sábado, 3 de junho de 2017

Resumo

There’s nothing to be gained by remaining locked inside yourself, but not much is happening around you either.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

água que não se descola

Expulsas do aquário uterino do mar, despertamos na costa. Abrimos os olhos, alheias. Puxamos o ar – cada gota afogando um poro, inundando o corpo que nunca mais será de outro elemento. Suor choro saliva e leite tatuam a pertença em nossa pele – seremos água, líquidas para sempre.
Eles se sacodem – são só areia –, secos, imunes. Livres do elemento, que evapora sob o sol. Cai pela terra, se apaga fácil, num abraço de uma toalha.
Em nós o elemento escapa, escondido e intacto no úmido entre nossos pelos.
Desde crianças sabemos do risco e prazer do mar – eles temem o fundo; nós ansiamos pela dissolução em êxtase e espuma, onda batendo e desfiando na costa. Subtil formação distante ganhando força até que de repente seu furor quebra em rochedos, recifes, corais.
O homem teme a corrente puxando-o para baixo – para nós, baixo e cima nada mais é que a costa oposta. Aquela que nunca conseguimos alcançar.
Assistimos ao embate água - homem flutuando no sal de um mar que apaga nossos contornos. A matéria vertente embala a pele e dissolve suas fronteiras, unindo vozes num único som. Diluídas no grande mar que os cerca, somos ondas, peixes, ostras, tubarões. Lagostas, tsunamis. Peixes – olhos de naufrágios e afogamentos, o coração leal a um reino aquático, dizendo não à gravidade terrena. Insistindo na alquimia respiração, oxigênio e ar.
Ao menos até
( ) aprendermos a nos secar
( ) voltarmos ao aquário
( ) dissolvermo-nos sem som
( ) deixarem-nos praticar nossa alquimia. Em paz.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

advice to the young and maniac...student

Se está cheio de ideias brilhantes, passe-as a escrito. Verifique a lista depois de estar estabilizado e decida quais as que fazem ainda sentido.


or rage against

enjoy the fucking ride and get shit done

-- on mania, insomnia etc

sábado, 30 de abril de 2016

escrever • mergulhar • respirar • submergir • nascer



"Por vezes sinto que não escrevo, que descrevo os esforços para escrever, os esforços para nascer" – Artaud

Se escrever é subir e tomar ar, então afundo no irrespirável. Assistimos a água invadindo os pulmões, sabendo que apenas um pequeno, um mínimo movimento, poderia nos trazer de volta ao oxigênio. No entanto quem é capaz, de verdade –  de se esvaziar do excesso de si e respirar o novo – ?
Vamos lá, quem é capaz, para além dos saraus e noites de lançamentos e grupos de facebooks e festas com álcool e solidão na volta pra casa a página em branco?
O fastio aprisiona. As palavras quebram as costelas, forçam a passagem, O corpo sobe, obrigado a tomar a ar. É assim que acontece. Não tem fórmula, técnica, musa, nem magia.

domingo, 24 de abril de 2016

Whatever works –- a arte da evasão


Não foi fácil adormecer ontem; uma dor de cabeça resistente a 1000 mgs de paracetamol e 300 ml de gin pressionava têmporas e fundo dos olhos há 5 horas. Eu sabia quantas porque depois de oito já poderia repetir os remédios. Ele perguntava por que eu estava assim e eu sabia que nenhuma resposta era socialmente válida além do estresse relativo a uma (im)provável estabilidade financeira futura e a dissertação a ser parida. Uma semana pelo menos que o senhor que não troca o suéter, o que dorme no estacionamento em frente à futura creche, sumiu. Uma semana que não o vejo nem lá, nem na hora do almoço comprando quentinha no largo, nem à tarde distribuindo milho para os pombos. Foi-se.

Nenhum carro de serviço social passou pela rua – os outros continuam aqui.

Há uns três anos foi assim com ele também. Um dia do nada perdi o seu rastro, e nunca. Nunca mais apareceu. Poderia ter sido internado – era um vizinho meu, dormia nas ruas por puro alcoolismo. Mas depois de seis meses sem notícias? Depois de um ano? Dois?
Uma semana. Procuro todos os dias pelos seus sinais – há sete dias que não encontro nenhum toco de cigarro perto do canto que ele arruma para dormir.

Qualquer um pode desaparecer assim.  Quem é que vai reclamar  – e com quem? Nem as pombas que ele alimentava diariamente parecem sentir falta. Antigamente tínhamos que abrir espaço para andar entre elas, quando, sentado no paralelepípedo, ele distribuía milho; agora aquela esquina está limpa, como disse o segurança, a dona daquele outro cachorro e as palavras ecoando na minha cabeça. Limpa.
I know I should be totally clean, but well, (..). Don't worry bae, whatvr works now
Pergunto-me se é assim que parece a ausência do que incomoda mas no fundo nem vemos: the coast is clear. Um alívio. Também perdi o rastro do meu desaparecimento. Se começou em fevereiro, com o acidente. Em março, com a ansiedade social e a depressão. Ou no final de março com isso mais o resto e a inabilidade para gerir tudo e a vontade de imobilidade e invisibilidade, natural num bicho ferido. Perdi o início. Não acompanho mais o desenvolvimento. Assisto distante, apenas comento algumas fases. Estamos in bloom.

A raiz do tubérculo é perito na arte da evasão para o interior. Por que?
a) melhor sair do interior egoico doído para um grande cosmos sem sensação e personalidade.
b) nada como um grande exercício de economia de recursos pessoais devido ao esgotamento

Iremos voltar algum dia? Provavelmente. A que preço, não sei.
O que irá acontecer quando se romper o lacre de silêncio e imobilidade que costura pele, pulso, sonhos, riscos, rascunhos no retiro dessa cave escura?
Quem não é visto não é lembrado, e isso é para ser lido literalmente.
Será que ainda haverá espaço no mundo?
Quantas semanas até esquecerem totalmente? Quanto tempo até a gente realmente se apagar e ir?


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Big bang


Ando na rua olhando para o chão de pedras portuguesas quando duas senhoras rindo me fazem voltar a cabeça para elas e depois para o céu – no azul, a dança atômica das aves que se unem e separam em grandes cardumes rasgando as ondas de ar quente do fim da tarde. Havia um fenômeno qualquer com esse nome – uma vez ele me explicou – já esqueci, percebo com um sorriso. Já não me lembro. A grata surpresa de de repente se pegar esquecendo. Os pássaros o sol o céu o azul e as senhoras dançam em meu peito num equilíbrio perfeito, num segundo frágil em que tudo se encaixa  antes de desmoronar para o caos natural e sem sentido em que vivem as coisas. Num segundo mínimo de um piscar de olhos – cílios com cílios disparando o big bang do universo fruto de uma mente em repouso e o pulso insistente do peito.