sexta-feira, 26 de junho de 2015

Outro dia me perguntava o que encontraria se pesquisasse a fundo a origem dessa relação com a escrita. E pensei que podia ser algo tão simples como a solidão -- se ela não fosse tão omnipresente desde tão cedo,  será que haveria espaço para essa relação, nestes moldes? Depois de horas sem a voz do Outro para reorganizar os pensamentos -- eles se diluem na atmosfera vazia e porosa ao meu redor. Depois de horas cedo e traço qualquer coisa no papel -- traço alguma estrutura.

Ou, contra o tédio, o êxtase:

"Por outro lado, a solidão actua também como um filtro. O que se escreve no dia seguinte é mais do que uma enumeração de impressões; durante a noite, o êxtase demarca-se do quotidiano pelos seus belos contornos prismáticos, forma uma espécie de figura e é mais facilmente rememorável. Diria que se contrai e assume a forma de uma flor.
Para nos aproximarmos dos mistérios da felicidade no êxtase teríamos de reflectir sobre o fio de Ariadne. Que prazer no simples acto de desenrolar um novelo! Um prazer que tem afinidades profundas, quer com o êxtase, quer com o da criação. Avançamos, mas, ao avançar, não só descobrimos os meandros da caverna em que nos aventurámos, como também desfrutamos dessa felicidade do descobridor apenas através daquela outra que consiste em desenrolar um novelo. Essa certeza que nos é dada pelo novelo engenhosamente enrolado que nós desenrolamos -- não será essa felicidade de toda a produtividade, pelo menos daquela que tem forma de prosa? E no haxixe somos seres de prosa e de prazer da mais alta potência."

Sobre o Haxixe e outras drogas, Walter Benjamin, trad. João Barrento

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