terça-feira, 30 de setembro de 2014

Don't swim tonight, my love, the sea is mad my love




Dezoito paredes. Duas portas de vidro na pequena varanda de onde me debruçava para a rua. Memórias impregnadas como cheiro de cigarro no floral bege-rosa do sofá. Os furos queimados no colchão, tapetes e colcha, marca de cada amigo que ia passando. 500 sorrisos meus. 200 brigas e gritos e ameaças dele. 600 sorrisos dela. 900 abraços de cada um dos amigos que fiz lá, ou que vieram me visitar nesses 10 anos. Cada festa reunião, jantar, cenas passando como flashes enquanto tento apagar, deixar ir, dormir. Os almoços de sábado na época em que eu cozinhava para oito pessoas – e comia feliz. Os primeiros passos da Odete, tão pequena que eu tinha medo de esmaga-la quando ela acompanhava quietinha meus movimentos na cozinha. A mobília dele, indo embora no carreto, eu assistindo pela janela com uma taça de vinho branco. As malas dela, duas grandes e mais três sacos de lixo devidamente depositados na porta. O dia que encontramos uma estante na rua e carregamos 3 quarteirões até a casa e lixamos e pintamos de vermelho e penduramos na sala – não cabia livros, só cds. Na época ainda havia cds.

Eu voltando cedo da revista, dentro do comboio estranhando as ondas tão altas, no dia do terremoto. A fissura no alto do teto virando rachadura após o abalo. Eu no primeiro estágio, almoçando qualquer coisa e correndo de volta para o jornal. Chegando às 23h de um milhão de cursos que não serviram para nada. Nós sendo informados na reunião de pauta que a revista tinha falido. Eu desempregada, tomando chá, vendo Oprah, comendo tofu com coca-zero, plenamente consciente do tsunami que viria a seguir. 
–Você parece serena, com a decisão de ir embora, ela me disse. Meu pai nunca me pediria isso, ela acrescentou. 
– Não há nada a fazer além de esperar e manter a calma, respondi. Eu serei eu com todas as minhas questões em qualquer lugar do mundo – ela assentiu sem me dar muito crédito, enquanto ouvíamos Magnetic fields e comíamos azeitonas do Leste com café. ( o que havia).

Acertei, ainda sou eu. Tirando a alegria. De voltar para casa. Para a minha casa. Aquela em que eu pintei todas as paredes (com ajuda de amigos), do rodapé ao teto. Aquela para a qual escolhi a mobília, uma por uma no Ikea – ou achava na rua e pintava ou cobria com papel de parede cheio de patinhos e florzinhas ou outras estampas kitsch que me faziam sorrir de manhã. Aquela casa que tinha uma cortina pink, cenário preferido para as fotos dos meus amigos. Aquela que os meus amigos visitavam – na época em que parecia que sempre estaria rodeada por eles, e que sempre haveria kindred spirits à minha volta.

Eu disse que viria um tsunami e era só isso que sabia, sem detalhes. Rezava para não sobreviver e ter que recolher os destroços.

Ainda hoje desconfio do mar, desconfio das ondas. Elas vão e vêm exatamente como no dia do abalo – no terremoto as coisas não tremem, elas balançam, de um lado para o outro até você duvidar da própria sanidade. Observo o mar e espero; a onda parece que não quebra nunca. Quando me aventuro nas águas elas me reclamam e puxam logo para a parte alta, onde meus pés não alcançam, só para me atirar de novo à areia. Às vezes dá tempo de ficar uns segundos deitada, observando o céu. Sentindo a espuma apaziguar o corpo, lixado como se com pedra pomes. Os dedos, pernas e pés afundando na areia, como se parte da paisagem, uma concha qualquer.

Eu, que recolho e escolho conchas como se pedras preciosas.

Quem mais o faz?

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