segunda-feira, 15 de junho de 2015

Aniversários

Lembro de um aniversário – tinha acabado de chegar a Lisboa – e ainda não tinha amigos. Só a Raquelzinha. Eu comprei um bolo pequeno, acendi uma velinha – fiz um pedido sozinha na minha cama. Depois joguei o bolo fora. Naquela época eu ainda não comia.
Hoje o dia começou bem. Acordei a tempo para a aula e conversei com a professora, que gostou do meu projeto. Cheguei a casa e escrevi mais e mais para o outro trabalho, tentando justificar a mim mesma que é essa a história que precisa ser contada, que não tenho como fugir. Depois adormeci espontaneamente; acordei com a Odete me pedindo comida, me pedindo para sair.
Cuidei da pequena. Saímos na chuva e, na volta, fiz comida para ela – acabou a ração. Voltei para o computador para adiantar o freela. E as horas foram passando.
Não é o primeiro aniversário que passo sozinha. Também não é o primeiro em que não sinto que deva comemorar. Há tanta coisa que tenho feito errado. Tanta coisa que tenho me esforçado mas que, simplesmente, não consigo fazer. Se a intenção é o que conta, já deveria ter saído dessa roda de samsara – mas pelo jeito o resultado é mais importante que o esforço. Mas eu não me importo.
Seco as lágrimas. Sei que vai ficar tudo bem. Nem que minha vida seja apenas um quarto solitário e muitas histórias para escrever, eu vou ficar bem. Se conseguir cumprir as tarefas diárias, não desapontar mais ninguém e ainda escrever, o que mais posso pedir da vida? Amor?

Ora, nem todo mundo nasceu pra ser alto, loiro, gordo ou magro. Nem todo mundo nasceu pra ser amado também. É como as coisas são – não vale a pena se revoltar e brigar por achar que se merece alguma coisa. É pura perda de tempo e energia.

Prefiro escrever. Alimento o papel com meu pulso e ele me alimenta de volta, preenchendo o coração. Deve haver mais do que isso, claro. Crianças, amigos, amantes, cachorros. Mas o papel e as palavras, por ora, são o bálsamo que enche de ternura qualquer ponto doído do coração.

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