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sábado, 28 de julho de 2012

"Oliveira deu-se conta de que o regresso era verdadeiramente a partida, em mais de um sentido. (...) De início, Traveler critivara sua mania de achar tudo ruim em Buenos Aires, de chamar a cidade de puta empetecada, mas Oliveira explicou a ele e a Talita que, nessas críticas, havia uma quantidade de amor que somente dois tarados  como eles poderiam entender erroneamente suas frases. Acabaram por compreender que tinha razão, que Oliveira não podia reconciliar-se hipocritamente com Buenos Aires e que, agora, estava muito mais longe do país do que quando andava pela Europa. Só as coisas simples e um pouco antigas lhe faziam sorrir: o mate, os discos de De Caro, às vezes o porto ao cair da tarde."

O jogo da Amarelinha, Cortázar

Puta empetecada é perfeito, mas nunca se aplicaria ao Rio de Janeiro. O Rio está mais para uma puta Osklen, aspirante a Calvin Klein, com aquelas roupas básicas, caríssimas e totalmente sem graça. Que só servem para sobressair o que a mulher carioca verdadeiramente tem de melhor -- o corpão, o gingado, o bronzeado. Os cabelos longos e lisos, depois de horas de formol e progressiva para um ar natural.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Existem rios metafísicos, ela nada por eles como aquela andorinha está nadando pelo ar, girando alucinada, em torno do campanário, deixando-se cair para melhor levantar com o impulso. Eu descrevo e defino e desejo esse rios; ela nada por eles. Eu os procuro, os encontro, olho-os da ponte, e ela nada por eles. E, sem o saber, igualzinha à andorinha. Não precisa saber, como eu; pode viver na desordem sem que nenhuma consciência de ordem a retenha. Essa desordem é a sua ordem misteriosa, essa boêmia do corpo e da alma que lhe abre de par em par as verdadeiras portas. A sua vida não é desordem, a não ser para mim, enterrado em preconceitos que eu desprezo e respeito ao mesmo tempo. Eu, condenado a ser absolvido irremediavelmente pela Maga, que me julga sem saber. Ah, deixa-me entrar, deixa-me ver algum dia da mesma forma como veem os teus olhos.
Inútil. Condenado a ser absolvido. Voltar para casa e ler Spinoza. A Maga não sabe quem é Spinoza. A Maga lê romances intermináveis de russos e alemães e Peréz Galdós e os esquece imediatamente. Nunca suspeitará que me condena a ler Spinoza. Juiz incrível, juiz por suas mãos, por sua corrida em plena rua, juiz por apenas me olhar até me deixar nu, juiz por ser boba e infeliz e desconcertada e vagabunda e menos do que nada. Por tudo isso que sei pelo meu amargo saber, com a minha podre experiência de universitário e homem esclarecido, por tudo isso, juiz. Cai, andorinha, com essas asas que recortam o céu de Saint-Germain-des-Près, arranca esses olhos que olham sem ver, estou condenado sem apelo, pronto para esse cadafalso azul para onde me alçam as mãos da mulher cuidando do seu filho, pronta a sentença, pronta a ordem mentida de estar só e recuperar a suficiência, e a egociência, a consciência. E, com tanta ciência, uma inútil ânsia de ter pena de alguma coisa, de que chova aqui dentro, de que por fim comece a chover, a cheirar a terra, a coisas vivas, sim, finalmente, a coisas vivas.

O Jogo da Amarelinha, Cortázar