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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Versinkende Sonne - Noturno 2

Versinkende Sonne, Egon Schiele
You call this painting just a sunset…. Looking at this work, however, one would have to say, with all the appropriate melancholy, that the sun is sinking. It’s already grown dark and cold in the foreground, and every leaf on the twigs has grown stiff from the cold. And before such a deeply melancholic sky, which no artist before Schiele ever painted in such a way, I am even moved to ask: will this sun, which is just departing, ever return?”  -- Rudolf Leopold


sexta-feira, 5 de junho de 2015

O que temos pra hoje


Vinte minutos caminhando com a pequena até o parCão = 5 minutos andando e quinze restantes carregando Odete no colo, com a língua já torta com tanto calor. Penso que não deveria ter trazido ela, que sou uma péssima mãe/dona, que as suas patinhas devem estar queimadas pelo sol – puxo sua cabecinha para o meu peito e corro com seus 4 quilos no colo, enquanto as pessoas sorriem da overdose de ternura na ciclovia da Lagoa.
Enquanto as pessoas riem.
Riam dele, com certeza. Ririam menos se já o conhecessem – um maluco "local" e mapeado sempre impõe respeito. Hoje o dia fez sol e calor e o feriado encheu a Cobal de pais e mães jovens cnchendo a cara enquanto os filhos brincavam com bolhas de sabão. Sim. Um senhor vendia um porco falante que cantava apitava e soltava bolinhas de sabão a uma velocidade assustadora – arco-íris de bolas de diversos tamanhos se formavam enquanto as crianças guerreavam apontando porcos e atirando bolhas e gritos umas contra as outras. Até que passei por ele.
Ali, sentado no chão. Sozinho e em silêncio.
Desde pequena coleciono "malucos". Entre aspas mesmo, vários, e não sei ao certo se são/foram nada disso. Em qualquer lugar do mundo descubro logo os loucos locais: anoto mentalmente seus hábitos e spots preferidos, fico em pânico quando um deles desaparece. O loirinho que pedia esmolas na linha de Cascais; o P. Tomé, que ouvia música nos fones e cantava alto incomodando todos os outros passageiros. Até hoje procuro pelo senhor que morava no prédio ao meu lado, bebia bohemia de manhã com os mendigos e às vezes dormia com eles na rua – eles continuam ali, firmes fortes e sempre os mesmos, e meu coração ainda vacila quando lembro que ele não está.  Mas esse que estava na Cobal: desse sei o nome e endereço, nunca me preocupou de verdade – ele é seguido por um hospital, trabalha numa cooperativa, enfim, é alguém com casa, comida, produção e algum acolhimento na sociedade. Mas hoje.
Hoje as crianças guerreavam com bolhas de sabão e ele não via. E as crianças não o viam ali, sentado no chão sozinho, olhos e dedos traçando desenhos num caderno, alheio ao de fora.
Disfarcei e tentei observar o desenho, formas disformes, mas não tive coragem de me aproximar e elogiar. Seria como quebrar uma mágica. Eu deveria sentar e ler e esperar até ele terminar o desenho, e só depois me aproximar e dizer que era bonito e que gostava muito. Dele. Do que ele desenhava. Dizer que estava feliz por vê-lo inteiro no meio da guerra, peito aberto desenhando com dedos e coração e sem se deixar esmagar.
[Dizer que o admirava porque eu não conseguia. Não naquela tarde.]
Acordei e o sol era tanto que nublava a vista. Abutres rondavam a lagoa em busca de sabe-se lá o que quando saí de casa, já com esse aperto no peito. O telefone tocando, eu atendo, o silêncio responde. A tv que não sei ligar. Meu corpo, que me afasta no espelho.  O cabelo cada vez mais loiro sem que eu faça ideia de como. As horas passando e eu sem conseguir visitá-lo no hospital, sem coragem para ligar para o outro lado do Atlântico. Eu desmarcando dates por perceber que no fundo só quero um abraço.
Já estive tantas vezes sentada nesse chão alheia ao mundo escrevendo. Agora que meu corpo tem formas, ficou mais difícil escrever em lugares públicos. Sempre olhares gulosos e comentários que me fazem sentir uma pin up sem a menor pretensão. Só me fazem chorar à noite e sonhar pela invisiblidade novamente. Ou por uma admiração/ aproximação que veja mais do que curvas ou a ausência delas. Talvez nunca haja, minha analista diz. Abafo minha escrita debaixo do travesseiro. Como se gritasse debaixo dágua. Talvez os peixes possam entender.
E esse aperto no peito. Tanto, que fiz como as crianças – comprei um máquina de fazer bolas de sabão. Quando fica insuportável, atiro – a boca do dinossauro rosa se abre numa luz pulsante, golfando bolas e bolinhas fluidas ao som de uma canção ridiculamente estridente.
É o que temos para hoje. É o que está nas nossas mãos nestes dias.

Hazy, hazy days, you know?



quarta-feira, 6 de maio de 2015

Fotograma

Deitada no sofá, o poema na cabeça. As palavras formam de repente imagens, desenhando em fúria estradas, estações e placas com nomes de cidades longínquas. Flashes de cores estouram, num por do sol em rosa néon, laranja, malva: a luz ferindo os olhos em ruas queimando de frio, a neve enlameando as botas. Cidades de nomes com novas cores: Bratislava. Sarajevo. Vilnius. Países novos de remendos antigos; cicatrizes altas, rosadas e doídas como as minhas. Arrepiando-se ao toque. Fendas e feridas como mapas íntimos – a geografia em braile, não decifrável com os olhos.

Deitada no sofá, insisto: quero o que meus olhos não veem. As cores que desbotam, os cheiros que nos assaltam em novas esquinas, as paredes ruídas, esfarelando-se. No umbral de ir e ficar, no umbral de viver ou não, para que. No ir além do que não se sabe, do que se constrói a cada sentir.

Desolée

Da janela as árvores choram uma ramagem estranha, folhas amarelas mancham o tapete escuro do chão. O banco de madeira cheira a cola, um odor cru penetrando as narinas e correndo até o pulmão à velocidade do frio. Essa cidade não me engana: ela se move silenciosa por detrás da névoa, num passo tão lento que me canso de olhar. Essa cidade não me inspira. O que move o olhar, aqui, é o degradée -- o rouge das pedras da muralha romana, o ferrugem das folhas na porta da igreja de saint anne, o tom morango no chantilly das faces infantis -- o rosée da cidra até o aveludado bordeaux. Ou o cereja dos tomates no canteiro, entre as rosas pequeninas.
Nada me move, nada me toca nesse silêncio enregelado em que ecoam todos os passos na rua. Nada me encontra.
Essa cidade não me engana, nunca.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Anda,

Anda, vou-te mostrar a terra
dos teus pais, avós, antepassados
tão antigos que os podes escolher.
Este aqui é noé, de barba por fazer;
meteu na arca puro e impuro, bem e mal,
inventou o vinho, homem melhor
da sua geração ( não é grande elogio ),
teve filhos, netos, é de crer que morreu.
Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia.
Vês as colinas? São tuas, quando
as olhas a direito. Realmente tuas,
parte de um mundo teu.
Sim, isso são filosofias,
tens razão. ( E tem graça ao ter razão ).
Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças
onde era costume, sabes, tratar casos assim.

António Franco Alexandre, Quatro Caprichos, Lisboa, Assírio & Alvim.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cidade que aperto, batendo as asas - ela

Nunca tinha me acontecido, mas há sempre uma primeira vez: sonhei com um poema. Não meu, obviamente. Sonhei que lia Herberto Helder, e o poema falava de flores e cidades. Acho que o poema que eu lia não existia. Ainda. Mas este aqui  fala de tudo isso e muito, muito mais do que o meu inconsciente sequer poderia abarcar.

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.


Herberto Helder

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A cada manhã, ao acordar, eu me digo

Chaque matin, au réveil, je me dis : « N’accorde à ta pensée aucun crédit. Enregistre et note.
« Et je traque tout ce qui s’offre — ou se cache — à la vue. Impitoyablement.
« Par paresse ou désintéressement, je ne note pas toujours. Il faut apprendre à écrire avec des mots gorgés de silence.
« Tout livre n’est-il la cocasse ou tragique histoire de la perte d’un livre ?
« Un jeu, certes. Ne m’arrive-t-il pas d’oublier qui se suis et où je suis ?
« Je viens d’un autre pays ; c’est, bien évidemment, pour cela.
« Je me souviens, cependant, que lorsque je vivais encore dans la patrie de mon enfance, j’avais le sentiment de venir d’ailleurs, d’une autre cité, d’un autre continent, sans jamais arriver à préciser lesquels.
« Ignorer d’où l’on vient, c’est presque avouer venir de nulle part. Mais cela est ridicule.
« Je me taisais. Je faisais comme si…
« Je suis un silencieux. Je me demande, grâce au recul que je prends, maintenant, avec ma vie, si ce goût prononcé par le silence n’a pas son origine dans la difficulté qui, de tout temps, fut la mienne, de me sentir d’un quelconque lieu.
« Avant de connaître le désert, je savais qu’il était mon univers. Seul le sable peut accompagner une parole muette jusqu’à l’horizon.
« Écrire sur le sable, à l’écoute d’une voix d’outre temps, les limites abolies. Voix violente du vent ou, immobile, de l’air, cette voix vous tient tête. Ce qu’elle annonce est ce qui vous agresse ou écrase. Parole des abyssales profondeurs dont vous n’êtes que l’intelligible bruit ; la sonore ou l’inaudible présence.
« S’il fallait une image au Rien, le sable nous la fournirait. Poussière de nos liens. Désert de nos destins.
« Pour le déraciné, l’arbre est un élément du paysage qui ne le retient pas.
« Pierres anonymes, des édifices s’élèvent à la gloire de l’anonymat, Ô villes, où je flâne en quête de mon arrière passé, le lisant dans chaque blessure révélée par l’épaisseur des murs fissurés. Vos pierres que ciment e chaux bâillonnent m’ont, malgré vous, reconnu ; car, comme moi, elles ne sont pas d’ici e ne se souviennent que de la nuit, humide et compacte, d’où elles furent extraites.
« J’ai vécue d’errance, comme le capitaliste de ses rentes, ayant, de mes ancêtres, hérité d’une terre hostile. Ajouterais-je qu’elle fut, dans son hostilité, peut-être, mon seul bien ?
« Étranger, seul un mode étranger pouvait être le mien. »


Edmond Jabès, Un étranger, avec, sous le bras, un livre de petit format, Paris, Gallimard, 1989, pp. 32-33

domingo, 14 de julho de 2013

a hard world for little things


Ouço os argumentos de quem tem e não tem razão, concordo, discordo, fico quieta. Confesso: ânimos inflamados me apavoram. Alguma coisa aqui dentro se recusa a acreditar que algo de realmente bom possa surgir de tanto ódio. Alguma coisa aqui dentro não consegue aceitar como um movimento que provoca, que alimenta essa sede de violência que (acredito) é o pior dos homens (e que faz isso surgir dos dois lados da trincheira) possa ser bom para algum deles, para nós em geral. Alguma coisa se embrulha aqui dentro quando ouço alguém defendendo um caminho mais agressivo em prol de um "nós em geral", de um bem-estar de todos nós ( quem somos esses nós, afinal?eu não me incluo). Mesmo que, à partida, tenham razão. Parece aquelas histórias bíblicas do antigo testamento, povos que atravessavam desertos, e lutavam uns contra os outros seguindo a palavra de um profeta, como se os fins justificassem os meios e o derramamento de sangue fosse um acidente de percurso, ou um caminho a atravessar na busca de um futuro melhor, da salvação eterna, whatever.  Isso me soa estranho, numa escala assustadoramente grande e portanto impessoal e asséptica -- como se o sofrimento individual gerado fosse menos importante perto do ideal que move a luta. É como um trator, passando em cima da terra indiferente ao que esmaga pelo caminho, só pensando em chegar a meta -- esse embrutecimento de quem grita palavras de ordem num megafone, pela humanidade, machucando os ouvidos dos indivíduos que estão por perto. 

sábado, 14 de abril de 2012

Noturno 1


Ela disse que era impossível esquecer o anoitecer em Lisboa, o azul escuro no céu, luzes amarelas beijando o chão. Ela disse que não conseguia, que quando o sol ia embora ainda esperava aquele azul, que nunca mais. Ela disse que por isso preferia o sol, o dia, a semana, que aí não se lembrava tanto, que aí não precisava esquecer. Eu disse que  não queria esquecer.

segunda-feira, 2 de abril de 2012


No almoço de domingo, ela me recordou ( sabe-se lá porque) do meu "sucesso" na infância, quando interpretei o papel de Nica, a formiguinha, na peça de final de ano. Sucesso sim: dos 7 anos 10 anos tive que responder por esse apelido na escola, e os coleguinhas dos outros turnos  sempre me paravam no corredor perguntando hey, você que era a  Nica?
(Lembro da sensação de adorar estar no palco tão bem como lembro da última vez que usei uma chupeta -- como se tivesse pleno acesso à memória de outra pessoa.)
A peça era sobre uma formiguinha que corria a floresta em busca de um lugar que pudesse chamar de "lar" --  "um lugar maravilhoso e feliz então ficar" -- ela cantava no refrão. Nessa busca, conversava com macacos, elefantes, leões, árvores, e perguntava a cada um deles para onde deveria ir, e cada um deles indicava a direção de um lugar maravilhoso, que afinal era a própria casa deles. A formiguinha achava os lugares até agradáveis mas não se identificava e por isso continuava andando, procurando.
Acho que no final ela encontrava outras formiguinhas e percebia que o lugar maravilhoso era onde não estava mais sozinha.
Mas é o que eu acho.
Não consigo me lembrar de como terminava a história.

domingo, 18 de março de 2012

Domingos são domingos

Passamos a tarde no parque -- eu, o caderno, a garrafa d'água. Como nos primeiros anos em Lisboa. Nos finais de semana, quando todos voltavam para casa, para os namorados e almoços em família -- a cidade vazia de faces conhecidas. Nos domingos as lojas fechavam, os cinemas enchiam-- invariavelmente eu escolhia o  jardim da Gulbenkian, perto do quarto alugado no Campo pequeno, perto da Estefânia. Dez anos e outro hemisfério, o cenário é o mesmo: pais, mães, bebês e máquinas fotográficas, crianças encantadas com as árvores, desastradas entre as flores, os patos, os pombos. Mas aqui não é o inverno que me expulsa do parque no fim da tarde -- é a chuva de verão.
O parque daqui não tem o cheiro verde escuro da pinha, nem folhas douradas no chão. Mas tem palmeiras bem altas, que rasgam o olhar até o céu azul.

[Um ano depois: ] Todo vestido, saia, lingerie que ela prova ao espelho têm o mesmo efeito   o nome dele inundando pele, corpo, coração.

sábado, 17 de março de 2012

Emma Foverer


No fundo da alma, entretanto, esperava um acontecimento. Como os marinheiros em perigo, ela passeava sobre a solidão de sua vida os olhos desesperados, procurando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte. Não sabia qual seria esse acaso, o vento que o empurraria até ela, para que plagra a levaria, se era chalupa ou um navio, com três conveses, carregado de angústias ou pleno de felicidade até as aberturas dos canhões. Mas, a cada manhã, ao despertar, esperava-o para aquele dia, e escutava todos os ruídos, levantava-se em sobressalto, ficava atônita por ele não vir; depois, ao pôr do sol, sempre mais triste, desejava já estar no dia seguinte.
Flaubert, Madame Bovary

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

luz

Quando fui assaltada, pensava que o meu diário estava dentro da bolsa furtada (não estava, tinha ficado no quarto de hotel). Na delegacia, descrevendo o que havia de valor na bolsa mencionei meu diário. "Você fica tranquila, moça, ninguém vai se interessar pelas suas histórias" -- comentou o policial.

Um pouco antes, ainda no banco de trás da viatura, só lembrava a última entrada no caderno. Este poema. Lembro de pensar que ele entenderia. Se lesse. Indo e vindo por ladeiras escuras rumo ao posto policial, pensava no vulto rápido, invisível -- vindo do mais profundo escuro vazio da fissura, da miséria, do nada. Vindo do escuro, com a noite caindo sobre o mundo pelos seus ombros.
Lembro de pensar que ele não era o único, eu não era a única.  Porque ele também, ele também sabia o que era a noite caindo, assim, sem dó, por cima de tudo.
Estava ali, para quem pudesse ler e era tão óbvio. Era só escuro. A fresta de luz dura segundos -- e pode até cegar.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

De cidades e pessoas

É verdade: eu morro de ciúmes de Lisboa. E odeio quando as pessoas vão fazer "turismo exótico" na minha cidade. Odeio quando passam 10 dias lá e falam com propriedade dos lugares, dos sotaques, das pessoas. Da crise. Meu estômago se revira quando voltam das férias repetindo clichês e lugares comuns como se tivessem visto tudo. Como se fosse só isso.

[Odeio ser tão intolerante, mas é mais forte que eu. Tanto que, quando alguém retorna de viagem, me esquivo até de ver o álbum de fotos. Sei que as pessoas não fazem por mal e não quero magoar ninguém].

Acho que pessoas e cidades não são produtos que podemos embrulhar numa caixinha e colocar à mostra, à venda numa prateleira. Pessoas e cidades são no sendo, no ir e vir, se construindo segundo a segundo. O que captamos desse ir e vir diz mais do observador do que do objeto em si. Preciso citar algum filósofo übercool para justificar algo tão óbvio? Por isso a minha Paris tem cheiro de esgoto, a minha Budapeste morre em cores pastéis. Para mim elas serão sempre o que vi e senti – eu nunca vou dizer que é isso que elas são.

Cause everybody hates a tourist, especially the one who thinks all is such a a laugh, já dizia o profeta Jarvis, em Common People.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

urgência


"É o coelho atrasado da Alice", ele disse.
"Mas nossa, eu nunca reparei."
Se durante pelo menos 5 anos passei ali todos os dias para ir a Lisboa, como nunca tinha visto? Cinco anos de visitas diárias dá mais de 3.000 vezes, 3.000 dias em que passei em frente ao painel de azulejos e nunca reparei no coelho, sempre atrasada que estava para alguma coisa urgentíssima que hoje não tem importância nenhuma. Precisei dos olhos de estrangeiro dele para ver o coelho, que sempre esteve ali, correndo, de mim. Ou o contrário. Precisei dos olhos destreinados para ver o óbvio.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Lisboa amor

E ver a cidade que se ama com um olhar estrangeiro. E deixar-se apaixonar, mais uma vez.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ir e vir

Ao longo dos anos, deixei de gostar de aeroportos. Lugar de onde se parte mas onde sempre fica alguma coisa – o mais importante. Decolagem e pouso são sinônimo de orações, calmantes e angústia; continentes, paisagens, temperaturas e línguas mudam de forma brusca, numa rasteira deliciosa quando se está de férias – cruel quando se tem duas casas. É claro, é confortável deslizar anônima pela saguão, confuso na sua fusão de idiomas, cores, bagagens. É confortável; seria ótimo sem essa dor do que se perde, cravando um pouco mais no peito a cada movimento.

Mas adoro ônibus. O frisson de entrar na cápsula do tempo (e haja tempo), e ter aquelas longas horas sem absolutamente nada em que me apoiar a não ser o pensamento. A paisagem. E em algumas horas estar ali. No outro lugar. Bem longe. Perto do que se quer. Inteira para ir e voltar, quantas vezes for preciso.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Para não me veres


Poemas / Anna Akhmatova,
Trad., seleção e notas de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev
(Relógio d'água)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Outra vida

- Ele ficou lá em casa hospedado, no Estoril. Você não lembra dele?
- O nome não é estranho, não lembro da cara...mas nossa, faz tanto tempo.Parece que foi em outra vida.
- Cara, nem tem tanto tempo assim. Três, quatro anos...? Que bizarro: você era casada com o X, eu com Z...
- A gente descia a rua do alecrim pro cais sodré, sempre parava na pastelaria recife para beber uma e perdia o comboio...e... nossa, ainda se podia fumar nos cafés...
- a Odete nem existia...
- ...
- O meu cabelo era ruivo e comprido, o teu encaracolado e curtinho...
- ... Parece que foi em outra vida. Ou num universo paralelo, sei lá. Em outra outra encarnação.
- Mas só tem três anos. Nem tem tanto tempo assim.