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domingo, 14 de julho de 2013

O lobo e o carneiro

No livro das minhas vidas, Aleksandar Hemon cita os versos do poema épico sérvio A grinalda da montanha, de Petar Petrovic Njegos,  um mantra do nacionalismo cultural sérvio, ensinado nas salas de aula. Hemon descreve como, em versos repetidos de cor por crianças e adultos sérvios, o protagonista reconhece que o extermínio total dos muçulmanos é a única solução para preservar a liberdade e soberania do seu povo.  O lobo tem direito a um carneiro/ como um tirano a um homem fraco./ Mas para esmagar o pescoço da tirania/ Conduzi-la ao conhecimento virtuoso/ Esse é o dever mais sagrado de um homem.
No túmulo, flores brotarão/Para uma distante geração futura, dizem os versos.
Difícil destacar algum trecho deste livro que tenha me tocado -- quase tudo é tão violentamente genuíno, desencantado e sincero que, passando pelas páginas, volto por momentos a acreditar levemente na humanidade -- acreditar que é possível sobreviver e florescer em meio a um catástrofe dessas, e manter o caráter, e preservar o que há de único e precioso em nós mesmos em meio a uma realidade que desaba. Lembrei do Eating animals, do Jonathan Safran Froer, na parte em que sua avó, debilitada após fugir de um campo de concentração, recusou um pedaço de porco porque não era kosher. Mas você poderia ter literalmente morrido de fome, ele questionou, ao que ela se justificou: "Se nada mais importa, então não há nada que nos salve”.

O lobo tem direito a um carneiro, o tirano a um homem fraco. Continuo sem saber que gatilho exato esses versos, que li meio zonza antes de dormir, dispararam em mim, o que foi que me  fez pegar a caneta e escrever, letras rápidas e nervosas : A tua fome não te dá o direito de comer nada, nunca, nada.