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quarta-feira, 24 de junho de 2015

leitura-fusão

não quero a crítica, não quero a análise. quero a leitura-encontro.o sol batendo no rosto, o vento vivendo nas faces, nas frases. quero leitura e releitura, a vivência, o toque das palavras, cores e sabores. não quero entender o poema - quero estar nele, ser com ele, ser ele e outra coisa e eu e nós e muito mais, infinitamente. Leitura-encontro- fusão de sujeitos, colisão de partículas em versos e entrelinhas, pertença mútua, a imanência que mescla corpo, espírito, palavra.
Quero muito?

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Versinkende Sonne - Noturno 2

Versinkende Sonne, Egon Schiele
You call this painting just a sunset…. Looking at this work, however, one would have to say, with all the appropriate melancholy, that the sun is sinking. It’s already grown dark and cold in the foreground, and every leaf on the twigs has grown stiff from the cold. And before such a deeply melancholic sky, which no artist before Schiele ever painted in such a way, I am even moved to ask: will this sun, which is just departing, ever return?”  -- Rudolf Leopold


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Lepidópteros

Lepidópteros - termo cunhado por Sá-Carneiro e propagado pela Orpheu que indicava ora  burgueses, ora artistas que viviam mais da atitude que da obra, ou melhor, aqueles que, como mariposas, vivem da luz do outro – presos ou a ideologias, a convenções sociais ou convicções artísticas. Parece que há uma gradação entre todos estes casos, um gap entre os lepidópteros artistas e aqueles que chafurdam na boçalidade lepidóptera, mas a Rapariga aqui ainda não leu o suficiente das Cartas (ou das obras do Mário de Sá-Carneiro) para poder explicar.

(...) como eu no fundo abominava essa gente - os artistas. Isto é, os falsos artistas cuja obra se encerra nas suas atitudes,  que falam petulantemente, que se mostram complicados de sentidos e  apetites,  artificiais, irritantes, intoleráveis. Enfim, que são os exploradores da arte apenas no que ela tem de falso e de exterior.

A confissão de Lúcio, Mário de Sá-Carneiro

terça-feira, 17 de março de 2015

As mulheres de Francesca

Quase como um statement do feminino. O corpo escorre em traços contínuos, fluidos - ilusórios - camuflando-se no background como um objeto decorativo, imóvel - porém pulsando em movimento. Desnudando-se para a câmera, as mulheres de Francesca transcendem o real e secretam, ante o observador atônito, a seiva de uma vida interior, hipnótica e turva. Os flashes de luz captam relâmpagos da psiche aflorando à superfície da pele. A psiche difusa, silente, fugidia.





A mulher erva daninha, intensa e inteira, sublunar. Quieta e escura como a pérola, que se desenvolve lenta e anônima no interior ósseo das ostras. A mulher sem nome, que empresta seu corpo ao ethos do ambiente, deixado-se invadir pelas rugas da parede, a poeira do chão, a casa em ruínas. Que, como mariposa noturna, se deixa confundir com a textura rugosa dos troncos de árvores - para preservar de olhares, mãos e prisões, o seu viver subterrâneo.



A Francesca Woodman imprime, no filme fotográfico, imagens do feminino inconsciente que encanta, envenena, enlouquece o observador e o modelo. Seus retratos caminham da exploração tátil do corpo e do entorno para a gradual fusão entre os dois. Testemunhando, em imagens simbólicas, toda violência desse "encontro".
Essas femmes nos surpreendem num segundo de deslocamento do vazio à volta, que ocupa, preenche e possui, infalivelmente, toda os sítios da sua alma. Elas nos olham no milésimo de segundo antes da destruição, quando irão cumprir o destino da lenta dissolução e desaparecimento.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Attention is the rarest and purest form of generosity


1. 

The love of our neighbour in all its fulness simply means being able to say to the other: 'What are you going through? ' It is indispensable to know how to look at that person in a certain way. This way of looking is first of all attentive. The soul empties itself of all its own contents in order to receive into itself the person it is looking at, just as he or she is, in all his or her truth. Only whoever is capable of attention can do this.

Simone Weil, Waiting for God

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ela me disse uma vez que são as histórias que nos encontram-- tentamos esquecer, ou por preguiça, desânimo, medo, e elas nos perseguem e alcançam lá na frente, onde nunca poderíamos imaginar e por isso nos proteger. Não somos nós, são elas, elas é que insistem, nos rodeiam, dando um jeito forte ou bem sutil até que cedemos. Como quando estamos apaixonados e o nome da pessoa nos assombra em rótulos, letreiros, anúncios, menus. Parece que há uma inteligência qualquer a serviço do que tem que ser - parece Maktoub, ou que somos especiais, mas não é nada disso, é só isso: a história pedindo pra nascer.

As histórias que eu mais gostei de contar só contei porque não conseguia mais fugir delas -- porque não havia mais nada a fazer.

Uma das razões pelas quais demiti minha analista (há mais, claro): ela disse que se não fosse essa capacidade de sofrer e sentir, eu não conseguiria escrever.
Ora, é muito óbvio que se não fosse isso eu nunca precisaria escrever.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Senda


“Sometimes she said things like: “Go on searching!” But that was all she said. It meant you had to keep searching without knowing were to look, nor whether you were on the right track.”

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Killing the Angel

And the phantom was a woman, and when I came to know her better I called her after the heroine of a famous poem, The Angel in the House. (...) I will describe her as shortly as I can. She was intensely sympathetic. She was immensely charming. She was utterly unselfish. She excelled in the difficult arts of family life. She sacrificed herself daily. If there was chicken, she took the leg; if there was a draught she sat in it—in short she was so constituted that she never had a mind or a wish of her own, but preferred to sympathize always with the minds and wishes of others. Above all—I need not say it—–she was pure. (...) And when I came to write I encountered her with the very first words. The shadow of her wings fell on my page; I heard the rustling of her skirts in the room. Directly, that is to say, I took my pen in my hand to review that novel by a famous man, she slipped behind me and whispered: “My dear, you are a young woman. You are writing about a book that has been written by a man. Be sympathetic; be tender; flatter; deceive; use all the arts and wiles of our sex. Never let anybody guess that you have a mind of your own. Above all, be pure.” (...) I turned upon her and caught her by the throat. I did my best to kill her. My excuse, if I were to be had up in a court of law, would be that I acted in self–defence. Had I not killed her she would have killed me. She would have plucked the heart out of my writing. For, as I found, directly I put pen to paper, you cannot review even a novel without having a mind of your own, without expressing what you think to be the truth about human relations, morality, sex. And all these questions, according to the Angel of the House, cannot be dealt with freely and openly by women; they must charm, they must conciliate, they must—to put it bluntly—tell lies if they are to succeed.

V.Woolf,  in Professions for Women 

Virginia descrevia o Anjo da Casa como ser feminino, vivendo de assombrar mulheres escritoras, impondo rendas,bordados e delicadezas no lugar da verdade -- do que o pulso poderia revelar. O que fazia sentido, na altura. Hoje talvez esse fantasma seja andrógino e se interesse por ambos os sexos. Ou talvez haja uma imensidão de fantasmas assombrando os criativos, cada um com a sua manifestação, gestual e ritualística -- um para cada medo. (Se ainda não é possível matá-lo, como V.W. sugere, pelo menos que se conheça o seu nome).
(via oficina)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Passo pelas coisas sem perceber. Só quando escrevo elas ganham textura de real. Só quando escrevo me inscrevo nas cenas. O que se passa aqui dentro ou lá fora -- só tenho acesso quando passa pelo meu pulso. Quando não tenho, as coisas pulsam muito de longe. Acenam distantes, num eterno aparecer-esquecer.
As coisas passam como se eternas em seus 15 minutos; eu assisto ao seu desaparecimento. Como elas assistem ao meu.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

The Hug by Nan Goldin (1980)

"A lot of people seem to think that art or photography is about the way things look, or the surface of things. That's not what it's about for me. It's really about relationships and feelings...it's really hard for me to do commercial work because people kind of want me to do a Nan Goldin. They don't understand that it's not about a style or a look or a setup. It's about emotional obsession and empathy."

Nan Goldin

(The hug sempre será das minhas preferidas). 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

utopia

“Mas isso que você chama de imagético eu chamo de pele da linguagem, que tem uma musicalidade. Alguma coisa ligada à fome de beleza [....] acho que é uma certa compensação, pelo menos na minha luta de chegar à poesia. Estou querendo cada vez mais esse hibridismo — prosa e poesia — mas que não seja aquela prosa poética um pouco engalanada, que não me interessa. [...] Claro que esta busca pela beleza não passa pelo ideal clássico, cadavérico, pronto, mas uma beleza que seja furiosa, até deselegante, feia. A literatura não é um documento naturalista. A gente está empapuçado de naturalismo. A literatura necessita de uma transfiguração estilística. A minha utopia hoje é dissolver as fronteiras entre prosa e poesia”.

João Gilberto Noll, em entrevista a Ronaldo Bressane @via resenha de Claudia no Rascunho

(utopia, cada um com a sua. me deixem com a minha.)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011


Digam o que quiserem, mas é tão bom poder trabalhar o texto pleno, fresco, puro e imperfeito --  com seus sinais e cicatrizes, todas as marcas de saltos, tropeços, mergulhos e hesitações do autor. Como é bom poder assistir, desta posição privilegiada, ao texto vivo, antes de resenhas, comentários, reportagens e estudos críticos o emoldurarem e pendurarem na parede, como uma coisa qualquer -- como outra coisa.


(a foto não é minha, mas não encontro os créditos...)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Você já parou para pensar que leva as coisas a peito demais?

Não sei escrever sobre o que gosto sem me doar por inteiro; ou melhor, até sei, mas isso não me interessa. É tão entediante e vazio como um onenightstand. Se não houver fusão, comunhão, vivência plena no processo, o resultado até pode ser lindo para os outros – para mim, nada feito.

Não é só uma questão de produzir algo perfeito – o resultado até pode ser ruim, mas o processo tem que ser exaustivo – tem que incluir uma imersão profunda em algo de real e pulsante aqui dentro, tem que ser real, verdadeiro. 

Resulta que, normalmente, faço muito melhor o que não gosto – a  indiferença me deixa leviana e livre, as palavras saem fluidas como que de outra pessoa - sem me tocar, o texto não me exige doação. Mas, se me envolvo, não tem como não ser a 100%. Não interessam a falta de sono, a tendinite recorrente, o cansaço, nada. Só está bom quando chego ao limite.

O problema é que, com o passar dos anos, o limite vem sempre mais rápido - muito antes de qualquer resultado satisfatório. Num mundo em que só importam os resultados, paira o receio de ser chutado a qualquer momento - apesar de se ter bordado corpo, alma e coração no próprio processo de criação, como se fosse ele a obra de arte.  

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"a poem is a response to a poem..."

...as a poet is a response to a poet"

“Poets tend to think of themselves as stars because their deepest desire is to be an influence, rather than to be influenced, but even in the strongest, whose desire is accomplished, the anxiety of having been formed by influence still persists”.

Harold BloomA Map of Misreading)

– poetas e não só –

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Consummate Mask of Rock

 Consummate Mask of Rock
Bruce Nauman

1.This is my mask of fidelity to truth and life.
2.    This is to cover the mask of pain and desire.
3.This is to mask the cover of need for human companionship.
4.This is to mask the cover.
5.This is to cover the mask.
6.This is the need of cover.
7.This is the need of a mask.
8.This is the mask of cover of need.
9.Nothing and no
9.No thing and no mask can cover the lack, alas.

+

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Emerging Adulthood

"Quando escrevi as canções não andava feliz". Houve ali uma ligeira pausa, como que para reflectir, embora possivelmente tenha sido para afagar o seu gato, ostentado na capa, e enfim a frase: "Andava confusa, a sentir que estava a ser manipulada numa relação, a pensar nas minhas relações passadas, a pensar o que fazer com a vida".

Ela diz isto com a mais absoluta inteireza, sem pose, tudo limpo. Não é um tratado ontológico, é um símbolo: daquilo a que o psicólogo americano Jeffrey Jensen Arnett chamou "Emerging Adulthood", a ambiguidade entre ser adolescente e ser adulto, aquela sensação de que aos quase trinta ainda não se assentou como se esperava de nós, e que mesmo quando se assume uma responsabilidade há sempre o quarto dos pais à espera.

Arnett tem estudado o caso ao longo das últimas décadas e defende que os vintes deviam ser vistos como uma nova faixa etária. A seu favor, mais que as suas pesquisas, tem a obra completa do cineasta Wes Anderson - e os maravilhosos Best Coast.

É isso que esta música representa: um último Verão, uma última adolescência quando o Verão já acabou e a adolescência já passou: aquilo lá fora é o Inverno e isto que é nada é a tua conta bancária. Mas enquanto não cortarem a electricidade, pode-se ouvir os Best Coast.

+ aqui, em mais um artigo brilhante do Ípsilon

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ich habe nie eine Zeile geschrieben, die nicht mit meiner Existenz zu tun gehabt hätte – ich bin, Du siehst es, Realist auf meine Weise.

Paul Celan a Erich Einhorn, carta de 23.06.1962