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terça-feira, 19 de março de 2013

Quando vejo, já deslizo as mãos pela laminação em brilho da capa. Meus olhos param na imagem estampada - um still em p&b de um dos seus diretores preferidos, no livro de um dos seus autores preferidos. A estante de poesia me espera sugerindo vários comfort books para o dia – e eu me perco na imagem congelada, o retrato que algum dia irá prender os olhos dele também.
Você desiste fácil, você não se esforça – , minha mãe diz, é verdade, talvez eu não queira mesmo. Já não quero o café, já não quero o que vim comprar, já não quero mais nada. Melhorar. Para que, para quem. De que me serve isso, a quem serve?
Passam por mim como sumo de toranja por um passador roto – como diz Adília. Ficam memórias e memoriais aqui dentro – ruas, praças. Miradouros. Nomes e gostos. O perfume subitamente no travesseiro – resquício de um sonho, de um delírio. As saias e vestidos que lhe ficariam bem. As pessoas não se separam, as pessoas se abandonam, –  iz Sofia a Rímini. As pessoas num supermercado, experimentando, gostando e enjoando, devolvendo à prateleira.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Sofia diz

Ninguém se separa, Rímini. As pessoas se abandonam. Essa é a verdade, a verdade verdadeira. O amor pode até ser recíproco, mas o fim do amor não, nunca. Os siameses se separam. Mas não se separam, tampouco: porque sozinhos não conseguem. Um terceiro precisa separá-los: um cirurgião, que corta pelo meio o órgão ou o mesmo ou a membrana que os une com um bisturi e derrama sangue e na maioria das vezes, diga-se de passagem, mata, mata um deles, pelo menos, e condena o outro, o sobrevivente, a uma espécie de luto eterno, porque a parte do corpo pela qual estava unido ao outro fica sensibilizada e dói, dói sempre, e se encarrega de lembrá-lo, sempre, de que não está nem nunca vai estar completo, que isso que lhe tiraram nunca mais poderá ter de novo.

"O passado", Alan Pauls