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segunda-feira, 30 de maio de 2016

água que não se descola

Expulsas do aquário uterino do mar, despertamos na costa. Abrimos os olhos, alheias. Puxamos o ar – cada gota afogando um poro, inundando o corpo que nunca mais será de outro elemento. Suor choro saliva e leite tatuam a pertença em nossa pele – seremos água, líquidas para sempre.
Eles se sacodem – são só areia –, secos, imunes. Livres do elemento, que evapora sob o sol. Cai pela terra, se apaga fácil, num abraço de uma toalha.
Em nós o elemento escapa, escondido e intacto no úmido entre nossos pelos.
Desde crianças sabemos do risco e prazer do mar – eles temem o fundo; nós ansiamos pela dissolução em êxtase e espuma, onda batendo e desfiando na costa. Subtil formação distante ganhando força até que de repente seu furor quebra em rochedos, recifes, corais.
O homem teme a corrente puxando-o para baixo – para nós, baixo e cima nada mais é que a costa oposta. Aquela que nunca conseguimos alcançar.
Assistimos ao embate água - homem flutuando no sal de um mar que apaga nossos contornos. A matéria vertente embala a pele e dissolve suas fronteiras, unindo vozes num único som. Diluídas no grande mar que os cerca, somos ondas, peixes, ostras, tubarões. Lagostas, tsunamis. Peixes – olhos de naufrágios e afogamentos, o coração leal a um reino aquático, dizendo não à gravidade terrena. Insistindo na alquimia respiração, oxigênio e ar.
Ao menos até
( ) aprendermos a nos secar
( ) voltarmos ao aquário
( ) dissolvermo-nos sem som
( ) deixarem-nos praticar nossa alquimia. Em paz.

sábado, 30 de abril de 2016

escrever • mergulhar • respirar • submergir • nascer



"Por vezes sinto que não escrevo, que descrevo os esforços para escrever, os esforços para nascer" – Artaud

Se escrever é subir e tomar ar, então afundo no irrespirável. Assistimos a água invadindo os pulmões, sabendo que apenas um pequeno, um mínimo movimento, poderia nos trazer de volta ao oxigênio. No entanto quem é capaz, de verdade –  de se esvaziar do excesso de si e respirar o novo – ?
Vamos lá, quem é capaz, para além dos saraus e noites de lançamentos e grupos de facebooks e festas com álcool e solidão na volta pra casa a página em branco?
O fastio aprisiona. As palavras quebram as costelas, forçam a passagem, O corpo sobe, obrigado a tomar a ar. É assim que acontece. Não tem fórmula, técnica, musa, nem magia.

domingo, 24 de abril de 2016

Whatever works –- a arte da evasão


Não foi fácil adormecer ontem; uma dor de cabeça resistente a 1000 mgs de paracetamol e 300 ml de gin pressionava têmporas e fundo dos olhos há 5 horas. Eu sabia quantas porque depois de oito já poderia repetir os remédios. Ele perguntava por que eu estava assim e eu sabia que nenhuma resposta era socialmente válida além do estresse relativo a uma (im)provável estabilidade financeira futura e a dissertação a ser parida. Uma semana pelo menos que o senhor que não troca o suéter, o que dorme no estacionamento em frente à futura creche, sumiu. Uma semana que não o vejo nem lá, nem na hora do almoço comprando quentinha no largo, nem à tarde distribuindo milho para os pombos. Foi-se.

Nenhum carro de serviço social passou pela rua – os outros continuam aqui.

Há uns três anos foi assim com ele também. Um dia do nada perdi o seu rastro, e nunca. Nunca mais apareceu. Poderia ter sido internado – era um vizinho meu, dormia nas ruas por puro alcoolismo. Mas depois de seis meses sem notícias? Depois de um ano? Dois?
Uma semana. Procuro todos os dias pelos seus sinais – há sete dias que não encontro nenhum toco de cigarro perto do canto que ele arruma para dormir.

Qualquer um pode desaparecer assim.  Quem é que vai reclamar  – e com quem? Nem as pombas que ele alimentava diariamente parecem sentir falta. Antigamente tínhamos que abrir espaço para andar entre elas, quando, sentado no paralelepípedo, ele distribuía milho; agora aquela esquina está limpa, como disse o segurança, a dona daquele outro cachorro e as palavras ecoando na minha cabeça. Limpa.
I know I should be totally clean, but well, (..). Don't worry bae, whatvr works now
Pergunto-me se é assim que parece a ausência do que incomoda mas no fundo nem vemos: the coast is clear. Um alívio. Também perdi o rastro do meu desaparecimento. Se começou em fevereiro, com o acidente. Em março, com a ansiedade social e a depressão. Ou no final de março com isso mais o resto e a inabilidade para gerir tudo e a vontade de imobilidade e invisibilidade, natural num bicho ferido. Perdi o início. Não acompanho mais o desenvolvimento. Assisto distante, apenas comento algumas fases. Estamos in bloom.

A raiz do tubérculo é perito na arte da evasão para o interior. Por que?
a) melhor sair do interior egoico doído para um grande cosmos sem sensação e personalidade.
b) nada como um grande exercício de economia de recursos pessoais devido ao esgotamento

Iremos voltar algum dia? Provavelmente. A que preço, não sei.
O que irá acontecer quando se romper o lacre de silêncio e imobilidade que costura pele, pulso, sonhos, riscos, rascunhos no retiro dessa cave escura?
Quem não é visto não é lembrado, e isso é para ser lido literalmente.
Será que ainda haverá espaço no mundo?
Quantas semanas até esquecerem totalmente? Quanto tempo até a gente realmente se apagar e ir?


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

as conchas do mediterrâneo


são pequenas – quase todas as que colhi naquela tarde têm um ar alaranjado como se ao serem lixadas pelas águas + areia ganhassem ferrugem. Redondas, algumas do tamanho exato de uma unha do polegar – do meu polegar, pequeno, mais precisamente do tamanho de uma pétala de flor de coentro ou alfazema, se é que as dimensões de uma espécie de flor possam alguma vez serem precisas. Em quase todas o furo, cicatriz minimal deixada pelas correntes como, trinta anos depois, a marca de vacina no braço.
Penso em brincos e colares. Penso na água deslizando perfeita naquele furo cilíndrico, a água gelada do mediterrâneo no inverno, a sopa quente em que vira o mar quando é verão. Estamos em janeiro; o ar da maresia nos faz bem, entra gelado nas narinas enchendo o pulmão de azul. Ele observa o mar do areal, me afasto; não resisto e sigo sozinha pela areia, sapatos, gorro, luvas e sobretudo em direção ao azul – quero a espuma branca, o momento exato em que as ondas quebram e se derramam na costa, ser com o mar no momento e movimento. Já sem luvas vou e venho sorrindo com a correnteza, ondas pequenas e rasteiras como as de um rio, apanhando meus pés em botas geladas
quando menos espero
Um cachorro surgindo do nada atira as patas sobre o meus joelhos, quase me derruba e some num segundo seguindo na obsessão de cavar buracos na areia. Rio confusa com o embate do encontro, a dona se desculpa, à toa, eu respondo: "quando está na praia ele passo o tempo todo nisso" - explica, extraordinariamente ao meu lado e de repente já não
Cachorros também catam conchas,
                                                       procuram memórias no fundo da areia?

Do outro lado, no pier, ele,
                                     alheio
                                               algures no seu mar.

E eu lembro.

Era noite. Eu com medo e com frio, ele sem paciência para tanta imobilidade.  Nós sozinhos na cidade escura de metropolitanos vazios. Cada um de nós a cada minuto mais cada um, trancados no próprio silêncio.
E, de repente, o impasse. E de repente as águas que não paravam de nascer nos olhos. Gota salgada pesando na face.

Vamos para a praia, vamos ver o seu mar, insisto.
Ele me segue, a contragosto.
Caminho para a praia, inteira na tarefa de salvar-nos da noite, reunir sombra e silhueta, mãos e olhos novamente; respiro fundo, chamo pelos deuses de outrora e traço com a varinha mágica dos dedos nossos nomes na areia, e me certifico de que estamos muito longe das ondas e de que a inscrição será eterna ao menos até virarmos de costas e nos afastarmos
                                         [como em qualquer feitiço:]
em troca ofereço palavras até então minhas ao fundo do mar e sei que as perco; águas vivam dançam num raio de luz no azul negro colhendo a oferta; só quero vê-lo sorrir, só quero acalmar seu peito. E disso elas entendem como ninguém.
Ele cede um meio riso – eu sigo no escuro para terminar o serviço nas águas noturnas, murmurando a prece protegida pelo breu da noite, onde só uma leve crosta branca distingue de vez em quando o céu do mar.
"Só queria sumir"– a voz dele ecoa no búzio do meu peito que se apequena. Faço o que sei fazer: mergulho pés, mãos e rosto na água escura e espero a pérola surgir. São meus olhos que a fabricam?

"Toma, olha aqui o teu amuleto"– digo brincando enquanto coloco a pedra nas suas mãos quentes, que me retêm. Como a dos nossos pais, tios, avós. Pedras, ondas, adeus. E magia. E o nosso encontro.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

The secret


Two girls discover
the secret of life
in a sudden line of
poetry.

I who don't know the
secret wrote
the line. They
told me

(through a third person)
they had found it
but not what it was
not even

what line it was. No doubt
by now, more than a week
later, they have forgotten
the secret,

the line, the name of
the poem. I love them
for finding what
I can't find,


and for loving me
for the line I wrote,
and for forgetting it
so that


a thousand times, till death
finds them, they may
discover it again, in other
lines

 in other
happenings. And for
wanting to know it,
for

assuming there is
such a secret, yes,
for that
most of all.


Denise Levertov

leitura-fusão

não quero a crítica, não quero a análise. quero a leitura-encontro.o sol batendo no rosto, o vento vivendo nas faces, nas frases. quero leitura e releitura, a vivência, o toque das palavras, cores e sabores. não quero entender o poema - quero estar nele, ser com ele, ser ele e outra coisa e eu e nós e muito mais, infinitamente. Leitura-encontro- fusão de sujeitos, colisão de partículas em versos e entrelinhas, pertença mútua, a imanência que mescla corpo, espírito, palavra.
Quero muito?

domingo, 21 de junho de 2015

I rest my case

– O que houve, Cristina? Você parecia tão alegre na festa de ontem, que cara é essa?
– Uma amiga mãe, com quem eu não tinha contato há uns dois anos. Matou-se. Não tinha nem trinta anos...
– Mas você só arruma amiga doida, heim...
–....

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Versinkende Sonne - Noturno 2

Versinkende Sonne, Egon Schiele
You call this painting just a sunset…. Looking at this work, however, one would have to say, with all the appropriate melancholy, that the sun is sinking. It’s already grown dark and cold in the foreground, and every leaf on the twigs has grown stiff from the cold. And before such a deeply melancholic sky, which no artist before Schiele ever painted in such a way, I am even moved to ask: will this sun, which is just departing, ever return?”  -- Rudolf Leopold


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mais alento do que na Bíblia

O mal está apenas guardando lugar para o bem. O mundo supura é só a olhos impiros. Deus está fazendo coisas fabulosas.

(Tutaméia, Guimarães Rosa)

Na falta de um Messias, as palavras <3

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Sono e escrita

não importa o que se beba, o que se tome, o que se fume, ele não vem. Só quando quer. Quando amanhece e o dia já está quente entre os lençóis. Quando as pálpebras pesam e o há sabor metálico preso na garganta. Aí ele me domina – músculos em contração, enrolados estáticos no edredon, corpo que não se quer mexer, que se prende quieto como que para prendê-lo – qualquer movimento pode quebrar a magia, romper a barreira  flutuante que protege a esfera encantada do sono de todo o resto – do concreto e insípido, do real.
Ele só vem quando quer, e tudo que eu quero é tê-lo, retê-lo em mim, e ser nele - mergulhar no sem som do fundo dos olhos. Onde dizem que é vazio – porque não há dor, ou euforia? onde o vazio pulsa – calado e vivo, inquieto, ideal. 

domingo, 29 de março de 2015

Aquelas histórias clássicas de pessoas trancadas em casas e igrejas que pegam fogo, caves e subsolos que inundam. Você sente a fumaça, o cheiro, o pânico, não sabe quando será -- só sabe que não irá demorar muito. Você sabe que não há para quem rezar, para onde fugir nem pelo que esperar. Você concentra todo o seu ser na tarefa de conseguir passar pelo momento das chamas queimando a pele, das ondas encharcando o pulmão. Você não tem fuga e só pensa em como pode fazer para suportar o momento, sabendo que depois só há o abismo -- não há nada depois.

sexta-feira, 27 de março de 2015

O mais fiel


Das primeiras vezes o medo, o pânico palpável no frio do estômago, o nó nos pulsos – ele vem e me invade, esmaga, esvazia – tudo sai do lugar, as coisas caem ao chão e desabam como eu, sem ar. Como onda ele vem e vai, ele sempre volta. Como onda que quebra, tragando tudo para um ventre vórtice aquático, cuspindo na costa o que não lhe interessa: seixos, meu corpo e outros restos de naufrágio – o que sobrou?

Das primeiras vezes o terror do Tsunami, o horizonte de águas escuras engolindo o mundo, o medo para além de qualquer fé. Até que um dia, habituada ao escuro, ficou mais claro o movimento das marés: a correnteza tranquila sabe o momento exato, e aguarda, atenta – como o olhar fixo dele, como o de mais ninguém. A banhista na praia reluta em crer, disfarça, se diverte contando barquinhos no horizonte, estrelas do mar – eu resisto, até que distraída me pego olhando para o espelho das águas, ajeitando a mecha de cabelo na orelha nua, sem brincos, oferenda inteira pra ele. Ele que sempre volta: o mais fiel, aquele que insiste e persiste, como o mar quebrando na costa destruída.

Ele aquele que resiste, que me invade, que me ocupa quando não há mais porquê estar em mim – quando não há som nem luz e todos já desistiram, quando todos já foram embora. Depois do mergulho forçado levanto lentamente, limpo as algas do corpo doído, procuro na areia o que a sua fome poupou.

E encontro. Pequenas conchas num branco de opala, madrepérola suave cheia de curvas em cores pastéis tatuadas, o brilho da água nas pedras. E encontro, sempre.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

to be here (still)


-Bem, de fome você você não vai morrer. (Amigo, tentando me acalmar ao saber que não ganhei bolsa)

- É, eu bem que já tentei algumas vezes, né? Nunca deu certo.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Só sendo forte posso dar força a alguém.
Pode vir mundo. Eu aguento.
Nós, aparentemente frágeis, só não exibimos nossa força – porque sabemos muito bem que não é do ego que ela vem.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Don't swim tonight, my love, the sea is mad my love




Dezoito paredes. Duas portas de vidro na pequena varanda de onde me debruçava para a rua. Memórias impregnadas como cheiro de cigarro no floral bege-rosa do sofá. Os furos queimados no colchão, tapetes e colcha, marca de cada amigo que ia passando. 500 sorrisos meus. 200 brigas e gritos e ameaças dele. 600 sorrisos dela. 900 abraços de cada um dos amigos que fiz lá, ou que vieram me visitar nesses 10 anos. Cada festa reunião, jantar, cenas passando como flashes enquanto tento apagar, deixar ir, dormir. Os almoços de sábado na época em que eu cozinhava para oito pessoas – e comia feliz. Os primeiros passos da Odete, tão pequena que eu tinha medo de esmaga-la quando ela acompanhava quietinha meus movimentos na cozinha. A mobília dele, indo embora no carreto, eu assistindo pela janela com uma taça de vinho branco. As malas dela, duas grandes e mais três sacos de lixo devidamente depositados na porta. O dia que encontramos uma estante na rua e carregamos 3 quarteirões até a casa e lixamos e pintamos de vermelho e penduramos na sala – não cabia livros, só cds. Na época ainda havia cds.

Eu voltando cedo da revista, dentro do comboio estranhando as ondas tão altas, no dia do terremoto. A fissura no alto do teto virando rachadura após o abalo. Eu no primeiro estágio, almoçando qualquer coisa e correndo de volta para o jornal. Chegando às 23h de um milhão de cursos que não serviram para nada. Nós sendo informados na reunião de pauta que a revista tinha falido. Eu desempregada, tomando chá, vendo Oprah, comendo tofu com coca-zero, plenamente consciente do tsunami que viria a seguir. 
–Você parece serena, com a decisão de ir embora, ela me disse. Meu pai nunca me pediria isso, ela acrescentou. 
– Não há nada a fazer além de esperar e manter a calma, respondi. Eu serei eu com todas as minhas questões em qualquer lugar do mundo – ela assentiu sem me dar muito crédito, enquanto ouvíamos Magnetic fields e comíamos azeitonas do Leste com café. ( o que havia).

Acertei, ainda sou eu. Tirando a alegria. De voltar para casa. Para a minha casa. Aquela em que eu pintei todas as paredes (com ajuda de amigos), do rodapé ao teto. Aquela para a qual escolhi a mobília, uma por uma no Ikea – ou achava na rua e pintava ou cobria com papel de parede cheio de patinhos e florzinhas ou outras estampas kitsch que me faziam sorrir de manhã. Aquela casa que tinha uma cortina pink, cenário preferido para as fotos dos meus amigos. Aquela que os meus amigos visitavam – na época em que parecia que sempre estaria rodeada por eles, e que sempre haveria kindred spirits à minha volta.

Eu disse que viria um tsunami e era só isso que sabia, sem detalhes. Rezava para não sobreviver e ter que recolher os destroços.

Ainda hoje desconfio do mar, desconfio das ondas. Elas vão e vêm exatamente como no dia do abalo – no terremoto as coisas não tremem, elas balançam, de um lado para o outro até você duvidar da própria sanidade. Observo o mar e espero; a onda parece que não quebra nunca. Quando me aventuro nas águas elas me reclamam e puxam logo para a parte alta, onde meus pés não alcançam, só para me atirar de novo à areia. Às vezes dá tempo de ficar uns segundos deitada, observando o céu. Sentindo a espuma apaziguar o corpo, lixado como se com pedra pomes. Os dedos, pernas e pés afundando na areia, como se parte da paisagem, uma concha qualquer.

Eu, que recolho e escolho conchas como se pedras preciosas.

Quem mais o faz?

domingo, 21 de setembro de 2014

raging every day


Se a vida pudesse ser só feita de livros, escrita, cachorros, flores, crianças e alguns bons amigos,
eu acho que
sim
já estaria valendo

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

no one can lift the damn thing

Sonhei que carregava nas mãos uma vela branca mas a chama era rosa,e eu tinha que segurá-la com todo cuidado, para não me queimar, para não deixá-la se apagar com o vento do meu movimento, para que ela não deslizasse pelos meus dedos e caísse no chão. Mas ela era linda, e iluminava de cor-de-rosa todo o corredor branco por onde eu passava. E lembrei dessa canção :



quinta-feira, 19 de junho de 2014

no sonho


E no sonho ele riu, os olhos mornos de sono e me deslizou para o seu lado e me envolveu em seus braços e me puxou para cima dele, suas mãos descendo da minha nuca deslizando pela coluna até a lombar, a bunda, as coxas – as partes preferidas dele. Eu queria dizer alguma coisa importante mas ele tapou minha boca, vindo com força. E depois adormeceu, o corpo em cima do meu, pesando até que eu deslizasse vagarosamente para não acordá-lo. De manhã estiquei o braço para o lado da cama instintivamente, mas só encontrei o vazio, a mão estendida no ar por segundos até eu perceber que tinha sido um sonho, que estava sozinha, na minha cama de solteira.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Em uma semana, a segunda vez que penso nisso.
Não tenho cartelas.
O enredo da minha vida é tão patético que provavelmente eu acordaria dois dias depois, com uma leve ressaca e três caixas de emails lotadas para responder, fora o trabalho acumulado.

Em poucos dias faço aniversário. Gostaria de juntar os poucos que se dessem carinho de lembrar, e ao mesmo tempo só penso em escapar para casa, encolhida na cama com uma bolsa de água quento e, sem ter que conter os sentimentos.
Hoje, no filme com ele. A mulher que chora quando, após 18 anos, alguém toca suas costas nuas. Quanto tempo aguenta a ausência de calor, de troca de energia? Quanto tempo se aguenta sem um abraço inteiro, até a inapetência total?

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Examino as linhas do nariz, queixo, boca. Confirmo - a franja castanha torta, as olheiras roxas, o sinal perto dos olhos. Então ainda estou aqui, sou eu mesma, constato, num misto de alívio e pânico que dura meio segundo -
na outra metade, lembro de cada esbarrão na rua na última semana. O telefone que  não toca, não vibra não se ilumina há tantos dias que nem sei, a caixa de emails que só recebe spams, a cadeira ocupada no trabalho, a geladeira vazia. A bicicleta que quase me atropelou, a moça do café, que continua de costas para o balcão, mesmo que eu levante a voz ao fazer o pedido. O meu nome, que nunca mais ouvi.

Junto todos os dados do real ao reflexo no espelho, e duvido.