sexta-feira, 8 de novembro de 2013


Naquele lugar, era sempre inverno. Na sala de espera, o aquecedor não dava conta das adolescentes trêmulas, muito menos dos ressacados. Eles gemiam e resmungavam, à espera da  metadona. A tv pequena rangia com o vento, a imagem se perdendo em chuviscos. Cumprimentos tímidos no corredor, os  rostos vazios de todas as semanas. Os mesmos rostos cinzentos.

Um cigarro do lado de fora, mãos geladas me passam o isqueiro. Por debaixo da manga adivinho as marcas no pulso, chamam meu nome e eu desvio os olhos. Entro na primeira sala, as enfermeiras observam-me tirar o casaco, subir na balança. Saio rapidamente, elas me fazem voltar.

Tiro as calças e a blusa, subo novamente.Tiro as meias, as enfermeiras cochicham lá no fundo, não vejo. O sutiã também? Tudo bem. Tiro a roupa, e tudo se apaga num branco sem fim.

Na outra sala ele me espera, o sorriso estático de sempre. E eu respondo a tudo, dócil, alerta, obediente. Quantas horas de sono, quantos quilos, quanta fome, quanta libido – ele anota tudo. Deve saber do que preciso. As mãos grossas rabiscam papéis, preenchem espaços, completam fichas – estou de preto e pareço mais frágil, novos nomes surgem na receita. Doses mais altas. Agradeço a atenção, indiferente. Na saída a Patrícia espera a sua vez, cada dia mais alheia. Parece serena – ela não usa cinto, as calças caem. Eu uso cintos, vários, e faço novos furos à medida que é preciso. Mas eu vivo sozinha, não faz mal, ninguém vê.

Lá fora os pais da Patrícia a esperam. Da porta de vidro observo o casal idoso e vejo em minha mente os cabelos loiros da Teresa atrás deles -  aqueles cabelos descoloridos, o cheiro abaunilhado a angel no seu abraço, e a sua pele rósea na minha, e eu imagino - e meu coração salta mas logo retorna à realidade do seu ritmo lento - não, eu estou sozinha, não há ninguém. Só eu, o cigarro e os plátanos do velho hospital, folhas amarelecendo com o outono. Folhas caindo.

Uma vez chamaram o meu nome e era outra a doutora. Era nova. Ela leu alguma coisa nas fichas, enquanto eu roía as unhas do outro lado da mesa. Ela parou de ler e me olhou nos olhos, com um ar descrente. Me examinou de cima a baixo e parou nos olhos, e ela perguntou por quê.

E ela me disse: Você se acha especial por ser doente?

Não, você não é especial.


Nenhum comentário:

Postar um comentário