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terça-feira, 7 de maio de 2013

Top 10 dias felizes

Você nunca poderia imaginar, mas aqueles foram os dois dias mais felizes de que me lembro. Os dois dias mais felizes. Nós dois no bar com o nosso garçom, você me ouvindo e olhando como ninguém até então - você me lendo eu te lendo e nós dois, só os dedos enlaçados, a chuva inundando a rua e a tv no fundo com um atentado qualquer. Tão facilmente feliz como quando ganhei o Mick: quando senti o cheirinho de filhote e a barriguinha rosa do meu primeiro cachorro. Quando a irmã Fernanda me ensinou a rezar o terço, e eu passei o dedo pelas contas cor-de-rosa, pelas pérolas nos pai-nossos. Quando comprei o À sombra das raparigas em flor e deixei passar a estação e parei na última, só para continuar lendo -- ou quando o Guga, com dois anos, veio tropeçando e sorrindo, só pra me dar um abraço. Compete de igual para igual. Você nem poderia imaginar, eu nunca poderia te dizer. Aquela noite em que você percebeu e me tirou o cardápio, desviou minha atenção e ia me dando colheradas, me enganando -- ou aquele dia na água, sal e areia na boca e a tua pele quente na minha fria. Páreo duro com aquela viagem ao Alentejo, cerveja a metro, planícies de estrelas sem fim -- ou aquela vez em que ela encheu a casa de post-its fofos dizendo que me amava. Você não poderia, você não pode, não está ao seu alcance, e é só isso que tenho ao meu alcance: esses dias. As memórias desses dias. Que parecem de outras pessoas. De estranhos. Nós dois somos estranhos. Se você soubesse diria. como todos. que isso é desproporcional, que não pode ter sido tão bom, não é possível. Não é possível, lógico. Só é possível porque meus parâmetros são baixos, meus amigos diriam. Ou porque o que é pouco pra você pra mim é muito. Ou porque eu não esperava mais nada depois de tudo que se passou, e o pouco que me davam era tão raro e precioso - era tudo. Você não poderia nem imaginar quanto mais entender, você agora é mais um estranho, como tantos - invisível no gtalk para mim. Nunca esqueço o cheirinho de filhote da Odete. Até hoje ela tem a barriguinha rosa. E eu ainda tenho aquele terço com as pérolas da Irmã Fernanda. E ainda sei rezar. Embora já tenham passado mais de 20 anos. Acredita?

terça-feira, 2 de abril de 2013

I'd like to

Levo a bandeja para a mesa do canto, a dos bancos almofadados como nos diners americanos. Engulo o pão de queijo em pedacinhos pequenos, intercalados com goles de cappuccino - me concentro no cardápio e me esforço, bem devagar. Do outro lado da estrada, em outra estação de serviço ele dispensa a bandeja e  senta na mesa do fundo, o café fumegante na chávena estalando a pele dos dedos. A camisa bege com pequenos desenhos, os primeiros botões abertos por onde escapam os pelos do peito. Seu ar cansado, suas olheiras -- minhas olheiras. Nosso ar cansado. São 23hs e a tv passa o Fantástico: sequestros, estupro e violência nas vans. Temos horas de estrada, para trás e para frente, kms. Souvenirs de Aparecida sorriem pela vitrine. Fecho os olhos e ele aparece, o rosto inteiro em todos os detalhes da barba mal feita, do bigode ralo. Em outra ponta da estrada, em outra cidade, voltando também. Mas não para mim.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Pessoal - Universal

Manhã de Natal e ele continua a circular o quarteirão no seu movimento pendular quotidiano. Os dedos do pé sujos de terra, o riso debochado, a sacola de latinhas de bohemia. Reconheço de longe seu andar lento. Atravesso a rua e ele me sorri por trás dos óculos escuros. Talvez me reconheça. Do ponto de ônibus observo-o sentando no banco da praça, equilibrando o cigarro na boca, abrindo mais uma. Uma menina de cabelos longos alça voo no balanço, uma senhora tricota com um chihuahua no colo, sentada tomando sol. Todas as lojas fechadas, todos os bares fechados, o cruzamento sem carros, vazio. Na rua, o silêncio das manhãs de Natal.
Essa noite Júpiter estará perto da Lua, vai dar pra ver a olho nu - um casal comenta a meu lado. É mais fácil olhar Júpiter, ou o referendo no Egito, ou aderir aos protestos na Índia. Manifestar-se nas ruas por um mundo ideal, seja ele qual for. Mais fácil lutar contra o que for.
Difícil é isso. Toda essa impotência dele, minha, nossa. Esse Natal que não é para alguns. Difícil é isso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012


as  canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei  onde. as borrachas já não apagam a melancolia das  palavras. (...)  o vazio devora-nos. onde estivemos este  tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos  corpos?
Al Berto

(Ela toca a minha testa e diz que o frio afinal é uma febre)

sábado, 14 de abril de 2012

Noturno 1


Ela disse que era impossível esquecer o anoitecer em Lisboa, o azul escuro no céu, luzes amarelas beijando o chão. Ela disse que não conseguia, que quando o sol ia embora ainda esperava aquele azul, que nunca mais. Ela disse que por isso preferia o sol, o dia, a semana, que aí não se lembrava tanto, que aí não precisava esquecer. Eu disse que  não queria esquecer.

segunda-feira, 2 de abril de 2012


No almoço de domingo, ela me recordou ( sabe-se lá porque) do meu "sucesso" na infância, quando interpretei o papel de Nica, a formiguinha, na peça de final de ano. Sucesso sim: dos 7 anos 10 anos tive que responder por esse apelido na escola, e os coleguinhas dos outros turnos  sempre me paravam no corredor perguntando hey, você que era a  Nica?
(Lembro da sensação de adorar estar no palco tão bem como lembro da última vez que usei uma chupeta -- como se tivesse pleno acesso à memória de outra pessoa.)
A peça era sobre uma formiguinha que corria a floresta em busca de um lugar que pudesse chamar de "lar" --  "um lugar maravilhoso e feliz então ficar" -- ela cantava no refrão. Nessa busca, conversava com macacos, elefantes, leões, árvores, e perguntava a cada um deles para onde deveria ir, e cada um deles indicava a direção de um lugar maravilhoso, que afinal era a própria casa deles. A formiguinha achava os lugares até agradáveis mas não se identificava e por isso continuava andando, procurando.
Acho que no final ela encontrava outras formiguinhas e percebia que o lugar maravilhoso era onde não estava mais sozinha.
Mas é o que eu acho.
Não consigo me lembrar de como terminava a história.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Há um ano...

Passo o dia lendo. corrigindo. lapidando as palavras dos outros, moldando as letras em frases mais certeiras, mais certas, mais reais. E escrevendo. Mergulhando inteira naquelas palavras, pesquisando as suas ressonâncias em mim, fazendo eco com outras metáforas.
E durante todo o processo, milhões de ideias, anotações, insights sobre mim, os outros, a minha escrita.

Imagino que o meu trabalho deve ser a descrição do inferno para a maior parte das pessoas.