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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Al Berto [11-01-1948 — 1997]



Eis a noite onde esqueço a vida e cismo sobre aquilo que ainda não sonhei. E aceito como único presságio a melancolia aérea das açucenas. aceito como único consolo a desolação imensa dos teus braços. aceito, aceito como único calor o da tâmara crescendo no deserto, aceito como único vício aquele cuja pele ainda não toquei. aceito como única noite a das searas do fundo do mar. aceito como única fala possível aquela que é susceptível de rasgar pulsos. aceito como único corpo aquele que não cresceu dos relógios do mundo. Aceito, aceito como único sonho aquele espelho onde te reflectes e me encontro. aceito a humildade de viver sozinho, a vergonha dos desejos insatisfeitos, a noite que me devora, aceito, aceito estas paredes, estes objetos, este sol, esta varanda, este mar, estes braços, estas mãos, este sexo, estes dedos, aceito, aceito, estes peixes de enxofre estatelados sobre a mesa, estas visões de catástrofe, estes sonhos premonitórios, estas luzes surgindo na pele, aceito, esta dor que me morde, esta escrita, este coração, estas doenças, estes cabelos, a escassez da fala, este silêncio cada dia maior e mais perturbador, aceito esta cadeira, este livro, este nome, estes olhos esmagados pela insónia, esta cama vazia, este frio, aceito, aceito, aceito esta janela, esta música de vísceras, esta faca, este sussurro, esta ausência, esta imagem desfocada, esta gravata adolescente, este sismo, este grito, estas coxas sujas de esperma, esta comida, estes cigarros, estes cadernos rabiscados que não servem para grande coisa, aceito, aceito a inutilidade de viver, de morrer, de estar aqui, de me deslocar, de permanecer, de fugir, de esperar, aceito, aceito a inutilidade de me reconhecer e de amar, a inutilidade dos dias, aceito, aceito o marulhar lodoso da alma, aceito não ter projetos nem querer construir uma pátria, aceito, aceito o vazio imenso das algibeiras, a dor das mãos percorrendo um corpo, aceito o caos e esta mosca que não encontra saída e morre no calor da lâmpada, aceito, aceito estes ossos, esta loucura que me assola lentamente, lentamente, aceito ficar louco, inconsciente, indefeso, aceito a tristeza que me ofereces, a pouca água que me é necessária, aceito, aceito nunca mais me lembrar de mim e viver pobre, aceito nunca mais te tocar nem acreditar em deus, aceito, aceito não possuir nada, não querer nada, aceito, aceito nunca mais aqui voltar, nunca mais.

Al Berto, "O medo"

quarta-feira, 22 de maio de 2013

corpo-cidade

Começa no princípio e o princípio são os pés, os alicerces, a base -- placas de argila e estacas corroídas, frágeis ante a iminência do sismo, parte de sua própria falha geológica constitutiva.
Cidade-corpo por onde um rio corre, roendo por dentro.

[ Uma escrita, um corpo, uma cidade que se pensa à beira do aniquilamento, do êxtase, da dissolução.]

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ophelia


Do prefácio: "Al Berto escreve para viver porque já não pode suportar a vida, porque não pode contar a ninguém, porque os afogados não falam."

Acordo de um sono em que voltava do mar e explicava às pessoas que não, não tinha morrido afogada, eu estava ali inteira, estava bem. As pessoas saíam, e eu continuavam explicando a mim mesma que não tinha morrido, e tocava a pele viva em cada poro encharcado de água  e sal, mas ali.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Al Bertianas

"Desatar a escrever" ou "simular a espera" são saídas de escape ao real, maneiras de evitar o real, de o denegar.
...
Soube que o deserto, o meu deserto, se esconde inevitavelmente dentro de mim. Nele circulam ecos de vozes mais antigas que a minha, e umas mãos de âmbar nocturno tocam incomensuráveis areias.
...
A estrada é uma concepção que não se realiza. Não é um princípio sem fim, é apenas meio, que é sempre o lugar onde me sinto, no meio de alguma estrada mental.




segunda-feira, 19 de novembro de 2012


as  canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei  onde. as borrachas já não apagam a melancolia das  palavras. (...)  o vazio devora-nos. onde estivemos este  tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos  corpos?
Al Berto

(Ela toca a minha testa e diz que o frio afinal é uma febre)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

domingo, 2 de maio de 2010

"um vapor lilás imenso e transparente
O Puto-Gazela-Voadora, Moustapha, agarra-se e vive colado na minha espinha viciada, like a little monkey. é o meu parasita burroughsiano de estimação. snifa coca e fode como se o mundo terminasse no instante em que ejacula. devoramo-nos um ao outro, sugamo-nos. ele vigia-me os gestos quando escrevo e eu sinto-o, por vezes, desmaiar nas veias. o amor arrefeceu, o corpo imobilizou-se esquecido naquilo que acabei de escrever. o deserto estará onde estiveres, é uma lenta aprendizagem para o nada.
um vapor lilás imenso e transparente
Moustapha não existe, nem eu. mas, às vezes, coincidimos na contemplação da chuva, ou numa miragem, por trás dalguma máscara de areia. o deserto, ei-lo em toda a extensão de nossos sexos. subo as escadas titubeando, Moustapha já não me persegue. sinto-me doente, queria continuar a escrever e não consigo. escrever até que o riso me impedisse de caminhar e revelasse a noite de todos os desencontros. o riso cruel de Nervokid. repentinamente sei que tudo se passou numa outra idade, longe, muito longe daqui. "

"Equinócios de Tangerina", O medo, Al Berto