sexta-feira, 27 de março de 2015

O mais fiel


Das primeiras vezes o medo, o pânico palpável no frio do estômago, o nó nos pulsos – ele vem e me invade, esmaga, esvazia – tudo sai do lugar, as coisas caem ao chão e desabam como eu, sem ar. Como onda ele vem e vai, ele sempre volta. Como onda que quebra, tragando tudo para um ventre vórtice aquático, cuspindo na costa o que não lhe interessa: seixos, meu corpo e outros restos de naufrágio – o que sobrou?

Das primeiras vezes o terror do Tsunami, o horizonte de águas escuras engolindo o mundo, o medo para além de qualquer fé. Até que um dia, habituada ao escuro, ficou mais claro o movimento das marés: a correnteza tranquila sabe o momento exato, e aguarda, atenta – como o olhar fixo dele, como o de mais ninguém. A banhista na praia reluta em crer, disfarça, se diverte contando barquinhos no horizonte, estrelas do mar – eu resisto, até que distraída me pego olhando para o espelho das águas, ajeitando a mecha de cabelo na orelha nua, sem brincos, oferenda inteira pra ele. Ele que sempre volta: o mais fiel, aquele que insiste e persiste, como o mar quebrando na costa destruída.

Ele aquele que resiste, que me invade, que me ocupa quando não há mais porquê estar em mim – quando não há som nem luz e todos já desistiram, quando todos já foram embora. Depois do mergulho forçado levanto lentamente, limpo as algas do corpo doído, procuro na areia o que a sua fome poupou.

E encontro. Pequenas conchas num branco de opala, madrepérola suave cheia de curvas em cores pastéis tatuadas, o brilho da água nas pedras. E encontro, sempre.

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