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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Lepidópteros

Lepidópteros - termo cunhado por Sá-Carneiro e propagado pela Orpheu que indicava ora  burgueses, ora artistas que viviam mais da atitude que da obra, ou melhor, aqueles que, como mariposas, vivem da luz do outro – presos ou a ideologias, a convenções sociais ou convicções artísticas. Parece que há uma gradação entre todos estes casos, um gap entre os lepidópteros artistas e aqueles que chafurdam na boçalidade lepidóptera, mas a Rapariga aqui ainda não leu o suficiente das Cartas (ou das obras do Mário de Sá-Carneiro) para poder explicar.

(...) como eu no fundo abominava essa gente - os artistas. Isto é, os falsos artistas cuja obra se encerra nas suas atitudes,  que falam petulantemente, que se mostram complicados de sentidos e  apetites,  artificiais, irritantes, intoleráveis. Enfim, que são os exploradores da arte apenas no que ela tem de falso e de exterior.

A confissão de Lúcio, Mário de Sá-Carneiro

domingo, 19 de outubro de 2014

[Não posso adiar o amor para outro século]

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
António Ramos Rosa 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Al Bertianas

"Desatar a escrever" ou "simular a espera" são saídas de escape ao real, maneiras de evitar o real, de o denegar.
...
Soube que o deserto, o meu deserto, se esconde inevitavelmente dentro de mim. Nele circulam ecos de vozes mais antigas que a minha, e umas mãos de âmbar nocturno tocam incomensuráveis areias.
...
A estrada é uma concepção que não se realiza. Não é um princípio sem fim, é apenas meio, que é sempre o lugar onde me sinto, no meio de alguma estrada mental.




sábado, 17 de novembro de 2012

A cidade esquecida

Ela disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele disse: Sou um rio.

Ficaram em silêncio à janela
cada um à sua janela
olhando a sua cidade, o seu rio.

Ela disse: Não sou exactamente uma cidade.
Uma cidade é diferente de uma cidade
esquecida.

Ele disse: Sou um rio exacto.

Agora na varanda
cada um na sua varanda
pedindo: Um pouco de ar entre nós.

Ela disse: Escrevo palavras nos muros que pensam em ti.
Ele disse: Eu corro.

De telefone preso entre o rosto e o ombro
para que ao menos se libertassem as mãos
cada um com as suas mãos libertas.
Ela temeu o adeus, disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele riu.

Filipa Leal, A Cidade Líquida e Outras Texturas

terça-feira, 29 de maio de 2012

Os loucos muitos
é a mão do sol
que lhes coça a cabeça
lhes estende o lençol

Passam coruscantes
com os seus cães atrás
a fazer os recados
que ninguém faz

Ou presos da miragem
à tarde estão
de cócoras redigindo
o pó do chão


Poesia, Luiza Neto Jorge em

domingo, 20 de maio de 2012

"Se um tipo sabe muito, sabe o suficiente para saber o que as mulheres são.
As mulheres são umas víboras.
Pior que elas não conheço.
Gosto delas quando estão caladas, mas fora disso as coisas
complicam-se.
Uma mulher bonita e calada é o paraíso, mas quando começa
a falar e a querer analisar tudo, tintim por tintim, então
começamos a aproximarmo-nos rapidamente do inferno.
Quando a mulher começa aos gritos então chegámos mesmo lá.
É o inferno.
Por causa do tom de voz que utilizámos uma mulher é capaz
de resmungar durante 3 dias.
O homem, pelo menos, é mais prático.
Depois de uma boa refeição, qualquer tom de voz
é maravilhoso.
As mulheres não entendem isso.
Complicam as coisas.
Estão sempre a perguntar:
--Mas tu não me amas, não é?
É claro que não.
Mas não lhes podemos dizer.
Se o disséssemos elas deixariam logo de nos amar.
Era imediato.
Por isso, o melhor é ir adiando a questão. Não dizer a verdade.
De refeição em refeição até a refeição final.
É este o meu lema.
Acabaram-se os ovos?
Já não fazes aquele arroz bom?
Aquelas saladas? Dá muito trabalho?
Então, chegou a hora de partir.
Pegamos, pois, no casaco ( é preciso não esquecer o casaco)
e saímos à procura de um restaurante.
É assim que acabam as relações.
Os homens saem à procura de um restaurante novo.
É quase sempre assim.
Vêm nos livros."

Gonçalo M. Tavares, O homem ou é tonto ou é mulher

segunda-feira, 19 de março de 2012

In that troubled water


Lendo as cartas do Mário de Sá-Carneiro, tenho tanta vontade de lhe dizer: sumir não é garantia de não sentir. Nunca foi.