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domingo, 21 de junho de 2015

I rest my case

– O que houve, Cristina? Você parecia tão alegre na festa de ontem, que cara é essa?
– Uma amiga mãe, com quem eu não tinha contato há uns dois anos. Matou-se. Não tinha nem trinta anos...
– Mas você só arruma amiga doida, heim...
–....

quarta-feira, 3 de junho de 2015

falling from grace

você não precisa dizer sim, responder likes, fazer nada se você já sabe o que eles querem e não, não é o mesmo que você.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

I am myself - that's not enough

Todos os dias a manhã me acorda. O sol entra pelas persianas e agride meus olhos. Durmo mais um pouco – durmo até descansar da insônia habitual da noite anterior. E penso que poderia dormir para sempre, se Deus permitisse. Se eu tomasse uma cartela de fenergan, o que aconteceria?
Nada. Dormiria por dois dias. Se fosse final de semana e eu dissesse aos meus pais que estava viajando, ninguém nem iria notar.
Os remédios são muito seguros hoje em dia. E eu não curto nada ilícito – nada que me faça sair de mim e perder o controle. Não vejo graça numa viagem interior para abrir novas portas da percepção mental. As que conheço já são suficientemente assustadoras.
Algumas são bonitas também – mas essas só vejo em alguns sonhos, quando escrevo, no olhar que quem me ama me devolve.
Olhar que não vejo há, sei lá, tantos anos?
Não há saída a não ser ficar. Ficar e engolir o desespero. Produzir, produzir para pagar algumas contas, manter a casa limpa e não precisar da intervenção de ninguém. Ao menos essa dignidade.

(E nunca mais cair na besteira de me abrir com alguém).
Porque foi quando tudo começou. A vida inteira fiz piada da minha dor – todos riam. Um dia as piadas perderam a graça. E lá fui eu, procurar tratamento. E para quê?
A verdade é que recuperação real não existe. A gente se recupera para que? O mundo continua doente como sempre foi. O único jeito de enfrentá-lo é usando táticas secretas.
Cada um tem a sua. Seja compulsão por trabalho, álcool, drogas, alienação em livros, séries, novela, filhos. Eu tinha a minha – cedi porque a pressão foi demais.
E agora estou sem meus poderes mágicos. E aqui, sozinha, sem emprego, sem os meus dois melhores amigos de sempre, com um monte de memórias para apagar e uma página em branco enorme para escrever. Nem sei por onde começar.
Tudo o que eu queria é que tivesse sido comigo, e não com ele. A doença. Seria tudo mais fácil para todos. Para mim. É duro vê-lo tão fraco. Trocaria de lugar com ele em um segundo. O mundo funcionaria muito melhor. O mundo continuaria funcionando. Como continua funcionando, se eu dormir dois, três, quinze dias.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

ficar

Está tudo ali ao meu alcance. Na gaveta da mesinha de cabeceira. Minha melhor amiga, disse uma vez um ex. Ele tinha razão. Nisso ele tinha razão.
Está tudo ali ao meu alcance, na gaveta da mesinha de cabeceira, ao lado da cama. É só esticar os braços, puxar as cartelas - triturar com delicadeza o conteúdo numa vodka qualquer. E esperar pelo sono, que me tome de uma vez para sempre. Esperar pelo sono.
Tenho medo da espera. Da ansiedade da espera até que o efeito bata. Cigarros e mais cigarros até o corpo amolecer de cansaço e desistir, e mergulhar na cama, numb.
 E se não funcionar? -- e se acordar no dia seguinte de ressaca, com uma dor de cabeça horrível e o telefone tocando com pessoas que esperam de mim o meu lado mais solar? E se não funcionar e eu tiver que levantar, tomar banho, vestir alguma coisa e sorrir sorrir sorrir e comer comer comer para não ser mais um peso para ninguém.
 Esse defeito, essa coisa que não me permite deixar de sentir. Como eles podiam adivinhar? Minhas fotos felizes na infância. Eu era uma criança tão alegre inteligente criativa e independente, eles dizem.
I am myself, that´s not enough. 

Está tudo ali, ao meu alcance. Cada noite faço uma escolha. Olho as cartelas e desisto, apago as luzes, me enrolo em dois edredons. As coisas não vão melhorar, não há mágica. Mas se ainda consigo acordar e sorrir e sorrir e não magoar tanto quem nem tem ideia do que se passa, é menos penoso. Aguentar sozinha é bem  menos penoso do que ver a tristeza estampada nos olhos de quem não tem como entender a tua dor. Essa mesma, que nem você entende.

Fecho a gaveta,  fecho os olhos. Hoje decido ficar; amanhã logo se vê. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Ophelia style


A solidão era tão doce com ele ao meu lado.
Tão cheia de ânsias e sonhos
tão habitável

quinta-feira, 25 de julho de 2013

don't smoke in bed


Serge Marshennikov

Quando eu lhe contei a história da Clarice, ela -- portuguesa, por isso não sabia -- disse agora percebo o porquê do refrão Don't smoke in bed. Na canção, um homem deixa sua amante mas pede que ela não fume na cama, pelo perigo. Eu nunca tinha pensado nisso, confessei. Achei que falasse de alguém que não curtia  cigarros no quarto -- enfim, nunca ouvi a letra com atenção mas de repente fez sentido: Clarice, Ingeborg, quantas mais? Tantas de nós se consumindo até o sono num cigarro, até que as chamas acordam a casa em fumo -- quantas de nós, madrugadas solitárias escrevendo/sonhando até a exaustão, um cigarro após o outro no cinzeiro até o corpo ceder e afrouxar as grades para o sono entrar com luzes, velas e o que mais for ainda aceso. Quantas. São 2am e a taça de vinho no criado mudo não me ajuda -- a vigília só abranda pela manhã, quando no azul claro de repente o despertador toca -- fui pega distraída, é o que sempre penso. E quem controla esse momento em que abro as portas e ele me toma inteira? Quem testemunha, quem me defende? Medo do fogo, da falta de controle, dizem. Medo de não voltar, dizem -- mas se eu pudesse nunca voltaria, ora. Por isso essa obsessão com Ofélias e afogados, que se entregam e se deixam inundar? Por isso esse fetiche por imagens de camas desfeitas, casais entre lençóis, moças, crianças, cães, corpos desprotegidos e almas distantes no hemisfério noturno? Não fumo mais; leio e escrevo entre parágrafos e às vezes acordo, cabeça no caderno, a caneta que rolou dos dedos manchando a colcha de rosas azuis.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Ofélia – Meu bom senhor, como tem passado Vossa Alteza estes últimos dias?
Hamlet – Muito humildemente agradeço: bem, bem, bem.
Ofélia – Meu senhor, guardava de vós algumas lembranças que há muito tempo desejava devolver-vos. Peço que as recebais.
Hamlet – Não, eu não; nunca te dei nada.
Ofélia – Meu responsável senhor, sabeis perfeitamente bem que sim e acompanhando vossas dádivas com frases de tão doce alento que muito mais preciosas se tomavam. Perdido o perfume que possuíam, recebei-as novamente, porque para um nobre coração, os mais ricos presentes tornam-se pobres quando aquele que oferece o presente já não mais demonstra afeto. Ei-los aqui, meu senhor!
Hamlet – Ah, ah! És honesta?
Ofélia – Meu senhor!
Hamlet – E bela?
Ofélia – Que quer Vossa Alteza dizer?
Hamlet – Que se fores honesta e bela, tua honestidade não deveria permitir nenhuma homenagem a tua beleza.
Ofélia – Meu senhor, com quem a beleza poderia manter melhor comércio a não ser com a honestidade?
Hamlet – Sim, é verdade. Porque o poder da beleza transformará a honestidade em alcoviteira, muito antes que a força da honestidade transforme a beleza à sua imagem. Outrora, isto era um paradoxo, mas agora o tempo mostra que é coisa certa. Amei-te antes...
Ofélia – Foi, na verdade, meu senhor, o que me fizeste acreditar.
Hamlet – Não deverias ter acreditado em mim, pois a virtude não pode ser inoculada em nosso velho tronco sem que nos fique algum mau ressalto. Eu não te amava.
Ofélia – Tanto maior foi minha decepção.
Hamlet – Entra para um convento. Por que desejas ser mãe de pecadores? Quanto a mim, sou relativamente honesto e, contudo, de tais coisas poderias acusar-me, que melhor seria que minha mãe não me tivesse posto neste mundo. Sou muito orgulhoso, vingativo, ambicioso, com mais pecados na cabeça do que pensamentos para concebê-los, fantasia para dar-lhes forma ou tempo para executá-los. Por que hão de existir pessoas como eu para se arrastarem entre o céu e a terra? Todos nós somos
consumados canalhas; não te fies em nenhum de nós. Segue teu caminho para o convento.

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