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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

as conchas do mediterrâneo


são pequenas – quase todas as que colhi naquela tarde têm um ar alaranjado como se ao serem lixadas pelas águas + areia ganhassem ferrugem. Redondas, algumas do tamanho exato de uma unha do polegar – do meu polegar, pequeno, mais precisamente do tamanho de uma pétala de flor de coentro ou alfazema, se é que as dimensões de uma espécie de flor possam alguma vez serem precisas. Em quase todas o furo, cicatriz minimal deixada pelas correntes como, trinta anos depois, a marca de vacina no braço.
Penso em brincos e colares. Penso na água deslizando perfeita naquele furo cilíndrico, a água gelada do mediterrâneo no inverno, a sopa quente em que vira o mar quando é verão. Estamos em janeiro; o ar da maresia nos faz bem, entra gelado nas narinas enchendo o pulmão de azul. Ele observa o mar do areal, me afasto; não resisto e sigo sozinha pela areia, sapatos, gorro, luvas e sobretudo em direção ao azul – quero a espuma branca, o momento exato em que as ondas quebram e se derramam na costa, ser com o mar no momento e movimento. Já sem luvas vou e venho sorrindo com a correnteza, ondas pequenas e rasteiras como as de um rio, apanhando meus pés em botas geladas
quando menos espero
Um cachorro surgindo do nada atira as patas sobre o meus joelhos, quase me derruba e some num segundo seguindo na obsessão de cavar buracos na areia. Rio confusa com o embate do encontro, a dona se desculpa, à toa, eu respondo: "quando está na praia ele passo o tempo todo nisso" - explica, extraordinariamente ao meu lado e de repente já não
Cachorros também catam conchas,
                                                       procuram memórias no fundo da areia?

Do outro lado, no pier, ele,
                                     alheio
                                               algures no seu mar.

E eu lembro.

Era noite. Eu com medo e com frio, ele sem paciência para tanta imobilidade.  Nós sozinhos na cidade escura de metropolitanos vazios. Cada um de nós a cada minuto mais cada um, trancados no próprio silêncio.
E, de repente, o impasse. E de repente as águas que não paravam de nascer nos olhos. Gota salgada pesando na face.

Vamos para a praia, vamos ver o seu mar, insisto.
Ele me segue, a contragosto.
Caminho para a praia, inteira na tarefa de salvar-nos da noite, reunir sombra e silhueta, mãos e olhos novamente; respiro fundo, chamo pelos deuses de outrora e traço com a varinha mágica dos dedos nossos nomes na areia, e me certifico de que estamos muito longe das ondas e de que a inscrição será eterna ao menos até virarmos de costas e nos afastarmos
                                         [como em qualquer feitiço:]
em troca ofereço palavras até então minhas ao fundo do mar e sei que as perco; águas vivam dançam num raio de luz no azul negro colhendo a oferta; só quero vê-lo sorrir, só quero acalmar seu peito. E disso elas entendem como ninguém.
Ele cede um meio riso – eu sigo no escuro para terminar o serviço nas águas noturnas, murmurando a prece protegida pelo breu da noite, onde só uma leve crosta branca distingue de vez em quando o céu do mar.
"Só queria sumir"– a voz dele ecoa no búzio do meu peito que se apequena. Faço o que sei fazer: mergulho pés, mãos e rosto na água escura e espero a pérola surgir. São meus olhos que a fabricam?

"Toma, olha aqui o teu amuleto"– digo brincando enquanto coloco a pedra nas suas mãos quentes, que me retêm. Como a dos nossos pais, tios, avós. Pedras, ondas, adeus. E magia. E o nosso encontro.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

2015

Uma grande montanha russa

Um ano de obstáculos inimaginavelmente dolorosos  – um ano de benções inesperadas.

Ano de muita luta contra a própria insegurança, de colher assustada os frutos de um trabalho de anos – desde daqueles anos pré-alfabetização em que contava histórias para o gravador, ao fascínio de conseguir entender o que aqueles símbolos do alfabeto diziam, à mágica de conseguir dizer o que queria com eles – até que eles se tornaram o primeiro e único porto seguro real. A única âncora nesse mundo de tsunamis. A terra firme, em qualquer areia movediça.

Ano de assumir o casamento com a escrita. De deixar para trás velhos conceitos, ideias que não cabem mais. Roupas também. 
E de conseguir navegar, apesar de tudo. Com um sorriso. 
Sem nunca perder a doçura,

terça-feira, 10 de novembro de 2015

lilás


Na primavera, os campos estavam sempre cobertos de girassóis, enormes e assustadores - suas pétalas douradas como olhos abertos para o céu azul. Caminhávamos em meio às flores, eu insistia, afinal, durava pouco - no verão o amarelo ouro enegrecia em cadáveres ressequidos, enevoados de abelhas, mariposas adormecidas espreitando nosso passo por baixo da terra. O que também durava pouco. Em poucos meses vinha o outono e as pequenas flores lilazes despontavam à nossa volta, em todos os canteiros, jardins, parques -  até, no inverno, colorirem de roxo a montanha inteira, encobrindo a vista do mar, estonteando quem ousasse com o seu cheiro. Quem ousaria? No início eu colhia algumas, espalhando o cheiro pela casa, em chás, perfumando banhos longos e intermináveis em que a flor se fundia em água, vapor e óleo, se colando à pele. Mais tarde, só o roçar dos dedos nas pétalas pequenas já bastava - e só aproximar os lábios das flores já era  mergulhar na substância de matizes lilazes, sentindo o gosto do gozo, retendo-o em mim - expansão e continência. Quem ousaria ? E quem ousaria dizer não? 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Say you'll see me again even if it's just in your wildest dreams

  

Standing in a nice dress, staring at the sunset, babe
Red lips and rosy cheeks
Say you'll see me again even if it's just pretend

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Sinking in the past| The things that shouldn't last | Just put to bed and | stand beside me

Come pick me up
Take me out
Fuck me up
Steal my records
Screw all my friends
They're all full of shit
With a smile on your face
And then do it again

I wish you would

quarta-feira, 24 de junho de 2015

The secret


Two girls discover
the secret of life
in a sudden line of
poetry.

I who don't know the
secret wrote
the line. They
told me

(through a third person)
they had found it
but not what it was
not even

what line it was. No doubt
by now, more than a week
later, they have forgotten
the secret,

the line, the name of
the poem. I love them
for finding what
I can't find,


and for loving me
for the line I wrote,
and for forgetting it
so that


a thousand times, till death
finds them, they may
discover it again, in other
lines

 in other
happenings. And for
wanting to know it,
for

assuming there is
such a secret, yes,
for that
most of all.


Denise Levertov

leitura-fusão

não quero a crítica, não quero a análise. quero a leitura-encontro.o sol batendo no rosto, o vento vivendo nas faces, nas frases. quero leitura e releitura, a vivência, o toque das palavras, cores e sabores. não quero entender o poema - quero estar nele, ser com ele, ser ele e outra coisa e eu e nós e muito mais, infinitamente. Leitura-encontro- fusão de sujeitos, colisão de partículas em versos e entrelinhas, pertença mútua, a imanência que mescla corpo, espírito, palavra.
Quero muito?

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Aniversários

Lembro de um aniversário – tinha acabado de chegar a Lisboa – e ainda não tinha amigos. Só a Raquelzinha. Eu comprei um bolo pequeno, acendi uma velinha – fiz um pedido sozinha na minha cama. Depois joguei o bolo fora. Naquela época eu ainda não comia.
Hoje o dia começou bem. Acordei a tempo para a aula e conversei com a professora, que gostou do meu projeto. Cheguei a casa e escrevi mais e mais para o outro trabalho, tentando justificar a mim mesma que é essa a história que precisa ser contada, que não tenho como fugir. Depois adormeci espontaneamente; acordei com a Odete me pedindo comida, me pedindo para sair.
Cuidei da pequena. Saímos na chuva e, na volta, fiz comida para ela – acabou a ração. Voltei para o computador para adiantar o freela. E as horas foram passando.
Não é o primeiro aniversário que passo sozinha. Também não é o primeiro em que não sinto que deva comemorar. Há tanta coisa que tenho feito errado. Tanta coisa que tenho me esforçado mas que, simplesmente, não consigo fazer. Se a intenção é o que conta, já deveria ter saído dessa roda de samsara – mas pelo jeito o resultado é mais importante que o esforço. Mas eu não me importo.
Seco as lágrimas. Sei que vai ficar tudo bem. Nem que minha vida seja apenas um quarto solitário e muitas histórias para escrever, eu vou ficar bem. Se conseguir cumprir as tarefas diárias, não desapontar mais ninguém e ainda escrever, o que mais posso pedir da vida? Amor?

Ora, nem todo mundo nasceu pra ser alto, loiro, gordo ou magro. Nem todo mundo nasceu pra ser amado também. É como as coisas são – não vale a pena se revoltar e brigar por achar que se merece alguma coisa. É pura perda de tempo e energia.

Prefiro escrever. Alimento o papel com meu pulso e ele me alimenta de volta, preenchendo o coração. Deve haver mais do que isso, claro. Crianças, amigos, amantes, cachorros. Mas o papel e as palavras, por ora, são o bálsamo que enche de ternura qualquer ponto doído do coração.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

falling from grace

você não precisa dizer sim, responder likes, fazer nada se você já sabe o que eles querem e não, não é o mesmo que você.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Como lidar com um coração partido (sim, o seu)

minha parede: a cada heartbreak um novo poema

Ao longo dos anos, desenvolvi vários métodos para cicatrizar meu coração, que virou quase uma colcha de retalhos – ou melhor, um mosaico de vitrais, o que soa mais frágil, bonito e in. Desde o meu primeiro break-up aos 18 anos, sozinha em Portugal, até o último, com 32, aprendi várias técnicas para amenizar a dor – a maior parte delas não inclui analgésicos nem calmantes, nada que precise de receita médica. São coisas simples – o que traduzi há poucos dias para uma amiga  como "kit de primeiros socorros". E a primeira lição a aprender é: o que não colocar dentro dele – ou melhor, o que não fazer:

1- Olhar fotos, reler e-mails antigos. (Não precisa apagar também. Faz uma pasta no computador com a tag "passado"e joga tudo ali. Se você não tiver forças nem para rever as fotos na hora de guardar nas pastas, peça ajuda a um(a) amigo(a) – eu pedi e peço sempre que não aguento.)
Ps1: Se você ainda estiver na fase da raiva e precisar do ato catártico de apagar tudo, vai lá e faça. Você pode se arrepender depois, mas tem muito tempo até lá.
Ps2: No caso de relacionamentos muito autodestrutivos, pode apagar, rasgar e usar qualquer outra técnica catártica, como tacar as fotos na fogueira. Been there, done that.

2- Mantê-lo(a) no feed de notícias, no instagram e outras redes sociais que te dão update sobre a vida do(a) ex. Sério. Não precisa tirar da lista de amigos do facebook se o rompimento foi tranquilo, mas você realmente quer ver fotos dele(a) com uma amiga (e convenhamos, você nunca vai pensar que é só amiga)? Tira do feed de notícias – tanto ele(a) como os amigos dele(a), pelo menos por um tempo. Ninguém fica sabendo, ninguém se se sente rejeitado e você pode abrir seu computador sem sentir o coração acelerar à procura de pegadas que denunciem o que ele(a) fez a noite passada.

3- Stalkear. Não. Não. Isso é humano, faz parte dos nossos impulsos, mas somos seres racionais – se tem gente que larga cigarro e heroína, você é capaz de resisitir ao impulso de passar madrugadas "pesquisando" perfis alheios e traçando todas as teorias conspiratórias possíveis sobre com quem ele(a) esteve, está, ou está quase pegando. Quando der vontade, saia com seu cachorro; faça as unhas; coma meio quilo de sorvete; suba na esteira; tome um banho longo e demorado que incluia massagem com óleos, hidratação no cabelo, pele, esfoliação no calcanhar. Arrume seu armário.

Se nada disso parecer viável, ligue para um(a) amigo(a). Ligue para sua mãe. Ou chore em posição fetal na cama, até passar. PASSA.

4- Ligar para ele/ela e não falar nada. Nem com 15 anos. Isso é mais do patético: vai do espectro do infantil ao doentio, e ainda te faz gastar dinheiro à toa. Óbvio que ele(a)a sabe que é você. Da última vez que fizeram isso a um amigo meu gay, um amigo hetero atendeu, deu um chega-pra-lá no coitado do ex dizendo que eles agora estavam juntos e que ai dele se voltasse a ligar. Imagina se fazem o mesmo com você – uma menina atende e diz que já o território está ocupado, –já era, baby? Vai doer... e, se já está doendo, para quê mais humilhação e dor?

5- Ligar para ele/ela bêbada e pedir pra voltar/conversar. Deu vontade? Volte para o item 3 e ponha em prática as estratégias listadas. Já fez tudo e a vonade não passou? Invente outras e me ensine.

6- Ligar para mãe/irmão/ amigos dele. Lembre-se: já está doendo. O que você quer, respostas? É duro, mas vezes não há. E cada um que conta uma história aumenta um ponto; sinceramente, você quer chorar no ouvido de pessoas que vão responder tudo ahãms ou ouvir quietas enquanto rezam em silêncio para você se afastar e deixar o outro seguir seu caminho? (Em silêncio aqui foi na melhor das hipóteses, ok? Porque você levar uma bela descascada que só vai te jogar ainda mais no chão, se é que é possível). Deu vontade? Volte para o item 3.

7- Ficar com alguém para não "sair perdendo". Você nasceu e morreu sozinha, portanto, deveria cuidar melhor de si mesmo/a – e isso inclui respeitar seu tempo de luto. Forçar a barra e ficar com outra pessoa ainda pensando no(a) ex é um desrespeito aos próprios sentimentos – sem falar nos do(a) novo(a) parceiro(a). Fica fria; quando a dor passar, ainda vai ter gente solteira no mundo.  Tem sempre uma "leva de divorciados" chegando. Para quê a pressa?

8- Se anestesiar com álcool/drogas/remédios/trabalho. Repetindo: você nasceu sozinha, vai passar a maior parte dos seus segundos de vida sozinha, então deveria cuidar melhor de si mesma – porque depois, baby, vai sobrar pra você. Se a dor estiver insuportável, procure um psiquiatra, um terapeuta de uma linha com a qual você se identifique, faça aulas de yoga, meditação, massagem ayurveda. Procure terapias alternativas. Mergulhe em si mesma – mas não se afogue.

9- Passar "por acaso" pelos lugares que vocês frequentavam ou que ele(a) frequenta. Você é ingênua o suficiente para pensar que se vocês se esbarrarem por ali vai parecer mero "acaso"? Please. Autopreservação em primeiro lugar. Deu vontade, volte ao item 3.

10 - Se achar gorda(o)/feia(o)/com pouco estudo/loser no trabalho, e que esse foi o motivo do rompimento. Ok. A sua autoestima baixa pode ter sido um dos motivos do rompimento. E essa é uma boa oportunidade para trabalhar isso! Com mais tempo só para você, invista no que pode te fazer sentir melhor na própria pele. Se há algo que não te agrade e que você queira mudar, como o trabalho, cabelo, mude. Mas muitas vezes é a nossa atitude perante as coisas que tem que mudar – e não as coisas.
No caso do cabelo pode cortar e pintar que cresce :)


Ok. Se você chegou até aqui, merece um prêmio.
O que se deve colocar no kit de primeiros-socorros? – ou, o que você pode fazer:

1- Levantar de manhã. Tomar café. Tomar banho e se vestir. Almoçar. Ocupar o dia. Jantar. Deitar de noite e dormir. 
(Mother i can feel the soil falling over my head)
Quando algo que julgávamos estável se quebra, o sábio profeta Morrissey estava certo – parece que  o mundo desaba na nossa cabeça e fica muito difícil, para algumas pessoas, manter uma rotina saudável, funcional, produtiva. Se não estiver conseguindo sozinho, passe umas semanas na casa dos seus amigos ou pais. PEÇA AJUDA. Manter a rotina parece bobo, mas baby steps, pessoal. Cada um dessas pequenas coisas que você vai desistindo de fazer porque acha que não consegue, te retira forças para fazer a próxima. O contrário também é válido. Um dia de cada vez – cada dia que conseguir preencher todos os itens desta rotina já é uma grande vitória.

(No meu último heartbreak minha mãe batia na minha casa todos os dias com um prato de comida e só saía quando eu comesse. Minha prima me ligava todas as noites só pra checar se estava tudo bem. Mês passado tive um heartbreak profissional, uma mega mudança de rotina - de trabalhador de 8 horas a estudante de mestrado – e me vi perdida sem a segurança da rotina. Fui deixando aos poucos de fazer as coisas...até pedir ajuda e montar, com minha nutricionista e psicóloga, um plano de emergência para voltar a "funcionar" – estou indo super bem).

2- Juntar fotos, roupas, objetos, tudo o que te faça lembrar do(a) ex. Novamente, se não conseguir sozinha, peça ajuda dos seus amigos. Jogue fora florzinhas secas e outras bobagens, guarde numa caixa cartas trocadas (bonitas) e doe roupas ou o que for útil ou fizer alguém feliz. Se você não for capaz de fazer essa seleção, apenas embrulhe tudo numa caixa e coloque num lugar a que você não tenha acesso, como no alto do armário da casa dos seus pais ou de um amigo íntimo. O importante é tirar tudo da sua vista. Fiz isso em 2012 e só me lembrei  quando a faxineira me perguntou o que era aquela caixa, se podia jogar fora. Fiquei com preguiça de abrir e selecionar e rever aquilo tudo, mas jogar fora me parecia sacrilégio; então pedi para ela deixar ali e esqueci novamente (lembrei agora, mas a preguiça é muito grande para subir, abrir e bisbilhotar o passado).

2.1 - Fazer o mesmo nas redes sociais. Achei essa parte ainda mais dolorosa e não fui capaz de executar sozinha. Uma amiga foi lá em casa, entrou no meu facebook e, ao meu lado, ia apagando da timeline as fotos de casal, removendo meu nome e o dele nas em que aparecíamos juntos. pronto, ela disse quando acabou – foi ais rápido do que eu pensava. Óbvio, ela me ajudou a guardar as fotos na pasta PASSADO do computador enquanto excluía do facebook  – eu não queria apagar o passado, mas também não queria que meu perfil fosse um mausoléu para um amor perdido, No caso do instagram, tive que deixar de seguir. A conta dele era privada, o que dificultou a escolha – não tinha volta. Ainda bem que eu fiz isso o mais rápido que pude.

3- Chorar
It's not going to stop – till you wise up
Não tem como fugir da dor. Por mais que se tente ignorá-la, ela nos pega de surpresa ali no virar da esquina. Seu coração vai saltar quando ouvir alguém gritar por um homônimo no ônibus, você vai acabar com a caixinha de kleenex vendo Bambi na sessão da tarde, você vai achar injusto o garçom colocar na sua mesa a lata de coca-cola com aquele nome. Ou pior, vai achar que é um sinal de que vocês têm chance. Se você for do tipo psíquica e isso acontecer, jogue na loteria no mesmo dia e comparemos os resultados.
Agora sério, chore, só isso. No ombro de um amigo, num bar, na sa cama até adormecer. Chore, mergulhe e viva esse luto com coragem, respire fundo e, quando estiver mais calma, passe para o item 4.

4- Fazer da dor e do amor a sua motivação
I can't grow a new heart
Uma hora as lágrimas secam, e você percebe que a dor continua – mais leve, mas ali – e que o amor também. O que fazer? Horas assistindo netflix ou partying hard com amigos são legais, mas não levam muito longe. Não dá para matar esse amor, se for verdadeiro. Nem essa dor. Mas você pode fazer tanta coisa com ela! Criar. Pense em qualquer hobby, ou talento; ou se seu hobby virou profissão pense naquilo que você mais gostava de fazer quando criança – pintar, desenhar, escrever, dançar pela casa, arrumar flores, decorar a casa, brincar com crianças, gatos, cachorros. Se puder, se inscreva num curso livre de qualquer uma dessas coisas – de preferência em grupo. Ou procure por aquilo que você sempre quis fazer mas não tinha tempo – aulas de canto, piano, tarô, astrologia, cerâmica, costura, o que você quiser. Mas faça alguma coisa criativa (e que te dê orgulho) com essa dor.

5- Jogar seu amor no trabalho voluntário
Que causa te toca mais o coração? Animais abandonados? Adote, ou visite abrigos. Tire um sábado ou domingo para ir lá visitar os bichinhos. Crianças? Há vários hospitais que aceitam voluntários para ler ou entreter crianças doentes. Direitos Humanos? Feminismo? Desigualdade social?Lares de idosos? Procure na internet como se fazer voluntária em alguma ONG que lute pela causa com a qual você se identifica. Atenção: isso não é só para passar o tempo. É para fazer escoar esse amor, aí dentro de você, para quem realmente precisa. Assim ele não fica preso no seu peito – e você se sente mais leve e aberta para receber o amor que surge de fontes inesperadas – uma flor, o contato com o mar, a meditação, o abraço de um amigo, a alegria do seu bichinho quando você chega em casa.

6- Tirar férias e viajar
Oh life is bigger
Se você tem meios para isso, aproveite. Nada melhor do que se obrigar a andar por caminhos diferentes quando se está imerso na dor. Você pode continuar sofrendo, lógico, mas novas paisagens, línguas, lojas e pessoas dão um empurrãozinho despertando a curiosidade – e ela pode ser a mola mestra para você sair um pouquinho de dentro de si mesma, sim, desse lugar que virou um caos de dor. Viajar também te ajuda a sentir que o mundo é muito maior que uma relação, que você, no mundo, pode ser muito maior do que você era fechada numa relação. E há o bonus: você vai ficar mais preocupada em curtir a viagem ou fazer upload das suas fotos do que pensar no que seu/sua ex está fazendo. Além do que é sempre melhor chorar em Paris, né? Ou na praia. Ou na serra.
(se for serra ou praia, escolha um lugar sem sinal 3G por preocaução.)
Leve um amigo com você. Se não tiver, leve seu cachorro. Se não tiver, vá com seus pais (ótima oportunidade de focar em relações de acolhimento). Se nada disso for viável, vá sozinha – e descubra que você é uma ótima companhia para si mesma.

7- Mudar um pouco (por fora)
Corte ou pinte o cabelo. Doe suas roupas velhas, troque por outras que te façam sentir mais bonita. Descubra como você se sente mais bonita – esqueça os parâmetros do ex ou da ex para as suas roupas, maquiagens, sapatos, tudo. Quem manda agora é você (Aliás, sempre deveria ter sido, né? Mas ok, baby steps again).

7- Mudar um pouco (por dentro)
Faça uma lista do que te impede de crescer, de ser quem você quer ser  – só não vale querer ser a esposa de fulano(a), ok? O que você pode fazer para chegar cada vez mais perto disso? Vale qualquer desejo: profissional, criativo, monetário, ser mais feliz com o próprio corpo, ser menos ansiosa, ter uma relação mais harmônica com sua família, investir numa alimentação e estilo de vida mais saudável. No meu caso, por exemplo, fiz essa lista no final de 2013: meus dois objetivos a longo eram profissionais e criativos, e eu nunca poderia imaginar que chegaria tão longe. O outro, a longo prazo, envolve fazer mais amigos – o que é um pouco mais demorado, mas poso dizer que aos poucos estou conseguindo.
Pode ser também que você esteja tão abalada ainda que não tenha mais sonhos, desejos – que você tenha projetado tudo no outro e, com ele, ache todo gosto ou vontade tenha ido embora. Nesse caso, você vai ter que redescobrir ou encontrar ou inventar sonhos e sentidos novos. Volte para o item 3 – o que você adorava fazer quando criança? Se estiver muito duro, procure ajuda profissional – uma psicóloga ou terapeuta podem te ajudar e muito a criar um horizonte quando não se vê nada à frente.

7- Conte com sua rede de apoios. 
Peça toda a ajuda que precisar dos amigos e da família. Se possível, se force a fazer coisas com eles, e não apenas conversar – porque o assunto sempre recai naquilo que a sua mente não consegue esquecer, não é mesmo? Passeiem de bicicleta, façam um trilha, tomem sol na praia/piscina – ou, se preferirem – vejam séries juntos, comam brigadeiro, façam uma festa do pijama na casa de alguém. Já que somos adultos, pode ser queijos, vinhos, filmes e brigadeiro também – mas não exagere na bebida. O álcool traz euforia rápida mas também deprime.

9- Leia um tijolão
Quando estava bem próxima de terminar com S. (4 anos), li os 7 volumes de Em busca do tempo perdido, do Proust. Quando finalmente terminamos eu não tinha concentração mental para ler nada que não fosse o obrigatório do trabalho. Minha lentidão para ler e pensar não me deixava acompanhar ficção. E aí, descobri que finalmente conseguia ler e sentir poemas – o que me acompanha até hoje, a ponto de ter trabalhado 6 anos numa editora especializada em poesia.
Quando terminei com P. (2 intensos anos), li tudo do Sebald publicado aqui no Brasil; um livro de cartas entre a Virginia Woolf e a Vita Sackville-West e a biografia da Anne Sexton. Com o I (4-5 meses), li os diários da Sylvia Plath e uma coletânea de cartas da Katherine Mansfield; com o G. (6 meses) li Freedom, do Franzen, Anna Karenina, do Tolstoi, NW, da Zadie Smith até ser atropelada pelos textos da pós-graduaçao. Recentemente (há uns 7 meses?) briguei com uma BFF com mais de 10 anos de amizade e acho que foi para sempre – comecei o Graça infinita no dia, aos prantos na livraria, comprei no kindle e já terminei as mais de 1.000 páginas. Também assisti muito Gossip girl, confesso – se você não é muito de ler, (re)veja temporadas das suas sériespreferidas quando der vontade de chorar de madrugada. Ajuda.

10 - Escolha um poema 
Essa é a minha última técnica, a única que já ponho em prática naturalmente, não me exige esforço e me dá um sentimento de completude imediata após. Não tem a ver com remédios ou simpatias.
É simples: para cada queda, colo um novo poema na parede do quarto. A cabeceira da minha cama parece um matelassê de papéis amarelados, que desbotam a cada dia, como os versos, em português ou línguas distantes – como os amores – se apagando e se inscrevendo na memória eternamente. Se minha parede virou esse scrapbook, o meu coração é um mosaico, que desiste de bater inteiro. Que insiste em bater, a despeito. E confesso. Se a princípio eram band-aids, hoje os poemas são adornos. Coloco molduras, escolho o papel, a cor da tinta, coloco luzes em volta. E olho com orgulho essas cicatrizes-poemas, que fazem de mim quem eu sou hoje, como tatuagem.

Se tiver uma técnica para compartilhar, seja bem-vinda(o).

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------

----------------------------- até que a dor alegre recomece.


 Llansol, O começo de um livro é precioso

segunda-feira, 27 de abril de 2015

The real deal



Sonho que recebo uma carta. Uma embalagem com carimbo e selo da Polônia. Abro o pacote e encontro um casaco rosa antigo, com bandeirinhas, selos e brasões de vitórias antigas. Dentro, uma foto minha. E um poema, numa letra e língua que não consigo entender.
Ele diz que não sabe o que é a nossa amizade. Que precisa saber
Não sei como mas descubro que ele está fazendo um curso na Fapesp sobre arte contemporânea, o mesmo que eu queria fazer. Penso em esperá-lo na porta, vestida com o casaco. Devo ter confundido a Fapesp com A EAV, por causa do Charles Watson. Meu plano era esperá-lo, comentar que também queria fazer o curso, (o que era verdade) e ao mesmo tempo agradeceria o presente e mostraria como ficou bem em mim, e tentaria marcar um café. No qual eu diria
que eu sempre soube
Sempre soube que ele não tinha nada a ver com o mundo de barbies deslumbrados que o rodeiam. Que ele precisava de substância, intensidade, como a onça pecisa da carne da presa – que suco verde não enganava a fome dele. Que ele procurava a pérola dentro da ostra e não ostras com limão e capirinhas num iate em Paraty. Apesar de fingir muito bem.
E de repente, no sonho, eu vestida com aquele casaco de tantas guerras percebia que era eu a pérola, a joia rara que ele buscava. Invisível, escondida no conteúdo translúcido da concha – como um fantasma que só alguns veem. E que ele também era. Debaixo de tantos brasões e realizações, o czar medroso, generoso e puro, adormecendo como uma criança. Debaixo de tantas máscaras a que a vida obriga para vencer. E eu sentia, em todo meu corpo correndo: ele é também é the real deal. Só que não sabe. Quando irá acordar, meu deus?

Acordo e despenco em segundos até o real da minha cama vazia, fria, o abajur ainda aceso com o temor do escuro. Pego o caderno e escrevo. Não choro; escrevo até o sono voltar. Guardo as palavras no papel e mais uma memória dentro de mim. Chove bastante, as gotas nublam o vidro da janela. Adultos não choram – criam novos sonhos. Ou escrevem. Ou fazem do sentimento alguma coisa, Colocam um band-aid e seguem – ou outros, como eu, deixam sangrar em silêncio e observam as formas e texturas que surgem da ferida, como tatuagens. Esperam pelos temporal e vão buscar as conchas que as ondas trouxeram lá do fundo. Brilhantes, em tons de madrepérola e roxo furta-cores, como pedras preciosas. 
Também espero o temporal passar. Observo atenta os raios atingindo o oceano na noite escura, e espero plácida pela manhã. Quando o sol acordar meu corpo na areia e, ao meu redor, brilharem as conchas mais lindas. 
Estou na praia. Observo as ondas à noite e contenho meu desejo de me fundir ao céu e mar noturno. Entre os dedos seguro uma, duas, três conchas – as mais bonitas depois da ressaca. Com elas entre os dedos, espero pelo dia em que possa entregar a dele – o amuleto que o protegeria do mundo cão em que ele vive.

Amor de verdade não precisa do outro. Porque o outro está sempre aqui. Em cada respirar de maresia, em cada árco-íris descoberto num quartzo, em cada linha de um poema. E não, não dói dói. A felicidade do outro é sua também, porque é impossível mudar o que se sente. É gratuito, parado no tempo como uma onda sonora que se propaga infinita, repercutindo no espaço. 
No espaço, em algum lugar, nós. Lembra?

domingo, 5 de abril de 2015

not afraid of your loneliness


when your loneliness touches mine
I shiver
I shatter
But I'm still here, feeling it all
I'm not afraid

sexta-feira, 6 de março de 2015

head vs heart


Acordava e a cabeça dizia pelo menos

À noite, deitava e o coração suspirava tanto faz

Vê onde pisas




Vê onde pisas
Ao caminhar, sentiu pisar
algo que lhe amorteceu
o passo, e lhe transmitiu



aos músculos uma sensação
quase agradável, não fosse
aquele arrepiante,


súbito ruído cartilagíneo. Vê.
Um pequeno pássaro
esmagara-se-lhe sob o pé.


Verso Antigo, Luís Quintais

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Celan Style

A chuva corta a vidraça, cai abrupta pelo quarto – estico as costas no porcelanato frio, costela a costela chocando-se com o chão. Tentar reter a chuva aqui. Seu ruído constante pontilhando cores dentro de nós. Die Farben fahren, navegam o corpo, tingindo as veias, percorrendo o universo pálido da pele. Queimam em tons pastéis. Concentro-me na chuva – a sensação escapa com as gotas que saltam para o chão, magoando o rosto sem dó, magoando, negligente. Escorrendo escuras como as palavras, que afagam como lâminas, suaves e cegas sobre o papel.

domingo, 24 de agosto de 2014

Tell it to my heart


 

Como é possível que alguém ou algo ainda parta meu coração depois que perdi Lisboa? Não deveria nunca. Como é possível que eu ainda sinta alguma coisa no peito, se parece que ele ficou atracado aqui, nessa cidade líquida de ruínas, águas, conchas, sal e sol?

Dizem que é a vida que se segue. E que eu devo seguir. Mesmo com o coração batendo de dor. Quer dizer que estou viva e eles dizem que isso é bom. Que vai passar.
Cinco anos depois, eu ainda oiço calada, tentando não magoar ninguém com a verdade.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

no sonho


E no sonho ele riu, os olhos mornos de sono e me deslizou para o seu lado e me envolveu em seus braços e me puxou para cima dele, suas mãos descendo da minha nuca deslizando pela coluna até a lombar, a bunda, as coxas – as partes preferidas dele. Eu queria dizer alguma coisa importante mas ele tapou minha boca, vindo com força. E depois adormeceu, o corpo em cima do meu, pesando até que eu deslizasse vagarosamente para não acordá-lo. De manhã estiquei o braço para o lado da cama instintivamente, mas só encontrei o vazio, a mão estendida no ar por segundos até eu perceber que tinha sido um sonho, que estava sozinha, na minha cama de solteira.

sábado, 10 de maio de 2014

my anger turns to pity and to love

Rio, Roma. O cenário muda, mas, ele e eu somos sempre os mesmos. Na última vez, aparecíamos andando de mãos dadas numa fleamarket caçando discos; de repente estávamos num quarto de hotel em Amesterdã fumando um beque ao som de uma música ambiente qualquer, meu corpo encolhido contra o dele, deslizando a ponta dos dedos pela sua barba, descendo pelo seu peito, num abraço – seu corpo gordinho que meus braços não cercavam, tão habitual e tão meu, como casa. De repente ele me pega no colo e rolamos pelos lençóis suados do quarto abafado pelo aquecedor, as mãos dele percorrendo cada pedacinho do meu corpo, peito colado com peitos, ajustando o ritmo dos corações. E línguas e braços e pernas confusas e tão certas na entrega, e depois a exaustão, seu corpo sobre o meu me esmagando até o sono, até ele rolar de lado e sorrir e me beijar e olhar nos olhos, ainda me amando.

Acordo assustada, sem saber onde estou.