanhecendo frutos. Não sabe em que cidade foi, em que aldeia deixada para trás. Mas aquele rosto inscreve-se na memória, como os de cada um dos soldados que derrubava durante a guerra -- no entanto menos fantasma e mais carne, mais leal.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Cheiro de jasmim e magnólia, delírio floral, indica a embalagem do ambientador ligado na tomada. O aroma se espalha desde o batente da porta até o corredor, um hall estreito e acarpetado que se abre para uma sala pequena, com uma porta de vidro para a varanda. Era uma saleta de formato quadrado, que parecia ainda menor e acolhedora à meia luz do fim de tarde. A parede de frente para a entrada sustenta a coleção de discos, livros e filmes, que crescem do chão ao teto até as outras paredes, volumes e volumes rodeando a tv e o aparelho de som. Na parede oposta fica o sofá goiaba (braços arranhados por unhas de aspecto felino) a poltrona assombrada por um abajur de outros tempos e, ao redor, fotos coladas aqui e ali com fita durex. Imagens de Marilyn de óculos, com um Ulysses no colo, fotos de um bebê dormindo, de um menino ora de sunga na praia, ora chupando um picolé no parque, fotos de uma menina de tranças compridas e vestido antiquado, o papel amarelado pelo tempo. Ingressos de shows: Leonard Cohen, Lou reed. E rosas. Rosas secas. Que ainda parecem exalar algum cheiro – provavelmente o mesmo do ambientador elétrico ou do incenso, que os restos de cinza na mesa de canto denunciam.

A tevê está ligada – personagens de olhos puxados e cabelos espetados lutam num karatê moderno em 3D, com saltos voadores, golpes mortais e trocas velozes de roupas. Em frente ao aparelho, um carrinho em miniatura desliza pelo tapete entre peças de lego, comandado por cinco dedinhos gordos numa pequena mão rosada, rechonchuda. Olhos vidrados , ora no carro, ora na tv, um menino de cerca de 5 anos intercala gritos de “pá, pow, iáhh” com o melódico e ininteligível refrão de abertura de um desenho animado japonês.

A música sai cada vez mais baixa da tv – dedos longos de unhas azuis escuras impunham o controle, a voz elevada cobrindo a da criança que resmunga baixinho, paralisando o carrinho. A mulher parece ainda mais alta perto da criança, seus cabelos descoloridos puxados para trás, traem a raiz negra, que o penteado vintage deixa visível. Seus saltos altos passeiam pela sala, em crescendo, quase sapateando sobre os tacos de madeira. A voz agora mais alta que a tv dá ordens ao menino, as unhas azuis ajeitam os brincos, os olhos maquiados surgem de relance no espelho em cima do aparador. Seu vestido de alcinha tão leve perto do pijama de flanela da criança, a pele morena debaixo das flores do tecido chinês.

O telefone toca do outro lado da sala – os peixes rodam no aquário ao lado do aparelho, acordados pelo trinado elétrico. No tapete, o carrinho anda timidamente, num movimento lento, calculado –ele terá que se habituar à ideia de ficar com a babá. Ela desliga o monitor, pega o maço de cigarros no aparador , o isqueiro; vai ao quarto, volta perfumada e dá dois beijinhos na testa da criança e um no rosto da adolescente, que chega da cozinha com uma bandeja de farinha láctea e banana para o lanche do menino.

quarta-feira, 21 de março de 2012

De frente para o armário –  as portas abertas em par –  Isa passeava os olhos pelos vestidos nos cabides. Os dedos deslizavam entre os mais velhos à esquerda, desbotando juntos numa intimidade muda, e os mais novos, isolados no canto direito. O preto de alcinha e o rosa frente única ainda estavam com a etiqueta. Eram do mês passado. Um dia em que ela fez um esforço e até acreditou no que dizia a amiga “ mulher insegura não é sexy”. E fez um esforço e pensou em virar o jogo; e pensou que um cabelo mais liso e um vestido novo eram um bom começo: alguma coisa nela mudaria. Ele veria. Alguma coisa mudaria.

As roupas, sapatos, brincos, nada disso mais tinha um porquê agora que ele…, nada mais – e o nada se embolava num nó pesado como tudo em seu peito. Isa achava que a culpa era sua; não sabia perceber os sinais; nunca soube. O primeiro aham de desinteresse, o beijo seco e sem emoção; o bom dia quase na hora do almoço, o boa noite cedo demais. E depois, as desculpas atrapalhadas, as histórias. Confundia intuição com medo –  dizia a amiga, então era difícil saber.

Se era intuição, a ideia passava, se era medo, martelava a cabeça por semanas. Mas além de ter medo da própria intuição, temia estragar o equilíbrio precário do mundo com o próprio medo, essa lente capaz de refletir o imaginário, espelhando-o depois em realidade.

Isa olha para as roupas, lençóis, lenços, cintos e outras coisas sem sentido.

Sabia que a culpa era sua, sempre foi. Ela que não quis enfrentar fatos, que compreendeu além do compreensível. Ela que acreditou em cabeleireiros, em vestidos. Que acreditou em algum controle. Fecha o armário – de que vale tantas roupas – mas não consegue chorar, o choro também não tem porquê. A ferida não sangra, mas reabre a cada movimento mínimo lembrando que o melhor é ficar parada – como se, imóvel, o mundo não girasse, não se movesse sob os seus pés.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Opheliac



A lagoa anoitecia em ondas de chapa metálica, imóveis, reluzindo aqui e ali em pixeis de prata, como chuvisco na tv. Ela olhava a tela da água e não conseguia deixar de pensar em afundar de novo, sentir a água selando o corpo de todo contato com o ar. Pensava em diluir a pele no cinza esverdeado no fundo, na água turva em que nada se vê.  A água – por baixo dos pontos de prata, ela sonha com o escuro ainda. Os movimentos lentos – braços e cabelos emaranhados em algas  –, pernas bailando sem força pelo verde-mar.