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terça-feira, 17 de março de 2015

As mulheres de Francesca

Quase como um statement do feminino. O corpo escorre em traços contínuos, fluidos - ilusórios - camuflando-se no background como um objeto decorativo, imóvel - porém pulsando em movimento. Desnudando-se para a câmera, as mulheres de Francesca transcendem o real e secretam, ante o observador atônito, a seiva de uma vida interior, hipnótica e turva. Os flashes de luz captam relâmpagos da psiche aflorando à superfície da pele. A psiche difusa, silente, fugidia.





A mulher erva daninha, intensa e inteira, sublunar. Quieta e escura como a pérola, que se desenvolve lenta e anônima no interior ósseo das ostras. A mulher sem nome, que empresta seu corpo ao ethos do ambiente, deixado-se invadir pelas rugas da parede, a poeira do chão, a casa em ruínas. Que, como mariposa noturna, se deixa confundir com a textura rugosa dos troncos de árvores - para preservar de olhares, mãos e prisões, o seu viver subterrâneo.



A Francesca Woodman imprime, no filme fotográfico, imagens do feminino inconsciente que encanta, envenena, enlouquece o observador e o modelo. Seus retratos caminham da exploração tátil do corpo e do entorno para a gradual fusão entre os dois. Testemunhando, em imagens simbólicas, toda violência desse "encontro".
Essas femmes nos surpreendem num segundo de deslocamento do vazio à volta, que ocupa, preenche e possui, infalivelmente, toda os sítios da sua alma. Elas nos olham no milésimo de segundo antes da destruição, quando irão cumprir o destino da lenta dissolução e desaparecimento.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

E o que não passa

Há potes com mel e água espalhadas pelas ruas. São armadilhas para as abelhas, ele diz. Um menino desce da bicicleta na minha frente, sua voz de castrattio rindo me dói nos ouvidos. Nota a minha presença e faz caretas- eu sorrio, desarmando-o. Rapazes da terra descem das motos, bebem, fumam e tiram fotos de si próprios com o celular. Os velhos descem dos carros, param nos cafés e bebem e fumam, contam histórias de si próprios uns aos outros, as mesmas dos seus pais. De seus filhos. De seus avós. É verão, o sol só cai às 20h. Os sinos tocam de 30 em 30 minutos, marcando um passar da tarde que não passa. As crianças circulam cadeiras, se movem aos saltos, - as crianças não passam. Os rostos são os mesmos - dos velhos, jovens, viúvas e jovens esposas - o mesmo ar repousado de quem não deseja além das montanhas.

Os queijos, os legumes são fortes - o ar é puro, respiramos profundamente e descansamos os olhos pelos alpes, até perder de vista os cumes dos montes. Uma menina de saia de filó verde corre por entre as mesas -- I'm sorry daddy, ela repete rindo e saltitando -- lembro dos faunos da estrada, que só apareceram no aviso das placas, lembro dos contos de fada - rosa vermelha, rosa branca, flores que aqui crescem como arbustos em cada canto, como nas histórias do livro "O mundo da criança". Meu preferido, quando me escondia no armário da minha mãe para ler tranquila. A menina usa tranças e agora corre repetindo Grazie. E eu penso em uma menina pequena correndo num quintal, e sinto nas mãos as suas tranças, e sorrio.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Reconheço na fotografia a fachada da casa dela. De repente volto à sua terra natal, a cor castanha queimando a pele da paisagem, o ar quente e seco do final de verão sem água. O céu costurado de estrelas no terraço, o céu maior do que nós. Eu não podia mais amá-la, mas era impossível conter. A ternura. Molhando os olhos. Ela passava e era impossível conter. Ela era a mesma, a casa também, Ninguém mais era o mesmo. A casa não existe mais, se apagou na poeira vermelha da estrada. Pelo ângulo, a a fotografia foi tirada exatamente do ponto em que o carro chegava da estrada e se aproximava da casa. Era o seu olhar ali na foto, quando o coração batia mais forte por estar chegando. A imagem era linda, e era impossível conter.