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sábado, 3 de junho de 2017

Resumo

There’s nothing to be gained by remaining locked inside yourself, but not much is happening around you either.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

toska

Nabokov, sobre a intraduzível toska.
Dar nome aos bois sempre ajuda - ainda que seja em russo.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Outro dia me perguntava o que encontraria se pesquisasse a fundo a origem dessa relação com a escrita. E pensei que podia ser algo tão simples como a solidão -- se ela não fosse tão omnipresente desde tão cedo,  será que haveria espaço para essa relação, nestes moldes? Depois de horas sem a voz do Outro para reorganizar os pensamentos -- eles se diluem na atmosfera vazia e porosa ao meu redor. Depois de horas cedo e traço qualquer coisa no papel -- traço alguma estrutura.

Ou, contra o tédio, o êxtase:

"Por outro lado, a solidão actua também como um filtro. O que se escreve no dia seguinte é mais do que uma enumeração de impressões; durante a noite, o êxtase demarca-se do quotidiano pelos seus belos contornos prismáticos, forma uma espécie de figura e é mais facilmente rememorável. Diria que se contrai e assume a forma de uma flor.
Para nos aproximarmos dos mistérios da felicidade no êxtase teríamos de reflectir sobre o fio de Ariadne. Que prazer no simples acto de desenrolar um novelo! Um prazer que tem afinidades profundas, quer com o êxtase, quer com o da criação. Avançamos, mas, ao avançar, não só descobrimos os meandros da caverna em que nos aventurámos, como também desfrutamos dessa felicidade do descobridor apenas através daquela outra que consiste em desenrolar um novelo. Essa certeza que nos é dada pelo novelo engenhosamente enrolado que nós desenrolamos -- não será essa felicidade de toda a produtividade, pelo menos daquela que tem forma de prosa? E no haxixe somos seres de prosa e de prazer da mais alta potência."

Sobre o Haxixe e outras drogas, Walter Benjamin, trad. João Barrento

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Al Berto [11-01-1948 — 1997]



Eis a noite onde esqueço a vida e cismo sobre aquilo que ainda não sonhei. E aceito como único presságio a melancolia aérea das açucenas. aceito como único consolo a desolação imensa dos teus braços. aceito, aceito como único calor o da tâmara crescendo no deserto, aceito como único vício aquele cuja pele ainda não toquei. aceito como única noite a das searas do fundo do mar. aceito como única fala possível aquela que é susceptível de rasgar pulsos. aceito como único corpo aquele que não cresceu dos relógios do mundo. Aceito, aceito como único sonho aquele espelho onde te reflectes e me encontro. aceito a humildade de viver sozinho, a vergonha dos desejos insatisfeitos, a noite que me devora, aceito, aceito estas paredes, estes objetos, este sol, esta varanda, este mar, estes braços, estas mãos, este sexo, estes dedos, aceito, aceito, estes peixes de enxofre estatelados sobre a mesa, estas visões de catástrofe, estes sonhos premonitórios, estas luzes surgindo na pele, aceito, esta dor que me morde, esta escrita, este coração, estas doenças, estes cabelos, a escassez da fala, este silêncio cada dia maior e mais perturbador, aceito esta cadeira, este livro, este nome, estes olhos esmagados pela insónia, esta cama vazia, este frio, aceito, aceito, aceito esta janela, esta música de vísceras, esta faca, este sussurro, esta ausência, esta imagem desfocada, esta gravata adolescente, este sismo, este grito, estas coxas sujas de esperma, esta comida, estes cigarros, estes cadernos rabiscados que não servem para grande coisa, aceito, aceito a inutilidade de viver, de morrer, de estar aqui, de me deslocar, de permanecer, de fugir, de esperar, aceito, aceito a inutilidade de me reconhecer e de amar, a inutilidade dos dias, aceito, aceito o marulhar lodoso da alma, aceito não ter projetos nem querer construir uma pátria, aceito, aceito o vazio imenso das algibeiras, a dor das mãos percorrendo um corpo, aceito o caos e esta mosca que não encontra saída e morre no calor da lâmpada, aceito, aceito estes ossos, esta loucura que me assola lentamente, lentamente, aceito ficar louco, inconsciente, indefeso, aceito a tristeza que me ofereces, a pouca água que me é necessária, aceito, aceito nunca mais me lembrar de mim e viver pobre, aceito nunca mais te tocar nem acreditar em deus, aceito, aceito não possuir nada, não querer nada, aceito, aceito nunca mais aqui voltar, nunca mais.

Al Berto, "O medo"

domingo, 21 de junho de 2015

I rest my case

– O que houve, Cristina? Você parecia tão alegre na festa de ontem, que cara é essa?
– Uma amiga mãe, com quem eu não tinha contato há uns dois anos. Matou-se. Não tinha nem trinta anos...
– Mas você só arruma amiga doida, heim...
–....

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Aniversários

Lembro de um aniversário – tinha acabado de chegar a Lisboa – e ainda não tinha amigos. Só a Raquelzinha. Eu comprei um bolo pequeno, acendi uma velinha – fiz um pedido sozinha na minha cama. Depois joguei o bolo fora. Naquela época eu ainda não comia.
Hoje o dia começou bem. Acordei a tempo para a aula e conversei com a professora, que gostou do meu projeto. Cheguei a casa e escrevi mais e mais para o outro trabalho, tentando justificar a mim mesma que é essa a história que precisa ser contada, que não tenho como fugir. Depois adormeci espontaneamente; acordei com a Odete me pedindo comida, me pedindo para sair.
Cuidei da pequena. Saímos na chuva e, na volta, fiz comida para ela – acabou a ração. Voltei para o computador para adiantar o freela. E as horas foram passando.
Não é o primeiro aniversário que passo sozinha. Também não é o primeiro em que não sinto que deva comemorar. Há tanta coisa que tenho feito errado. Tanta coisa que tenho me esforçado mas que, simplesmente, não consigo fazer. Se a intenção é o que conta, já deveria ter saído dessa roda de samsara – mas pelo jeito o resultado é mais importante que o esforço. Mas eu não me importo.
Seco as lágrimas. Sei que vai ficar tudo bem. Nem que minha vida seja apenas um quarto solitário e muitas histórias para escrever, eu vou ficar bem. Se conseguir cumprir as tarefas diárias, não desapontar mais ninguém e ainda escrever, o que mais posso pedir da vida? Amor?

Ora, nem todo mundo nasceu pra ser alto, loiro, gordo ou magro. Nem todo mundo nasceu pra ser amado também. É como as coisas são – não vale a pena se revoltar e brigar por achar que se merece alguma coisa. É pura perda de tempo e energia.

Prefiro escrever. Alimento o papel com meu pulso e ele me alimenta de volta, preenchendo o coração. Deve haver mais do que isso, claro. Crianças, amigos, amantes, cachorros. Mas o papel e as palavras, por ora, são o bálsamo que enche de ternura qualquer ponto doído do coração.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O que temos pra hoje


Vinte minutos caminhando com a pequena até o parCão = 5 minutos andando e quinze restantes carregando Odete no colo, com a língua já torta com tanto calor. Penso que não deveria ter trazido ela, que sou uma péssima mãe/dona, que as suas patinhas devem estar queimadas pelo sol – puxo sua cabecinha para o meu peito e corro com seus 4 quilos no colo, enquanto as pessoas sorriem da overdose de ternura na ciclovia da Lagoa.
Enquanto as pessoas riem.
Riam dele, com certeza. Ririam menos se já o conhecessem – um maluco "local" e mapeado sempre impõe respeito. Hoje o dia fez sol e calor e o feriado encheu a Cobal de pais e mães jovens cnchendo a cara enquanto os filhos brincavam com bolhas de sabão. Sim. Um senhor vendia um porco falante que cantava apitava e soltava bolinhas de sabão a uma velocidade assustadora – arco-íris de bolas de diversos tamanhos se formavam enquanto as crianças guerreavam apontando porcos e atirando bolhas e gritos umas contra as outras. Até que passei por ele.
Ali, sentado no chão. Sozinho e em silêncio.
Desde pequena coleciono "malucos". Entre aspas mesmo, vários, e não sei ao certo se são/foram nada disso. Em qualquer lugar do mundo descubro logo os loucos locais: anoto mentalmente seus hábitos e spots preferidos, fico em pânico quando um deles desaparece. O loirinho que pedia esmolas na linha de Cascais; o P. Tomé, que ouvia música nos fones e cantava alto incomodando todos os outros passageiros. Até hoje procuro pelo senhor que morava no prédio ao meu lado, bebia bohemia de manhã com os mendigos e às vezes dormia com eles na rua – eles continuam ali, firmes fortes e sempre os mesmos, e meu coração ainda vacila quando lembro que ele não está.  Mas esse que estava na Cobal: desse sei o nome e endereço, nunca me preocupou de verdade – ele é seguido por um hospital, trabalha numa cooperativa, enfim, é alguém com casa, comida, produção e algum acolhimento na sociedade. Mas hoje.
Hoje as crianças guerreavam com bolhas de sabão e ele não via. E as crianças não o viam ali, sentado no chão sozinho, olhos e dedos traçando desenhos num caderno, alheio ao de fora.
Disfarcei e tentei observar o desenho, formas disformes, mas não tive coragem de me aproximar e elogiar. Seria como quebrar uma mágica. Eu deveria sentar e ler e esperar até ele terminar o desenho, e só depois me aproximar e dizer que era bonito e que gostava muito. Dele. Do que ele desenhava. Dizer que estava feliz por vê-lo inteiro no meio da guerra, peito aberto desenhando com dedos e coração e sem se deixar esmagar.
[Dizer que o admirava porque eu não conseguia. Não naquela tarde.]
Acordei e o sol era tanto que nublava a vista. Abutres rondavam a lagoa em busca de sabe-se lá o que quando saí de casa, já com esse aperto no peito. O telefone tocando, eu atendo, o silêncio responde. A tv que não sei ligar. Meu corpo, que me afasta no espelho.  O cabelo cada vez mais loiro sem que eu faça ideia de como. As horas passando e eu sem conseguir visitá-lo no hospital, sem coragem para ligar para o outro lado do Atlântico. Eu desmarcando dates por perceber que no fundo só quero um abraço.
Já estive tantas vezes sentada nesse chão alheia ao mundo escrevendo. Agora que meu corpo tem formas, ficou mais difícil escrever em lugares públicos. Sempre olhares gulosos e comentários que me fazem sentir uma pin up sem a menor pretensão. Só me fazem chorar à noite e sonhar pela invisiblidade novamente. Ou por uma admiração/ aproximação que veja mais do que curvas ou a ausência delas. Talvez nunca haja, minha analista diz. Abafo minha escrita debaixo do travesseiro. Como se gritasse debaixo dágua. Talvez os peixes possam entender.
E esse aperto no peito. Tanto, que fiz como as crianças – comprei um máquina de fazer bolas de sabão. Quando fica insuportável, atiro – a boca do dinossauro rosa se abre numa luz pulsante, golfando bolas e bolinhas fluidas ao som de uma canção ridiculamente estridente.
É o que temos para hoje. É o que está nas nossas mãos nestes dias.

Hazy, hazy days, you know?



domingo, 29 de março de 2015

Aquelas histórias clássicas de pessoas trancadas em casas e igrejas que pegam fogo, caves e subsolos que inundam. Você sente a fumaça, o cheiro, o pânico, não sabe quando será -- só sabe que não irá demorar muito. Você sabe que não há para quem rezar, para onde fugir nem pelo que esperar. Você concentra todo o seu ser na tarefa de conseguir passar pelo momento das chamas queimando a pele, das ondas encharcando o pulmão. Você não tem fuga e só pensa em como pode fazer para suportar o momento, sabendo que depois só há o abismo -- não há nada depois.

Zeit ist Raum | Zeit ist Traum | Zeit ist Trauma




DIE WEISSE FÜRSTIN

Du liebe kleine Schwester, sei nicht bange;

bedenke, das ist alles unser Traum;

da kann das Kurze lang sein, und das Lange

ist ohne Ende. Und die Zeit ist Raum.

sexta-feira, 27 de março de 2015

O mais fiel


Das primeiras vezes o medo, o pânico palpável no frio do estômago, o nó nos pulsos – ele vem e me invade, esmaga, esvazia – tudo sai do lugar, as coisas caem ao chão e desabam como eu, sem ar. Como onda ele vem e vai, ele sempre volta. Como onda que quebra, tragando tudo para um ventre vórtice aquático, cuspindo na costa o que não lhe interessa: seixos, meu corpo e outros restos de naufrágio – o que sobrou?

Das primeiras vezes o terror do Tsunami, o horizonte de águas escuras engolindo o mundo, o medo para além de qualquer fé. Até que um dia, habituada ao escuro, ficou mais claro o movimento das marés: a correnteza tranquila sabe o momento exato, e aguarda, atenta – como o olhar fixo dele, como o de mais ninguém. A banhista na praia reluta em crer, disfarça, se diverte contando barquinhos no horizonte, estrelas do mar – eu resisto, até que distraída me pego olhando para o espelho das águas, ajeitando a mecha de cabelo na orelha nua, sem brincos, oferenda inteira pra ele. Ele que sempre volta: o mais fiel, aquele que insiste e persiste, como o mar quebrando na costa destruída.

Ele aquele que resiste, que me invade, que me ocupa quando não há mais porquê estar em mim – quando não há som nem luz e todos já desistiram, quando todos já foram embora. Depois do mergulho forçado levanto lentamente, limpo as algas do corpo doído, procuro na areia o que a sua fome poupou.

E encontro. Pequenas conchas num branco de opala, madrepérola suave cheia de curvas em cores pastéis tatuadas, o brilho da água nas pedras. E encontro, sempre.

terça-feira, 17 de março de 2015

As mulheres de Francesca

Quase como um statement do feminino. O corpo escorre em traços contínuos, fluidos - ilusórios - camuflando-se no background como um objeto decorativo, imóvel - porém pulsando em movimento. Desnudando-se para a câmera, as mulheres de Francesca transcendem o real e secretam, ante o observador atônito, a seiva de uma vida interior, hipnótica e turva. Os flashes de luz captam relâmpagos da psiche aflorando à superfície da pele. A psiche difusa, silente, fugidia.





A mulher erva daninha, intensa e inteira, sublunar. Quieta e escura como a pérola, que se desenvolve lenta e anônima no interior ósseo das ostras. A mulher sem nome, que empresta seu corpo ao ethos do ambiente, deixado-se invadir pelas rugas da parede, a poeira do chão, a casa em ruínas. Que, como mariposa noturna, se deixa confundir com a textura rugosa dos troncos de árvores - para preservar de olhares, mãos e prisões, o seu viver subterrâneo.



A Francesca Woodman imprime, no filme fotográfico, imagens do feminino inconsciente que encanta, envenena, enlouquece o observador e o modelo. Seus retratos caminham da exploração tátil do corpo e do entorno para a gradual fusão entre os dois. Testemunhando, em imagens simbólicas, toda violência desse "encontro".
Essas femmes nos surpreendem num segundo de deslocamento do vazio à volta, que ocupa, preenche e possui, infalivelmente, toda os sítios da sua alma. Elas nos olham no milésimo de segundo antes da destruição, quando irão cumprir o destino da lenta dissolução e desaparecimento.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Corpo da escrita

Talvez não possa falar do trauma porque esse exige um período de latência. Talvez possa falar de choque. Das fissuras que abre, que inscreve no fluxo narrativo. Das fendas, quedas e saltos, que se recortam na travessia tensa da leitura. Do silêncio, da recusa em dar nome e forma ao que se sente e não tem nome -- deixando o que se sente contaminar, letra por letra, o papel, a pele, o corpo.

head vs heart


Acordava e a cabeça dizia pelo menos

À noite, deitava e o coração suspirava tanto faz

Vê onde pisas




Vê onde pisas
Ao caminhar, sentiu pisar
algo que lhe amorteceu
o passo, e lhe transmitiu



aos músculos uma sensação
quase agradável, não fosse
aquele arrepiante,


súbito ruído cartilagíneo. Vê.
Um pequeno pássaro
esmagara-se-lhe sob o pé.


Verso Antigo, Luís Quintais

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cidade que aperto, batendo as asas - ela

Nunca tinha me acontecido, mas há sempre uma primeira vez: sonhei com um poema. Não meu, obviamente. Sonhei que lia Herberto Helder, e o poema falava de flores e cidades. Acho que o poema que eu lia não existia. Ainda. Mas este aqui  fala de tudo isso e muito, muito mais do que o meu inconsciente sequer poderia abarcar.

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.


Herberto Helder

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Celan Style

A chuva corta a vidraça, cai abrupta pelo quarto – estico as costas no porcelanato frio, costela a costela chocando-se com o chão. Tentar reter a chuva aqui. Seu ruído constante pontilhando cores dentro de nós. Die Farben fahren, navegam o corpo, tingindo as veias, percorrendo o universo pálido da pele. Queimam em tons pastéis. Concentro-me na chuva – a sensação escapa com as gotas que saltam para o chão, magoando o rosto sem dó, magoando, negligente. Escorrendo escuras como as palavras, que afagam como lâminas, suaves e cegas sobre o papel.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A cada manhã, ao acordar, eu me digo

Chaque matin, au réveil, je me dis : « N’accorde à ta pensée aucun crédit. Enregistre et note.
« Et je traque tout ce qui s’offre — ou se cache — à la vue. Impitoyablement.
« Par paresse ou désintéressement, je ne note pas toujours. Il faut apprendre à écrire avec des mots gorgés de silence.
« Tout livre n’est-il la cocasse ou tragique histoire de la perte d’un livre ?
« Un jeu, certes. Ne m’arrive-t-il pas d’oublier qui se suis et où je suis ?
« Je viens d’un autre pays ; c’est, bien évidemment, pour cela.
« Je me souviens, cependant, que lorsque je vivais encore dans la patrie de mon enfance, j’avais le sentiment de venir d’ailleurs, d’une autre cité, d’un autre continent, sans jamais arriver à préciser lesquels.
« Ignorer d’où l’on vient, c’est presque avouer venir de nulle part. Mais cela est ridicule.
« Je me taisais. Je faisais comme si…
« Je suis un silencieux. Je me demande, grâce au recul que je prends, maintenant, avec ma vie, si ce goût prononcé par le silence n’a pas son origine dans la difficulté qui, de tout temps, fut la mienne, de me sentir d’un quelconque lieu.
« Avant de connaître le désert, je savais qu’il était mon univers. Seul le sable peut accompagner une parole muette jusqu’à l’horizon.
« Écrire sur le sable, à l’écoute d’une voix d’outre temps, les limites abolies. Voix violente du vent ou, immobile, de l’air, cette voix vous tient tête. Ce qu’elle annonce est ce qui vous agresse ou écrase. Parole des abyssales profondeurs dont vous n’êtes que l’intelligible bruit ; la sonore ou l’inaudible présence.
« S’il fallait une image au Rien, le sable nous la fournirait. Poussière de nos liens. Désert de nos destins.
« Pour le déraciné, l’arbre est un élément du paysage qui ne le retient pas.
« Pierres anonymes, des édifices s’élèvent à la gloire de l’anonymat, Ô villes, où je flâne en quête de mon arrière passé, le lisant dans chaque blessure révélée par l’épaisseur des murs fissurés. Vos pierres que ciment e chaux bâillonnent m’ont, malgré vous, reconnu ; car, comme moi, elles ne sont pas d’ici e ne se souviennent que de la nuit, humide et compacte, d’où elles furent extraites.
« J’ai vécue d’errance, comme le capitaliste de ses rentes, ayant, de mes ancêtres, hérité d’une terre hostile. Ajouterais-je qu’elle fut, dans son hostilité, peut-être, mon seul bien ?
« Étranger, seul un mode étranger pouvait être le mien. »


Edmond Jabès, Un étranger, avec, sous le bras, un livre de petit format, Paris, Gallimard, 1989, pp. 32-33

terça-feira, 4 de março de 2014

à deriva


"Recovery is being able to walk in spring and feel the warmth of the sun and not be wrapped in winter clothes, because you are cold.
Recovery is being able to enjoy new and old activities with friends.
Recovery is setting yourself new goals and challenges where others can appreciate your talents and everything you have to offer.

Recovery is living life to the full." (daqui)

Ao que eu completo, sem romantismo deepack chopriano.
A verdade é que tentar se recuperar é estar sozinho. Muito mais do que antes. Isolado num mundo que as pessoas só podem observar de longe, seja por medo, pudor, raiva, pena. 
Tentar se recuperar é lutar 24 horas para executar as tarefas mais básicas do ser humano, deixando na geladeira aquelas em que você sempre se destacou e amou e que te preenchem emocionalmente  -- no meu caso, trabalho, escrita, estudo, amigos. É despender 90% do oxigênio para levantar da cama e funcionar saudavelmente, e ver com tristeza que não sobra energia para o que mais se ama.
É se ver rodeada de expectativas ao mais breve sorriso, é desapontar a todos no primeiro tropeço (mas você estava indo tão bem!). É chorar perplexa ao ganhar um abraço de um desconhecido na rua -- há quanto tempo não te tocam? Quanto tempo um ser humano aguenta sem um abraço e amor pra seguir em frente?
É estar sozinha mas ter esperança. É ser movida diariamente por uma esperança qualquer, que tem que ser alimentada (sim, até ela!) 24 horas por dia, como toda fé.

Pelo contrário, desistir ( ou resistir?) é reunir toda a energia e focar naquilo em que sempre nos destacamos, aquilo que sempre nos fez feliz e aos outros. É voltar a trabalhar com afinco, escrever com ânsia, estar 100% para amigos, família, amores.  É vê-los sorrindo de volta tranquilos, certos de que, se o nosso resultado é exemplar em tudo isso, é porque finalmente estamos bem. Sim, envolve sentir muito frio, muita dor, mas só quem sente somos nós -e dá para aliviar com casacos, cobertores, almofadas, remédios. É poder receber abraços inteiros e verdadeiros diariamente, porque afinal está tudo bem.

Quando alguém desiste/resiste, abdica em esperança o que ganha em lucidez.

Uma vez li num conto de alguém que não me recordo o nome-- "Tarja preta" era o título do livro -- que o mais importante era pagar as contas e deixar tudo limpo ao sair de casa. Que você podia fazer o que quisesse para aliviar a própria dor, desde que conseguisse bancar - manter as contas em dia e a casa em mínima ordem. Que só se você não conseguisse manter esse mínimo, os outros te considerariam um problema e iriam querer intervir.

A primeira vez que melhorei mesmo, tinha alguém do meu lado que me apoiou e ajudou 100%. Não foi difícil - eu tinha que estar boa e inteira para aquela relação, e não há maior estímulo que isso.
Agora dizem que tenho que lutar sozinha e por mim mesma.
Ninguém sabe me dizer, consistentemente, porquê.