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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

as conchas do mediterrâneo


são pequenas – quase todas as que colhi naquela tarde têm um ar alaranjado como se ao serem lixadas pelas águas + areia ganhassem ferrugem. Redondas, algumas do tamanho exato de uma unha do polegar – do meu polegar, pequeno, mais precisamente do tamanho de uma pétala de flor de coentro ou alfazema, se é que as dimensões de uma espécie de flor possam alguma vez serem precisas. Em quase todas o furo, cicatriz minimal deixada pelas correntes como, trinta anos depois, a marca de vacina no braço.
Penso em brincos e colares. Penso na água deslizando perfeita naquele furo cilíndrico, a água gelada do mediterrâneo no inverno, a sopa quente em que vira o mar quando é verão. Estamos em janeiro; o ar da maresia nos faz bem, entra gelado nas narinas enchendo o pulmão de azul. Ele observa o mar do areal, me afasto; não resisto e sigo sozinha pela areia, sapatos, gorro, luvas e sobretudo em direção ao azul – quero a espuma branca, o momento exato em que as ondas quebram e se derramam na costa, ser com o mar no momento e movimento. Já sem luvas vou e venho sorrindo com a correnteza, ondas pequenas e rasteiras como as de um rio, apanhando meus pés em botas geladas
quando menos espero
Um cachorro surgindo do nada atira as patas sobre o meus joelhos, quase me derruba e some num segundo seguindo na obsessão de cavar buracos na areia. Rio confusa com o embate do encontro, a dona se desculpa, à toa, eu respondo: "quando está na praia ele passo o tempo todo nisso" - explica, extraordinariamente ao meu lado e de repente já não
Cachorros também catam conchas,
                                                       procuram memórias no fundo da areia?

Do outro lado, no pier, ele,
                                     alheio
                                               algures no seu mar.

E eu lembro.

Era noite. Eu com medo e com frio, ele sem paciência para tanta imobilidade.  Nós sozinhos na cidade escura de metropolitanos vazios. Cada um de nós a cada minuto mais cada um, trancados no próprio silêncio.
E, de repente, o impasse. E de repente as águas que não paravam de nascer nos olhos. Gota salgada pesando na face.

Vamos para a praia, vamos ver o seu mar, insisto.
Ele me segue, a contragosto.
Caminho para a praia, inteira na tarefa de salvar-nos da noite, reunir sombra e silhueta, mãos e olhos novamente; respiro fundo, chamo pelos deuses de outrora e traço com a varinha mágica dos dedos nossos nomes na areia, e me certifico de que estamos muito longe das ondas e de que a inscrição será eterna ao menos até virarmos de costas e nos afastarmos
                                         [como em qualquer feitiço:]
em troca ofereço palavras até então minhas ao fundo do mar e sei que as perco; águas vivam dançam num raio de luz no azul negro colhendo a oferta; só quero vê-lo sorrir, só quero acalmar seu peito. E disso elas entendem como ninguém.
Ele cede um meio riso – eu sigo no escuro para terminar o serviço nas águas noturnas, murmurando a prece protegida pelo breu da noite, onde só uma leve crosta branca distingue de vez em quando o céu do mar.
"Só queria sumir"– a voz dele ecoa no búzio do meu peito que se apequena. Faço o que sei fazer: mergulho pés, mãos e rosto na água escura e espero a pérola surgir. São meus olhos que a fabricam?

"Toma, olha aqui o teu amuleto"– digo brincando enquanto coloco a pedra nas suas mãos quentes, que me retêm. Como a dos nossos pais, tios, avós. Pedras, ondas, adeus. E magia. E o nosso encontro.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Versinkende Sonne - Noturno 2

Versinkende Sonne, Egon Schiele
You call this painting just a sunset…. Looking at this work, however, one would have to say, with all the appropriate melancholy, that the sun is sinking. It’s already grown dark and cold in the foreground, and every leaf on the twigs has grown stiff from the cold. And before such a deeply melancholic sky, which no artist before Schiele ever painted in such a way, I am even moved to ask: will this sun, which is just departing, ever return?”  -- Rudolf Leopold


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Fotograma

Deitada no sofá, o poema na cabeça. As palavras formam de repente imagens, desenhando em fúria estradas, estações e placas com nomes de cidades longínquas. Flashes de cores estouram, num por do sol em rosa néon, laranja, malva: a luz ferindo os olhos em ruas queimando de frio, a neve enlameando as botas. Cidades de nomes com novas cores: Bratislava. Sarajevo. Vilnius. Países novos de remendos antigos; cicatrizes altas, rosadas e doídas como as minhas. Arrepiando-se ao toque. Fendas e feridas como mapas íntimos – a geografia em braile, não decifrável com os olhos.

Deitada no sofá, insisto: quero o que meus olhos não veem. As cores que desbotam, os cheiros que nos assaltam em novas esquinas, as paredes ruídas, esfarelando-se. No umbral de ir e ficar, no umbral de viver ou não, para que. No ir além do que não se sabe, do que se constrói a cada sentir.

sexta-feira, 6 de março de 2015

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Anda,

Anda, vou-te mostrar a terra
dos teus pais, avós, antepassados
tão antigos que os podes escolher.
Este aqui é noé, de barba por fazer;
meteu na arca puro e impuro, bem e mal,
inventou o vinho, homem melhor
da sua geração ( não é grande elogio ),
teve filhos, netos, é de crer que morreu.
Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia.
Vês as colinas? São tuas, quando
as olhas a direito. Realmente tuas,
parte de um mundo teu.
Sim, isso são filosofias,
tens razão. ( E tem graça ao ter razão ).
Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças
onde era costume, sabes, tratar casos assim.

António Franco Alexandre, Quatro Caprichos, Lisboa, Assírio & Alvim.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cidade que aperto, batendo as asas - ela

Nunca tinha me acontecido, mas há sempre uma primeira vez: sonhei com um poema. Não meu, obviamente. Sonhei que lia Herberto Helder, e o poema falava de flores e cidades. Acho que o poema que eu lia não existia. Ainda. Mas este aqui  fala de tudo isso e muito, muito mais do que o meu inconsciente sequer poderia abarcar.

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.


Herberto Helder

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Don't swim tonight, my love, the sea is mad my love




Dezoito paredes. Duas portas de vidro na pequena varanda de onde me debruçava para a rua. Memórias impregnadas como cheiro de cigarro no floral bege-rosa do sofá. Os furos queimados no colchão, tapetes e colcha, marca de cada amigo que ia passando. 500 sorrisos meus. 200 brigas e gritos e ameaças dele. 600 sorrisos dela. 900 abraços de cada um dos amigos que fiz lá, ou que vieram me visitar nesses 10 anos. Cada festa reunião, jantar, cenas passando como flashes enquanto tento apagar, deixar ir, dormir. Os almoços de sábado na época em que eu cozinhava para oito pessoas – e comia feliz. Os primeiros passos da Odete, tão pequena que eu tinha medo de esmaga-la quando ela acompanhava quietinha meus movimentos na cozinha. A mobília dele, indo embora no carreto, eu assistindo pela janela com uma taça de vinho branco. As malas dela, duas grandes e mais três sacos de lixo devidamente depositados na porta. O dia que encontramos uma estante na rua e carregamos 3 quarteirões até a casa e lixamos e pintamos de vermelho e penduramos na sala – não cabia livros, só cds. Na época ainda havia cds.

Eu voltando cedo da revista, dentro do comboio estranhando as ondas tão altas, no dia do terremoto. A fissura no alto do teto virando rachadura após o abalo. Eu no primeiro estágio, almoçando qualquer coisa e correndo de volta para o jornal. Chegando às 23h de um milhão de cursos que não serviram para nada. Nós sendo informados na reunião de pauta que a revista tinha falido. Eu desempregada, tomando chá, vendo Oprah, comendo tofu com coca-zero, plenamente consciente do tsunami que viria a seguir. 
–Você parece serena, com a decisão de ir embora, ela me disse. Meu pai nunca me pediria isso, ela acrescentou. 
– Não há nada a fazer além de esperar e manter a calma, respondi. Eu serei eu com todas as minhas questões em qualquer lugar do mundo – ela assentiu sem me dar muito crédito, enquanto ouvíamos Magnetic fields e comíamos azeitonas do Leste com café. ( o que havia).

Acertei, ainda sou eu. Tirando a alegria. De voltar para casa. Para a minha casa. Aquela em que eu pintei todas as paredes (com ajuda de amigos), do rodapé ao teto. Aquela para a qual escolhi a mobília, uma por uma no Ikea – ou achava na rua e pintava ou cobria com papel de parede cheio de patinhos e florzinhas ou outras estampas kitsch que me faziam sorrir de manhã. Aquela casa que tinha uma cortina pink, cenário preferido para as fotos dos meus amigos. Aquela que os meus amigos visitavam – na época em que parecia que sempre estaria rodeada por eles, e que sempre haveria kindred spirits à minha volta.

Eu disse que viria um tsunami e era só isso que sabia, sem detalhes. Rezava para não sobreviver e ter que recolher os destroços.

Ainda hoje desconfio do mar, desconfio das ondas. Elas vão e vêm exatamente como no dia do abalo – no terremoto as coisas não tremem, elas balançam, de um lado para o outro até você duvidar da própria sanidade. Observo o mar e espero; a onda parece que não quebra nunca. Quando me aventuro nas águas elas me reclamam e puxam logo para a parte alta, onde meus pés não alcançam, só para me atirar de novo à areia. Às vezes dá tempo de ficar uns segundos deitada, observando o céu. Sentindo a espuma apaziguar o corpo, lixado como se com pedra pomes. Os dedos, pernas e pés afundando na areia, como se parte da paisagem, uma concha qualquer.

Eu, que recolho e escolho conchas como se pedras preciosas.

Quem mais o faz?

domingo, 24 de agosto de 2014

Tell it to my heart


 

Como é possível que alguém ou algo ainda parta meu coração depois que perdi Lisboa? Não deveria nunca. Como é possível que eu ainda sinta alguma coisa no peito, se parece que ele ficou atracado aqui, nessa cidade líquida de ruínas, águas, conchas, sal e sol?

Dizem que é a vida que se segue. E que eu devo seguir. Mesmo com o coração batendo de dor. Quer dizer que estou viva e eles dizem que isso é bom. Que vai passar.
Cinco anos depois, eu ainda oiço calada, tentando não magoar ninguém com a verdade.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A cada manhã, ao acordar, eu me digo

Chaque matin, au réveil, je me dis : « N’accorde à ta pensée aucun crédit. Enregistre et note.
« Et je traque tout ce qui s’offre — ou se cache — à la vue. Impitoyablement.
« Par paresse ou désintéressement, je ne note pas toujours. Il faut apprendre à écrire avec des mots gorgés de silence.
« Tout livre n’est-il la cocasse ou tragique histoire de la perte d’un livre ?
« Un jeu, certes. Ne m’arrive-t-il pas d’oublier qui se suis et où je suis ?
« Je viens d’un autre pays ; c’est, bien évidemment, pour cela.
« Je me souviens, cependant, que lorsque je vivais encore dans la patrie de mon enfance, j’avais le sentiment de venir d’ailleurs, d’une autre cité, d’un autre continent, sans jamais arriver à préciser lesquels.
« Ignorer d’où l’on vient, c’est presque avouer venir de nulle part. Mais cela est ridicule.
« Je me taisais. Je faisais comme si…
« Je suis un silencieux. Je me demande, grâce au recul que je prends, maintenant, avec ma vie, si ce goût prononcé par le silence n’a pas son origine dans la difficulté qui, de tout temps, fut la mienne, de me sentir d’un quelconque lieu.
« Avant de connaître le désert, je savais qu’il était mon univers. Seul le sable peut accompagner une parole muette jusqu’à l’horizon.
« Écrire sur le sable, à l’écoute d’une voix d’outre temps, les limites abolies. Voix violente du vent ou, immobile, de l’air, cette voix vous tient tête. Ce qu’elle annonce est ce qui vous agresse ou écrase. Parole des abyssales profondeurs dont vous n’êtes que l’intelligible bruit ; la sonore ou l’inaudible présence.
« S’il fallait une image au Rien, le sable nous la fournirait. Poussière de nos liens. Désert de nos destins.
« Pour le déraciné, l’arbre est un élément du paysage qui ne le retient pas.
« Pierres anonymes, des édifices s’élèvent à la gloire de l’anonymat, Ô villes, où je flâne en quête de mon arrière passé, le lisant dans chaque blessure révélée par l’épaisseur des murs fissurés. Vos pierres que ciment e chaux bâillonnent m’ont, malgré vous, reconnu ; car, comme moi, elles ne sont pas d’ici e ne se souviennent que de la nuit, humide et compacte, d’où elles furent extraites.
« J’ai vécue d’errance, comme le capitaliste de ses rentes, ayant, de mes ancêtres, hérité d’une terre hostile. Ajouterais-je qu’elle fut, dans son hostilité, peut-être, mon seul bien ?
« Étranger, seul un mode étranger pouvait être le mien. »


Edmond Jabès, Un étranger, avec, sous le bras, un livre de petit format, Paris, Gallimard, 1989, pp. 32-33

terça-feira, 15 de julho de 2014

Minha babel

Eu tento estudar francês, mas só penso a estrutura e as palavras em alemão. Tento estudar/falar alemão, mas só me sai inglês. Tento falar inglês, mas penso antes em português ou alemão. Tento falar/escrever em português lusitano mas escapam expressões e a estrutura do português do Brasil, num mix de sotaques frustrante. Falo português do Brasil e todos riem quando desliza uma expressão, uma frase, um termo que ficou na minha pele, em Lisboa.

domingo, 4 de maio de 2014

Disforme

Como os meus últimos escritos, como minha vida desde que nos deixamos, tudo parecia ainda era estranhamente doído e disforme. Como o conteúdo inacabado do ventre de uma ostra, que poderia parecer delicioso, inusitado, exótico, intrigante para quem quebra a concha e força a entrada. Mas ainda não era a pérola.

O caderno de esboços continuava no chão, debaixo da cama. Puxei-o para cima, abri uma página em branco e, com o lápis guardado entre as páginas, deixei as mãos riscarem livremente traços sem sentido. Era bom para aliviar a tensão. O som do carvão sobre o papel era como uma melodia familiar, que me trazia magicamente para um lugar único, seguro, onde não havia medos, erros, apenas a paz do lar. Era como a sensação de voltar a casa depois de um dia tenso, subir o elevador e deixar a cidade para trás ao fechar a porta e mergulhar no silêncio acolhedor, abrigado dos ruídos do mundo. Welcome home, dizia a primeira página. Para quem ainda não conseguia aterrar, flutuando à deriva nos produtos do cérebro insone, o caderno funcionava como uma âncora. O que o amor infelizmente nunca tinha sido.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A correnteza continua


O tempo quente e o vento morno sopra no meu rosto. Não há ninguém na beira do rio, na margem privativa da pousada. Tiro o vestido, largo as sandálias e a bolsa na areia cheia de conchas da beira, caminho machucando a sola dos pés até o leito do rio. Devagarinho me aproximo mergulhando os pés, que tocam a areia grossa, como pequenas pedra-pome raspando a pele fina do calcanhar. 

A primeira sensação é a de susto – como se de repente me vestisse com um manto gelado que me cobrisse poro a poro, tomando aos poucos o corpo inteiro. A água é tão clara, vejo meus dedos dos pés, e a cor verde absinto do esmalte cobrindo as unhas.

A chuva da semana anterior derrubou árvores, a encosta está suja, os gravetos se confundem com o mato alto lá longe na outra beira. Deito o corpo, jogo a cabeça pra trás e molho os cabelos, afundando na água gelada, num déja-vu da banheira em Berlim. Não tenho tempo para me demorar na lembrança – a correnteza vem em minha direção, num ruído calmo e constante. Parece que tudo – minhas células, meus órgãos, essas plantas, esse rio – corre e vibra independente do meu querer. Independente da minha dor. Independente do meu coração. A correnteza continua, em S. Luís, Berlim ou no Rio. Fecho os olhos e penso só no ruído, tentando esquecer o coração.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

gtalk 1

Moi:
tem piscina e aula de yoga...parece um spa
uma semana num lugar desses deve custar mais do que um mês em Paris

BFF:
você detesta Paris

Moi:
a propósito, mais gente me entende : http://www.youtube.com/watch?v=ZMF7Jq8xNGI
ok, um mês em Berlim

BFF: e como é q é a rotina lá?

Moi:
n sei...

BFF: tem piscina no teu prédio. E você nunca vai. Não conta. 

Moi: É...
A D. acha que isso tudo é muito violento e me chamou pra um retiro hare krishna. No retiro eu teria comida abençoada, aulas de yoga, mantra, cachoeiras, natureza e zero internet...

BFF: 
natureza
n te deixa nervosa?
qdo eu estou triste
a beleza do mundo
me esmaga mais do que me anima
enfim

Moi: vamos ver
...
Sabe que eu ainda tenho esperança de um dia gostar de Paris?


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

da vaga vaga que vem vindo enquanto viva e que fica na página na forma de palavra

Pedra a pedra construo o meu poema
e é nele que dos dias me defendo
Nada sei de emoções manipulo morfemas
e nas cidades sinto a solidão dos campos
Humano mesmo se demasiado humano
não peço ou posso privilégios de poetas
e desconheço a carne cerebral de que careço nos
sonhos que me semeiam as semanas
cingidas de cidades sossegadas
onde só o silêncio é soberano

País possível, Ruy Belo

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

they say that home is where the heart is


Há quantas gerações estamos indo e voltando, indo e voltando?
Quando é que a terra nos acolhe e abarca de vez, meu deus?

terça-feira, 3 de setembro de 2013

sustenido

Agora 5:16. Acordei espontaneamente pensando em você: os olhos úmidos de sono no travesseiro, os pelos ruivos da barba a meia luz da quase manhã, o movimento de ondas do peito, subindo e descendo com a respiração. E pensei que não sei se te disse, e tenho medo de não saber dizer assim, então digo, com os dedos na sua pele ou nesse papel, e digo que o melhor lugar de todos esses dias foi meu rosto no seu peito morno, meu corpo entre teus braços, nossa pernas - enlaçadas e exaustas, plenas. De todas as paisagens e vistas e miradouros, seu peito onde por segundos fico inteira e plena, os pedacinhos reunidos - e penso que não sei dizer, mas digo, meus olhos nos teus, sempre digo no susto sustenido,  a mezza voce.

Roma

A terra vermelha rodeia-me nos edifícios, tetos, turistas bronzeados, nos afrescos.
Deixo a água escorrer pela pele num banho sem fim - não há como tirar do corpo o pó das ruas.
Despenco no sono após o labirinto da cidade -- desperto assustada a meio, em plena queda livre

E o que não passa

Há potes com mel e água espalhadas pelas ruas. São armadilhas para as abelhas, ele diz. Um menino desce da bicicleta na minha frente, sua voz de castrattio rindo me dói nos ouvidos. Nota a minha presença e faz caretas- eu sorrio, desarmando-o. Rapazes da terra descem das motos, bebem, fumam e tiram fotos de si próprios com o celular. Os velhos descem dos carros, param nos cafés e bebem e fumam, contam histórias de si próprios uns aos outros, as mesmas dos seus pais. De seus filhos. De seus avós. É verão, o sol só cai às 20h. Os sinos tocam de 30 em 30 minutos, marcando um passar da tarde que não passa. As crianças circulam cadeiras, se movem aos saltos, - as crianças não passam. Os rostos são os mesmos - dos velhos, jovens, viúvas e jovens esposas - o mesmo ar repousado de quem não deseja além das montanhas.

Os queijos, os legumes são fortes - o ar é puro, respiramos profundamente e descansamos os olhos pelos alpes, até perder de vista os cumes dos montes. Uma menina de saia de filó verde corre por entre as mesas -- I'm sorry daddy, ela repete rindo e saltitando -- lembro dos faunos da estrada, que só apareceram no aviso das placas, lembro dos contos de fada - rosa vermelha, rosa branca, flores que aqui crescem como arbustos em cada canto, como nas histórias do livro "O mundo da criança". Meu preferido, quando me escondia no armário da minha mãe para ler tranquila. A menina usa tranças e agora corre repetindo Grazie. E eu penso em uma menina pequena correndo num quintal, e sinto nas mãos as suas tranças, e sorrio.

terça-feira, 20 de agosto de 2013


Gosto de estar no miradouro sozinha, quando chegam as primeiras estrelas. Mas assim, a meio da tarde, o calor daqui me abriga. A pele toda acarinhada pela luz. E, de repente, o frescor das igrejas escuras silentes de pedra e perdas.
Um cão sem coleira vem falar comigo, cheira as minhas pernas. Olha-me nos olhos e, como sempre, me segue.

Quando

Quando se perde uma cidade, é porque já se ganhou outra?