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terça-feira, 17 de abril de 2012

O nosso ciúme, examinando o passado para obter indicações, nada encontra nele; sempre retrospectivo, é como um historiador que tivesse de escrever uma história para a qual não dispusesse de documento algum; sempre atrasado, ele se precipita como um touro furioso para onde não se encontra a criatura brilhante e altiva que o irrita com suas picadas e cuja magnificência e astúcia a multidão cruel admira. O ciúme se debate no vazio, indeciso, como o somos nesses sonhos em que sofremos por não encontrar em sua casa vazia uma pessoa que conhecemos muito bem na vida, mas que aqui talvez seja uma outra e apenas tenha assumido as feições de outra personagem; indeciso, como o somos mais ainda quando, após o despertar, buscamos identificar tal ou qual detalhe do nosso sonho. Que jeito seria o da nossa amiga ao nos dizer isso? Teria um aspecto feliz, não estaria mesmo assobiando, coisa que ela só faz quando lhe ocorre um pensamento amoroso e nossa presença a importuna ou irrita? Não nos terá dito uma coisa que se acha em contradição com o que afirma agora, que conhece ou não conhece tal pessoa? Não o sabemos, não saberemos jamais, empenhamo-nos em procurar os destroços inconsistentes de um sonho, e durante esse tempo a nossa vida com a amante continua, nossa vida distraída diante do que ignoramos ser importante para nós, atenta ao que talvez o não seja, atormentada de pesadelos com criaturas que não têm relações reais conosco, nossa vida cheia de esquecimentos, de lacunas, de ansiedades vãs, nossa vida semelhante a um sonho.

 Proust, A Prisioneira